segunda-feira, 4 de junho de 2018

Quatro expectativas ante à intelectualidade católica

Recentemente estava lendo a obra “Natureza e Missão da Teologia” do outrora Cardeal Joseph Ratzinger; embora destinada propriamente a teólogos, há ali muitos preciosos conselhos úteis a todo “intelectual” católico. 

Comecemos por definir a Teologia. A Teologia é um discurso sobre o todo, assim como a filosofia, diferindo porém pelo fato da aceitação íntegra da Revelação; desta forma é a Teologia uma reflexão sobre o todo a partir do dado revelado. Há, pois, dois movimentos no interior da ciência sagrada, por um lado interno, dessa Fé que busca melhor compreender a si mesma, penetrar mais profundamente em seus mistérios; por outro externo, o qual seguindo o conselho de São Pedro (1Pd 3, 15), busca responder aos questionamentos dos não crentes a respeito das razões de nossa fé. Ratzinger também elenca as expectativas do mundo com relação ao teólogo, espera-se ao mesmo tempo que este possa contribuir para o diálogo entre as religiões, na confecção de uma espécie de moral global por um mundo melhor e de paz, bem como que possa trazer algum consolo as almas com sua palavra e seus estudos.

Pensemos um pouco sobre estes pontos:
1. Aprofundar a compreensão de nossa Fé;
2. Responder aos questionamentos “do mundo”;
3. Contribuir para o diálogo em prol de um “mundo melhor”;
4. Oferecer consolo as almas.

O primeiro ponto é, pois, uma vocação de todo o católico; a Fé é um mistério tão grande, tão sublime, tão belo, que sentimo-nos impelidos a melhor compreendê-la a fim de vivê-la melhor, a própria natureza do amor pede isso, quanto mais se ama, mais se quer conhecer o amado. Esta compreensão não é apenas uma intelectualidade seca, mas uma forma também de espiritualidade. Neste sentido se compreende que não existe verdadeiro teólogo, verdadeiro intelectual cristão, sem uma vida espiritual, sem uma “experiência de fé”. E dessa experiência, desse conhecimento contemplado, surge a necessidade da partilha, de colocá-lo a serviço, primeiro a comunidade, aqueles que estão mais próximos de nós, daí que o quarto ponto, o oferecer consolo as almas, é consequência direta do primeiro. 

O segundo ponto marca nossa caminhada e combate sobre a terra. Sabemos que a Revelação é verdadeira, a mais profunda verdade sobre o Ser, e temos o dever de comunicar essa verdade, de disputar com aqueles que não creem, responder suas vãs objeções e dar as razões de nossa fé. É a Apologética Cristã. Mas esse responder as indagações não diz respeito apenas a apologética, muitas vezes essas indagações questionam não os motivos de nossa Fé, mas nosso agir, como deveria ser o agir cristão diante de novas situações que se apresentam, como por exemplo o advento de novas tecnologias como a Genética e a Robótica, as propostas político-ideológicas, etc.

O terceiro ponto diz respeito as exigências de César. São as ideologias que governam o mundo querendo a resposta da religião, não em termos de Verdade, mas em termos de utilidade. Como a Igreja pode contribuir para “construir um mundo melhor”; e mais, a questão em Ratzinger se coloca de forma restrita, exige a aceitação do pluralismo religioso, não se põe em questão se deve ou não haver um diálogo entre as religiões, mas se afirma, e se pede da Igreja, do teólogo, do intelectual cristão, sua contribuição. Ratizinger acredita que é possível responder a estas indagações de César, esse ”ultimato” político, sem sacrificar a verdade, é possível dialogar, conviver neste mundo pluralista sem renunciar a nossa identidade, sem a cair na tentação do relativismo, defende o cardeal, embora reconheça as dificuldades desta missão. Diferente do Cardeal Ratzinger, eu (que não sou grande coisa) penso que não se pode aderir a este projeto pluralista, antes deve-se buscar a hegemonia católica, a extinção das falsas religiões; neste sentido tal diálogo deveria ter em vista sempre a conversão dos infiéis, e não uma diplomacia estéril, nem a adesão à um projeto de mundo liberal-maçônico. Mas, seja como for, ainda permanece o questionamento sobre o papel civilizacional da Igreja; como ela pode contribuir para a sociedade, seja a sociedade moderna, ou quem sabe um projeto de sociedade futura e tradicional.

Mesmo fora do rigor do método teológico, estas quatro questões são uma constante na vida intelectual de qualquer católico, seja qual a for sua especialidade ou área de atuação, e a resposta a elas define os rumos de nossa vida e nosso pensamento.

Nenhum comentário:

Postar um comentário