segunda-feira, 25 de junho de 2018

Gaudete et Exsultate (II): Uma Mensagem de Deus para o Mundo

Vimos anteriormente o caráter universal e ao mesmo tempo estritamente pessoal do chamado a santidade. A todos os cristãos se estende este chamado, porém cada um segundo o seu caminho. Mas, não é a santidade apenas um caminho de realização pessoal plenamente individual, como também um remédio espiritual para o mundo; ensina-nos Francisco: 
19. Para um cristão, não é possível imaginar a própria missão na terra, sem a conceber como um caminho de santidade, porque «esta é, na verdade, a vontade de Deus: a [nossa] santificação» (1 Ts 4, 3). Cada santo é uma missão; é um projeto do Pai que visa refletir e encarnar, num momento determinado da história, um aspeto do Evangelho.
[...]

21. O desígnio do Pai é Cristo, e nós n’Ele. Em última análise, é Cristo que ama em nós, porque a santidade «mais não é do que a caridade plenamente vivida». Por conseguinte, «a medida da santidade é dada pela estatura que Cristo alcança em nós, desde quando, com a força do Espírito Santo, modelamos toda a nossa vida sobre a Sua». Assim, cada santo é uma mensagem que o Espírito Santo extrai da riqueza de Jesus Cristo e dá ao seu povo.
[...]

23. Isto é um vigoroso apelo para todos nós. Também tu precisas de conceber a totalidade da tua vida como uma missão. Tenta fazê-lo, escutando a Deus na oração e identificando os sinais que Ele te dá. Pede sempre, ao Espírito Santo, o que espera Jesus de ti em cada momento da tua vida e em cada opção que tenhas de tomar, para discernir o lugar que isso ocupa na tua missão. E permite-Lhe plasmar em ti aquele mistério pessoal que possa refletir Jesus Cristo no mundo de hoje.

24. Oxalá consigas identificar a palavra, a mensagem de Jesus que Deus quer dizer ao mundo com a tua vida. Deixa-te transformar, deixa-te renovar pelo Espírito para que isso seja possível, e assim a tua preciosa missão não fracassará. O Senhor levá-la-á a cumprimento mesmo no meio dos teus erros e momentos negativos, desde que não abandones o caminho do amor e permaneças sempre aberto à sua ação sobrenatural que purifica e ilumina. 

Recordo-me que em "Como Vencer a Guerra Cultural", Peter Kreeft, ao abordar a questão da  guerra à verdade promovida pela modernidade, propõe uma solução inesperada: não fala o autor de manobras políticas, ou golpes midiáticos, mas a santidade:
A arma mais forte deste mundo é a santidade. Nada pode derrotá-la.

Pode parecer estranho a algumas pessoas falar de santidade quando se fala em guerra, até mesmo de guerra espiritual. Muitas “pessoas religiosas” gostam de pensar sobre a santidade porque a consideram o exato oposto da guera. Consideram santidade não apenas pacífica, mas “boazinha”: reconfortante, otimista, felicitadora.

Elas estão erradas. Cristo é, de fato, o Príncipe da Paz, mas a paz trazida por Cristo é radicalmente diferente,. Ela é dada “não como o mundo dá” (ver João 14:27). E certamente não é “boazinha”. Talvez a ideia que se faz popularmente dos santos é que sejam pessoas “boazinhas”, mas os santos de verdade não são bonzinhos. São guerreiros. Eles realmente incomodam os outros, tão profundamente, que são muitas vezes martirizados. Se eles não incomodarem ninguém, não são santos. (…) [1] 


O Papa insiste na santidade vista como missão, missão que exige atividade, o combate no mundo e não a fuga: 
25. Dado que não se pode conceber Cristo sem o Reino que Ele veio trazer, também a tua missão é inseparável da construção do Reino: «procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça» (Mt 6, 33). A tua identificação com Cristo e os seus desígnios requer o compromisso de construíres, com Ele, este Reino de amor, justiça e paz para todos. O próprio Cristo quer vivê-lo contigo em todos os esforços ou renúncias que isso implique e também nas alegrias e na fecundidade que te proporcione. Por isso, não te santificarás sem te entregares de corpo e alma, dando o melhor de ti neste compromisso.

26. Não é saudável amar o silêncio e esquivar o encontro com o outro, desejar o repouso e rejeitar a atividade, buscar a oração e menosprezar o serviço. Tudo pode ser recebido e integrado como parte da própria vida neste mundo, entrando a fazer parte do caminho de santificação. Somos chamados a viver a contemplação mesmo no meio da ação, e santificamo-nos no exercício responsável e generoso da nossa missão.

27. Poderá porventura o Espírito Santo enviar-nos para cumprir uma missão e, ao mesmo tempo, pedir-nos que fujamos dela ou que evitemos doar-nos totalmente para preservarmos a paz interior? Obviamente não; mas, às vezes, somos tentados a relegar para posição secundária a dedicação pastoral e o compromisso no mundo, como se fossem «distrações» no caminho da santificação e da paz interior. Esquecemo-nos disto: «não é que a vida tenha uma missão, mas a vida é uma missão».

Pensemos nisto: o remédio para nossa civilização decadente não são as manobras políticas ou os construtos ideológicos, mas a santidade. Precisamos de santos, homens e mulheres que ecoem na terra a voz de Cristo Jesus.
________________________________
[1] Como Vencer a Guerra Cultural - Peter Kreeft; pág. 12-130.

Nenhum comentário:

Postar um comentário