quinta-feira, 26 de abril de 2018

Gaudete et Exsultate (I): "Cada um por seu caminho"

Que deve fazer o homem? A que ele é chamado a realizar nesta terra? Para a lógica capitalista, o “sucesso” se resume a um misto de prosperidade financeira e boa fama. A isto se dedicam milhões de indivíduos, à perseguir esta quimera e a ela dedicar todas as suas forças. Alguns, me refiro sobretudo aos protestantes e sua Teologia de Mamon, ou Teologia da Prosperidade, chegam mesmo a instrumentalizar a religião com tais fins, transformando as verdades eternas numa espécie de coaching espiritual. Em sua nova exortação apostólica, Gaudete et Exsultate, o Papa Francisco recorda-nos que: <[...] O Senhor pede tudo e, em troca oferece a vida verdadeira, a felicidade para a qual fomos criados. Quer-nos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa. [...] (§1)>; é para a santidade que somos chamados, santos, filhos de Deus, e não este simulacro de homem: o “winner” capitalista. Escutemos e meditemos; meditemos profundamente sobre isso. Tenho eu organizado e ordenado minha vida em busca da santidade, ou antes busco os bens do mundo, vivo segundo a lógica dos pagãos? Estou de fato me esforçando radicalmente em vistas a este fim sublime? 

O Papa ainda recorda que a santidade é ao mesmo tempo um chamado universal e uma busca profundamente pessoal: 
10. Tudo isto é importante. Mas, o que quero recordar com esta Exortação é sobretudo a chamada à santidade que o Senhor faz a cada um de nós, a chamada que dirige também a ti: «sede santos, porque Eu sou santo» (Lv 11, 45; cf. 1 Ped 1, 16). O Concílio Vaticano II salientou vigorosamente: «munidos de tantos e tão grandes meios de salvação, todos os fiéis, seja qual for a sua condição ou estado, são chamados pelo Senhor à perfeição do Pai, cada um por seu caminho».

11. «Cada um por seu caminho», diz o Concílio. Por isso, uma pessoa não deve desanimar, quando contempla modelos de santidade que lhe parecem inatingíveis. Há testemunhos que são úteis para nos estimular e motivar, mas não para procurarmos copiá-los, porque isso poderia até afastar-nos do caminho, único e específico, que o Senhor predispôs para nós. Importante é que cada crente discirna o seu próprio caminho e traga à luz o melhor de si mesmo, quanto Deus colocou nele de muito pessoal (cf. 1 Cor 12, 7), e não se esgote procurando imitar algo que não foi pensado para ele. Todos estamos chamados a ser testemunhas, mas há muitas formas existenciais de testemunho. De facto, quando o grande místico São João da Cruz escrevera o seu Cântico Espiritual, preferia evitar regras fixas para todos, explicando que os seus versos estavam escritos para que cada um os aproveitasse «a seu modo». Pois a vida divina comunica-se «a uns duma maneira e a outros doutra».
"Cada um por seu caminho", não é empolgante? Saber que cada um de nós têm uma missão nessa terra, algo único e irrepetível, e ao nosso modo particularíssimo devemos alcançar a santidade? Olhemos para a historia da Igreja, houve santos das mais diversas condições: homens e mulheres; leigos, padres e religiosos; soldados, pais de família, professores, médicos, estudantes; adultos, velhos e crianças; reis e mendigos; etc. 

A respeito da particularidade deste caminho, gostaria de citar um poema de meu amigo Victor Barbuy
O ENGENHEIRO



Ontem, numa alameda
Da minha Cidade Interior,
Cruzei com aquele que eu deveria ter sido.
Com o grande Engenheiro que deveria ter sido,
Com o rico, cotidiano, respeitável,
Casado, tributável,
Normal e saudável
Engenheiro que deveria ter sido,
Se tudo em mim não tivesse dado errado,
Se eu não houvesse falhado
Em tudo aquilo que falhei ser.

Segui o Engenheiro até sua ampla,
Bela e confortável residência,
Em cujos jardins brincavam, contentes,
Os seus filhos,
E constatei que o Engenheiro havia realizado
Todos os seus sonhos,
Todos os sonhos que eu também tive um dia
E que jamais pude ver realizados.

E então, cheio de saudades do futuro,
Do brilhante futuro que jamais tive
E jamais poderia ter tido,
Afastei-me, com um melancólico sorriso,
Da morada daquele que deveria ter sido,
Daquele que aprendeu toda a Matemática
Enquanto eu lia romances, novelas e poemas,
Daquele que estudou Engenharia
Enquanto eu fingia estudar Direito
E que ora constrói torres de concreto e aço
Enquanto eu, em minha torre de marfim,
Construo sonhos irrealizáveis
E versos sem importância.

Ontem, numa alameda
Da minha Cidade Interior,
Cruzei com aquele que eu deveria ter sido,
Com o grande Engenheiro que deveria ter sido..."
Escutamos no poeta um contraste, vemos na figura do engenheiro as expectativas do mundo, um homem rico e bem sucedido, e na figura do poeta o sonho. Deveria o poeta ter abandonado os versos, para dedicar-se ao concreto e ao aço? O mundo, a lógica do dinheiro diria que sim, mas se a poesia for o íntimo de seu ser, se for na escrita a manifestação da vocação deste homem, não vale a pena a pobreza e suportando o desprezo do mundo? Se os caminhos da santidade para o eu lírico estiverem entrecruzados no caminho dos versos, não deveria pois angustiar-se, mas antes exultar por sua escolha. 

Chamados a santidade, cada um segundo seu caminho...Que Deus nos ajude a discernir nosso caminho,e com persistência seguir em frente nesta grande aventura que é a vida na Fé.

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