domingo, 15 de abril de 2018

Teologia da História em "Um Cântico para Leibiowitz"

Walter M. Miller Jr. toma liberdades que beiram a blasfêmia, ao mesmo tempo em que consegue expressar de forma clara e concreta uma teologia da história em sua fantasia sci-fi ''Um Cântico para Leibiowitz''. 

Qual o sentido da história para Miller? A eterna repetição do primevo pecado de Adão. Nascem e morrem as civilizações, as areias do tempo levam consigo a memória do nome dos sábios, esquecidos tal qual os tolos e néscios. Como Ozymandias de Shelley, ridícula é a sorte dos tiranos. O imortal tudo contempla e pouco entende, pois pouca valia têm o tempo sem a graça da Fé. E como figura da Igreja, lá permanece a abadia de São Leibiowitz, habitada por tão diferentes e curiosos homens, alguns veneráveis santos, outros apenas homens, tão humanamente homens. 

Primeiras, segundas, terceiras, quartas teorias políticas, povos, raças, classes e nações; efêmeras ilusões reduzidas ao ridículo diante da lucidez de um suicida[1]. O provocador sorriso estampado na imagem do mártir, o sorriso de São Leibiowitz nesta bizonha ficção, é pois a mais piedosa e clara resposta ao paradigma moderno. 

Quem sabe não encontre o leitor, nos fragmentos da Memorabilia, o senso do ridículo, que torna-nos capazes de rir, rir de nós mesmos e das tolas pretensões da cidade do homem, rir com a mesma naturalidade expressa na imagem do fundador da ordem albertiniana.

[1] Miller suicidou-se, com tiro de revólver, em 11 de janeiro de 1996, em Daytona Beach, Flórida, poucos dias antes de completar 73 anos.

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