sexta-feira, 2 de março de 2018

[Crítica] Um Dia de Fúria (1993)


Um Dia de Fúria (1993) é uma destas raras produções de Hollywood capazes de instigar boas reflexões sem que a qualidade do entretenimento seja afetada. Para muitos, um verdadeiro clássico, o que torna ainda mais difícil o trabalho da crítica convencional; como escrever algo original diante de um filme já tão comentado e discutido? Quem acompanha o blog sabe que a muito já abandonei o terreno do convencional, não pretendo tratar aqui sobre roteiro, atuação, trilha sonora ou nada do tipo, deixo isso aos especialistas, meu intuito aqui é usar a obra como desculpa para algumas reflexões de cunho moral e religioso. Então, lá vamos nós, ah fica o aviso, não estou nem aí para spoliers, então caso tenha essas frescuras, vá assistir ao filme e depois volte.

Para a esquerda, ''Um Dia de Fúria'' trata-se de um filme machista, racista e homofóbico (só não chamam de fascista por conta da cena da loja de armas, em que o protagonista mata um simpatizante nazista, após proferir de algumas palavras em defesa da ideologia da liberdade), isso se dá pelo fato de que o filme é quase como um manifesto da direita norte-americana. Não falo daqueles ricaços de Wall Street, mas do americano médio, do tipo que votou massivamente em Donald Trump. William Foster é um homem comum, com problemas comuns, desempregado, afastado da mulher que ama e da convivência com sua filha por um traumático divórcio, Foster acaba vivendo um dia ruim, destes comuns em toda grande metrópole: engarrafamentos, preços abusivos no comércio, problemas com a violência urbana, etc; todavia diferente do ordinário, ele acaba por “explodir”, manifestando toda sua fúria contra esta sociedade decadente.

Os problemas do protagonista são tão palpáveis, tão reais, que facilmente o expectador consegue se identificar com o personagem e, em seu intimo, muitos desejariam fazer o mesmo, “pistolar”, “desabafar”, por pra fora toda sua ira. Mas, o roteirista é competente, e Foster é contraposto com Martin Prendergast, um policial as vésperas da aposentadoria, que também não tem uma vida fácil. Nos momentos finais do filme, a mensagem moral do fica explicita, Prendergast diz ao protagonista que ele não é o único que esta tendo um dia difícil naquela cidade, que muitos diariamente vivem problemas semelhantes, e não saem por ai criando confusão como ele.

O surtar, desabafar, ou na gíria internetica: “pistolar”, é uma descarga emocional inútil e desordenada. O indivíduo põe para fora seus sentimentos, mas, não resolve nenhum de seus problemas. Depois das loucuras de Foster, a lojinha continuou a praticar preços abusivos, a comida dos fast foods continua horrível e as propagandas igualmente enganosas, sua mulher e filha ainda mais distantes. Ensina-nos a tradição cristã que a ira manifesta desta forma irracional é um pecado capital, uma paixão desordenada. A ira é como um combustível, que deve ser ordenado pela razão, iluminada pela Fé. Para nós, homens comuns, que vivemos em uma sociedade ainda mais degenerada que a de Foster, que temos problemas iguais ou piores, o caminho não é a loucura, tampouco o fingir que está tudo normal, mas transformar esse sentimento de indignação, de revolta, em energia para nos motivar a mudança, de modo que realmente tragam um resultado real, duradouro e palpável.

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