quinta-feira, 29 de março de 2018

Anjos da Noite: Como destruir uma boa história...

Fantasia Urbana ou Gothic Punk é o nome que se dá ao subgênero narrativo que busca retratar as realidades sobrenaturais inseridas em um contexto moderno e urbano. Bruxas, Vampiros e Lobisomens deixam as florestas dos contos de fada para habitar os guetos e vielas das grandes capitais. “Anjos da Noite(ao menos em sua estética) expressa bem o estilo. A premissa, para a época inovadora, hoje já saturada, trata de uma guerra milenar entre vampiros e lobisomens (lycans). A obra tinha tudo para ser inesquivável: uma boa trama, uma estética bacana, épicas cenas de ação, bem como uma linda e carismática protagonista: a vampira Selene, interpretada por Kate Beckinsale (que no primeiro filme, de 2003, estava na flor da idade, mas fora perdendo os traços juvenis com o decorrer da sequência, de modo que no filme de 2012 já se nota certo contraste); mas tornou-se intragável pelas falhas do roteirista, que não soube manejar o “time”, o ritmo da narrativa. 

O envelhecimento da atriz ao longo dos filmes é evidente.

No primeiro filme somos introduzidos naquele universo, apresentados aos clãs, suas lideranças e motivações, e os ecos desta batalha no mundo humano, vemos a lealdade de Selene para com Victor, líder adormecido do clã dos vampiros, até aí a narrativa vai bem, erra, porém, em não explorar tanto os efeitos da guerra no mundo humano, que serão retomados tardiamente apenas no quarto filme. 

A história prossegue com a introdução do personagem Michael Corvin, descendente humano de Corvinus, uma cobaia geneticamente apta para tornar-se um híbrido, meio vampiro meio lobisomem, aí que a história começa a desandar… O expectador simplesmente não consegue se importar com Michael, nada nos é dito sobre sua história senão que apesar da juventude, trabalha como médico e mora sozinho. Pai, mãe, namorada, amigos? Nada! Um personagem apático, unidimensional, sem o mínimo de personalidade, história ou marca distintiva. Posteriormente há um romancezinho entre Michael e Selene pouco convincente que faz com que a mocinha traia o clã que serviu durante séculos em prol de “um zé’’ com o qual mal trocara cinco frases. No meio da história se desperta Victor, o "vampirão malvadão", há uma batalha entre vampiros e lobisomens, a crianção do híbrido é concretizada, morrem os chefões e o primeiro filme termina aberto; Selene e seu namoradinho híbrido são agora odiados por vampiros e lobisomens. O plano de Lucian, chefão dos lycans não fica claro. Como a criação do híbrido colocaria fim a guerra? Bom, fica para o próximo filme responder… (e não respondeu).

O segundo filme foi um desastre, sepultou de vez todo o potencial da história. Um outro vampirão lá, Marcus, é despertado, e este mata todo seu clã e vai atrás de seu irmão lycan aprisionado. Simplesmente o foco do roteiro sai da guerra entre vampiros e lobisomens, do híbrido, para o drama das origens. Pra que serviu a porcaria do hibrido? Não deviam os vampiros ao menos continuar atrás de Selene para vingar Victor? A história corre demais e deixa de explorar aquilo que devia… Lá para o fim o roteirista mata Michael (para depois o trazer de volta magicamente), mas o personagem foi tão mal explorado que aquilo que era para ser um drama se torna tedioso. Posteriormente, Selene suga o sangue de Corvinus e torna-se overpower. Não era o híbrido o ser mais poderoso? Depois ficou sendo os alfa, Marcus e seu irmão Willian, para serem substituídos por Selene… Bom ao fim o casal sem mata os vilões e terminam o filme com um beijo romântico. 

Resumindo: 1) Temos uma guerra entre vampiros e lobisomens, guerra esta travada por milênios embaixo do narizes dos humanos, sem que estes bobalhões nada percebam, e sem que essas aberrações jamais tenham tentado dominar o mundo e jogar os humanos para escanteio. 2) Temos um personagem aleatório sem história, que por conveniência consegue conquistar a protagonista. 3) Esse personagem aleatório torna-se um hibrido overpower, a chave para acabar com a guerra entre os clãs, mas no segundo filme não existe mais guerra porque me aparecem os alfas igualmente overpower, e o híbrido tem um papel marginal, simplesmente ninguém esta nem ai para ele. 4) Selene também tem seus poderes turbinados, a ponto de derrotar o vampirão alpha. 

Parabéns ao roteirista por esse segundo filme, destruiu uma história promissora. Pior que isso, só aquele Death Note americano de Netflix.

E os outros filmes? Depois do segundo não têm como. A paciência do expectador acaba aí...

Nenhum comentário:

Postar um comentário