terça-feira, 26 de dezembro de 2017

[Crítica] A Bíblia em Mangá


Nos últimos dias tive a oportunidade de ler "A Bíblia em Mangá"; a História Sagrada em traços japoneses pelas mãos de uma equipe britânica (viva a globalização!). A obra chegou a ganhar reconhecimento da Sociedade Bíblica Internacional (organização protestante), o que não é lá grande coisa. São dois volumes, um para o “Velho Testamento” e outro para o “Novo Testamento”; no Brasil, ambos foram publicados pela Editora JBC.

A teologia dos autores não é nada ortodoxa, fato perceptível tanto em suas entrevistas, quanto manifesta em sua obra, em menor grau na edição Velho Testamento; e de forma escandalosa na edição do Novo Testamento. Comecemos pela antiga aliança, toda a gravidade e responsabilidade do pecado de Adão é minimizada, Adão e Eva não imaginariam as graves consequências que seu gesto de desobediência acarretaria a si e seus descendentes; não faltam, também, insinuações fantasiosas dos autores para explicar o surgimento dos gigantes bíblicos, segundo sugerido de forma sutil, seriam fruto de relações sexuais entre humanos e anjos. Já no Novo Testamento em mangá temos uma evidente distorção protestante: o caráter hierárquico da Igreja é minimizado, quase que excluído da história; a liderança de São Pedro no colégio apostólico é ocultada; São Paulo é retratado como fosse um pastor protestante afroamericano; a Santíssima Virgem Maria mal é mencionada na obra, e quando aparece é em local “inadequado”, fruto de uma interpretação errônea da passagem Bíblica, onde o autor do mangá confunde a Virgem Santíssima com Maria de Cleofás. 

Com relação ao desenho, o traço não é lá muito japonês, e nem muito bonito, há muitos quadros que parecem rabiscos mau feitos.


É certo que a obra não é destinada a especialistas, teólogos, desenhistas ou críticos, mas antes ao público em geral; com relação a edição do Velho Testamento, é até possível abstrair os erros e se encantar com o formato ao qual nos é apresentada a história da antiga aliança, sendo uma boa iniciação ao tema das Sagradas Escrituras para uma geração de leitores jovem e inculta; todavia, devido as distorções protestantes, o mesmo não se pode dizer da edição Novo Testamento.

Enfim, a maioria das adaptações bíblicas a outras mídias acaba vítima das interpretações errôneas e falsificações históricas de seus idealizadores (cito a minissérie americana A Bíblia, que no Brasil foi exibida pela Record e, força a barra ao representar Santa Maria Madalena em uma hierarquia equivalente a dos apóstolos, como um modo de militar em defesa do sacerdócio feminino); ao leitor católico que têm dificuldades para com a leitura em fonte primária (a própria escritura), recomendo como uma iniciação a obra História Sagrada, de Dom Bosco, um breve e fiel resumo da narrativa bíblica escrita em uma linguagem simples e acessível pelas mãos de um santo católico.

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