sábado, 2 de dezembro de 2017

Arqueofuturismo, Code Geass, e alguns problemas monárquicos

Em artigo recente, defendi eu a necessidade de uma estética arqueofuturista, afim de que, usando da ficção, pudessem os conservadores e tradicionalistas pensar os impactos futuros da restauração das instituições pretéritas. Todavia, seria um simplismo vulgar e tedioso confinar a ficção a um papel apologia ideológica, mesmo no caso que fosse uma ideologia tradicionalista. Tendo isto em vista, gostaria de tecer alguns comentários a respeito do anime Code Geass.

De um modo inexplicável, o poderoso Império Britânico recupera seu antigo esplendor, estabelecendo um império colonial de proporções globais, onde, tal qual a antiga expressão, o sol nunca se põe. Partindo de um novo conceito da indústria bélica, os kinigthmares, a Britânia reduz o Japão a ruínas, a atual da Área 11, onde se desenvolve a maior parte da trama. Humilhados, impedidos de manifestarem sua identidade, sua cultura, suas tradições, tratados como cidadãos de segunda classe, os “elevens”, combatem em uma guerra suicida contra o Império Britânico usando de táticas terroristas. O arcaísmo da trama, fica por conta da instituição monárquica, dos antigos valores coloniais, enquanto o aspecto futurista é manifesta nas épicas batalhas de megazords knigthmares.

Logo no primeiro episódio, a crítica à nobreza é bem evidente; numa das cenas iniciais, o príncipe Clóvis, após um incidente trágico, faz um emocionante pronunciamento; todavia não passara de encenação, toda a tristeza e emoção do governante eram mera pose, um artificio midiático artificial, gravado em meio a seus divertimentos vulgares. Difamação antimonárquica! - dirão os monarquistas, todavia é uma crítica muito válida. Ao longo da história ocidental, grande parte da nobreza viveu de pose, sendo sua virtude mero teatro, teatro de uma elite vulgar e afeminada, tão desprezível quanto a atual burguesia. Se, uma restauração monárquica é adequada, como evitar o renascimento desta mesma cultura cortesã?

A obra aborda também a questão do nacionalismo: por um lado temos representado o nacionalismo xenófobo brithanians, sobretudo manifesto na radical facção purista liderada pelo general Jerimiah; por outro temos o nacionalismo “do oprimido” dos japoneses-elevens, nacionalismo este que acaba sendo superado por Zero, que se coloca como estando ao lado de todos os oprimidos, “brithanians ou elevens”. Um modo bem interessante de se lidar com o tema, diria eu, um modo feliz, superando as velhas categorias dos tempos passados, o roteirista mostra que embora a expressão das culturas nacionais seja em si um direito dos povos, tal nacionalismo não deve se degenerar em bairrismos, impedindo-os de ver a universalidade da luta na qual se encontram os homens. Marxismo! - dirão outros, pois as categorias nacionais são substituídas pela dicotomia oprimido-opressor.

Voltando ao tema da monarquia, por volta do episódio número 07, durante o funeral de Clóvis vemos um entusiasmado discurso hierárquico por parte do imperador Charles Zi Britannian, quase que uma transcrição de certas ideologias em voga, sobretudo nos meios da Nova Direita Européia. Para Charles, embuído de um perverso darwinismo social, os fracos devem ser eliminados para a evolução do corpo social. Uma verdadeira monstruosidade, e não digo isto partindo de preconceitos anti-hierárquicos, mas baseado na reta doutrina cristã: é certo que o igualitarismo é uma ideologia perversa e problemática, todavia, embora a ordem pressuponha uma hierarquia, esta deve ser vista a partir da perspectiva do serviço, sendo temperada pela caridade. Assim aqueles que estão nas altas hierarquias, o estão para servir e contribuir para o bem comum, respeitando as leis eternas e a dignidade de todos os homens, inclusive os mais fracos e pequeninos.

São estes alguns dos pontos mais interessantes do anime que, todavia, não é uma boa obra. Além do fato de que a perspectiva católica inexiste na narrativa, sendo substituída pelo velho veneno gnóstico, temos personagens pouco trabalhados, o incômodo clichê da escolinha, bem como problemáticos e abundantes momentos de fan service...

De todo modo, Code Geass tem o mérito de trazer a tona algumas boas reflexões para além do mundo das fadas, sendo um feliz exemplo do paradigma arqueofuturista, que creio eu, ser tão necessário hoje aos tradicionalistas e conservadores.
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Notas:
O áudio incorporado neste vídeo foi gravado por Doomentio.

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