domingo, 17 de dezembro de 2017

A Colheita Maldita: O sobrenatural em um mundo pós-protestante



Um casal mundano de namorados em meio à estrada acaba por se ver no caminho de uma fanática seita religiosa formada por crianças assassinas; após repetidas tolices o jovem casal confronta a seita, descobrindo o caráter preternatural (demoníaco) desta; e na Bíblia o segredo para destruí-la. Eis basicamente o enredo de “A Colheita Maldita”, filme baseada na obra homônima de Stephen King.

Conforme já escrevi anteriormente, Stephen King é filho de um contexto cultural confuso e problemático; e essa mesma confusão é refletida em suas obras. Nascido em um país protestante, mas tendo abandonado qualquer religião organizada em prol de um deísmo desigrejado, King reflete a si mesmo nos protagonistas de seu conto macabro. Burt e Vicky são o típico casal liberal; namorados que “dormem” juntos, e mostram não ter qualquer vínculo ou paciência para alguma religião; nas cenas iniciais do filme vemos a zombaria para com certo programa radiofônico de evangelização: “Aleluia! Não televisão! Não pode isso! Não pode aquilo! Hahaha!”.

A narrativa segue, e o casal se mostra bem babaquinha e idiota o suficiente para envolver-se temerariamente em uma arriscada confusão que poderiam facilmente evitar. A seita das crianças assassinas e fanatizadas é liderada por Isaac; que tem em Malachai seu mais fiel e devotado seguidor. Vemos ai à crítica de King aos comportamentos religiosos de seu tempo: a religião que deveria ser algo a unir as pessoas na pregação do amor acaba por tornar-se objeto de fanatismo, fomentando o ódio e o terror; este argumento é de alguma forma colocado na boca do protagonista: “(...) uma religião que não prega o amor e a compaixão, não é uma religião verdadeira”. King, todavia, não é um ateu, e a seita fanática não é fruto apenas das doiduras de uma criança perturbada, mas sim criação de um demônio; e a chave para derrotar tal criatura está nas páginas da Bíblia, é lá que Burt encontra a instrução para queimar o milharal.  Eis a visão de mundo de Stephen King; uma visão pós-protestante que rompe com os “fanatismos” da “religião organizada” sem, contudo, cair nos abismos do ateísmo; temos uma espécie de deísmo liberal.

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Usemos essa encrenca como uma autocrítica, sobretudo, a parte da seita assasina. Fanáticos amalucados existem aos montes, principalmente se estamos falando de seitas protestantes, embora raramente tal maluquice chegue ao nível criminoso e assassino, tal qual na ficção. Algumas vezes, porém, vemos ecos desta mentalidade sectária ecoar por alguns nos meios católicos, manifestando-se em uma atitude ensimesmada de fuga. Em um mundo que despreza e ataca a religião, em um tempo em que aqueles que se põem ao “diálogo” acabam por de alguma forma apostatar temendo o rótulo de radicais, a tentação de fechar-se, isolar-se, parece preferível a alternativa de abdicar da Fé. Entretanto, não há apenas essas duas opções: um fanatismo irracional, e um diálogo apostata; há uma terceira opção, difícil trabalhosa, que dá uma dor de cabeça enorme, mas que é a correta. E que opção seria essa? Manter o diálogo sem ceder um iota. São Pedro diz que os cristãos devem estar sempre prontos a dar as razões de sua fé; responder as indagações, refutar as mentiras; disputar, argumentar usar da razão, sem ingenuidade, ao invés de fugir para a caverna. Os católicos só devem fugir para as catacumbas quando obrigados, enquanto, porém, houver possibilidade de discutir, argumentar, e se manifestar, sem secretismos, em plena luz do dia; isso deve ser feito! Mesmo que um consenso nunca seja alcançado, mesmo que o mundo moderno nos ache um bando de exóticos, não estaremos fugindo e nos fechando em cômodas fantasias. “É essa a nossa Fé”; “são essas as nossas respostas as vossas indagações”; “não vamos ser asfixiados pelos tentáculos dessa vossa gosma liberal; mas tampouco somos covardes a ponto de nos calarmos, ou sequer perder o bom humor” ;  tal deve ser a resposta do católico neste momento cultural, uma resposta autenticamente chestorniana.

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