domingo, 5 de novembro de 2017

[Crítica] O Conclave - Malachi Martin

Quando se fala em Malachi Martin, logo vem a mente do leitor seu status de “inside information”; quase como um Julian Assange Católico, Martin coloca o leitor na posse de graves e sigilosas informações. Entretanto, para além de seu papel na geopolítica eclesial, o ex-secretário do Cardeal Bea mostra-se um exímio escritor e um dos mais talentosos ficcionistas a trabalhar temas eclesiásticos.

Lia eu recentemente a obra ''O Conclave'', publicada pela editora adventista Novo Tempo. Os protestantes, como de costume, não são capazes de ver um palmo a sua frente, tentando equiparar Malachi Martin à um novo Lutero, pronto a denunciar os envolvimentos escusos do Vaticano; não me atentei ao nome do imbecil responsável por tais comentários; manifestação pública de seu analfabetismo e a total incapacidade de compreender o leu, se é que leu, mas enfim...Não é o câncer protestante que pretendo discorrer aqui e nem sobre a curiosa e polêmica vida de Malachi Martin, tão interessante e misteriosa quanto seus romances, portanto, voltemos ao livro.

O Conclave se inicia com uma análise do pontificado de Paulo VI e as mudanças profundas derivadas do Vaticano II, a fim de localizar o leitor, até que, somos inseridos dentro do conclave destinado a eleger o próximo sucessor de Pedro. É dentro do conclave onde a narrativa se desenvolve, onde pela boca dos cardeais, somos colocados diante dos principais partidos eclesiásticos, suas esperanças, planos e pecados. Da aberração ecumênica novordista do Cardeal Thule, disposto a destruir tudo o que há de católico na Igreja em nome de um ecumenismo insano; passando pelo marxismo do Cardeal Franzus, defendendo uma Igreja aliada ao Comunismo; temos também um conservadorismo de um Partido da Cúria adepto das mudanças lentas graduais; indo até o Tradicionalismo de Vassari em busca da restauração de antigos poderes; mas, quem rouba a cena é o radicalismo e genialidade do Cardeal Domenico. E ao final, mais do que o mero relato histórico, somos postos diante do exímio talento literário do autor, bem como uma visão eclesial capaz de irritar esquerdas e direitas, bem como perturbar o leitor; convidando-o a perder noites de sono diante a pensar sobre tal epílogo.

Aos fiéis católicos, sobretudo aqueles já “iniciados” aos labirintos do jogo político intra-eclesial e apreciadores de boa literatura, “O Conclave” se mostrará, ainda hoje, passados mais 30 anos de sua redação, uma complexa, intrigante e envolvente narrativa, onde fatos se misturam a ficção, levando a uma conclusão política e teologicamente desafiadora. Para o leitor vulgar, porém, será tal qual foi para o comentarista protestante apenas uma denúncia dos escusos negócios vaticanos...

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