quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Anime Católico? Eis a resposta...

Depois de combaterem nazistas na América do Sul, Hiraga Joseph Kou e Roberto Nicolas vão a África investigar as profecias de um suposto santo cujo corpo diz-se encontrar-se incorrupto. Porém, antes, como um “gap” entre os dois arcos, somos convidados conhecer um pouco mais sobre o estranho colaborador de Hiraga: Lauren.

Lauren é uma espécie de Julian Assange, um hacker talentoso e perigoso condenado a prisão perpétua. Lauren recorre a seus direitos de “assistência espiritual” e escolhe Hiraga, não com o intuito de conversão, mas apenas como um interlocutor digno para passar o tempo. Hiraga mostra certo zelo apostólico (que falta hoje em muitos padres intoxicados por um irenismo relativista), buscando a conversão de Lauren. Em sua estratégia apologética, enquanto jogam um estranho jogo, Hiraga vendo as resistências de Lauren, começa não por falar de Deus, mas do demônio, contando-lhe uma história na qual foi chamado a dar seu conselho. Até aí o episódio vai bem, mas depois desanda por uma doutrina perversa. O protagonista desta história seria um homem humano, filho do demônio, amaldiçoado com o poder de ter todos os seus desejos realizados. 

Para começar demônios não procriam com humanos. Infelizmente este tipo de superstição e bem popular, e não faltam aqueles que invocam até mesmo versículos bíblicos para fundamenta-la, como o trecho de Gênesis 6, 2: “vendo os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas, tomaram por suas mulheres as que, dentre todas lhes agradaram.” ; a este respeito esclarece Dom Estevão Bittencourt:
1. Filhos de Deus e filhas dos homens
O casamento entre filhos de Deus e filhas dos homens suscitou a perplexidade dos leitores. Daí diversas interpretações:

1) Tratar-se-ia de uma citação implícita, isto é, de um texto de origem não bíblica transcrito pelo autor sagrado sem mencionar a fonte. Fazendo esta citação, o hagiógrafo teria em vista apenas salientar que o mundo ia mal e merecia uma intervenção de Deus. Segundo a mitologia, os filhos de Deus seriam deuses que se uniram a mulheres (filhas dos homens). Esta interpretação é carente de fundamentação.

2) A tradição rabínica e as primeiras gerações cristãs interpretaram os filhos de Deus como sendo os anjos, que se teriam unido a mulheres, de modo a gerar descendentes. Tal modo de ver foi consignado (citado), mas não abonado, pelos escritos no Novo Testamento; ver Jd 6; 2Pd 2, 4. Com o tempo caiu em descrédito, de sorte que no século IV já era contestado por autores cristãos. É de notar que os anjos não podem ter cópula carnal com mulheres visto que não têm corpo.

3) A interpretação correta vê nos filhos de Deus uma população fiel à Lei do Senhor e nas filhas dos homens a população infiel ou - como dizem alguns, querendo mais precisão - tratar-se-ia de setitas e cainitas. (ver Gn4, 17-24 e 5, 1-32).

Outro erro do episódio, este bem comum em obras de ficção, é retratar o demônio como poderoso em demasia, quase como um "deus maligno". O demônio não tem tal onipotência, não tem ele o poder de moldar a realidade, tirar vidas, ressuscitar mortos tampouco de criar homúnculos, nos diz Santo Agostinho que: "O demônio é um cão feroz, acorrentado. Faz muito barulho, late, rosna. Mas ele só morde se chegarmos perto". A história se desenvolve nessas premissas problemáticas; tenta até explorar alguns temas interessantes como a questão da penitência, do perigo dos desejos (vontade desordenada), apesar do final bem clichê e problemático, em que “o que importa é o amor”. Por fim Lauren acaba por se converter. Outro incômodo: os yaoi subliminares continuam fortes nessa encrenca, a cena final dá a entender um Lauren com ciúmes da relação de amizade de Hiraga e Roberto, é de dar ânsias de vômito.



Depois desse interlúdio vamos à África, o caso: um suposto santo e profeta cujo corpo estaria incorrupto e suas profecias estariam se cumprindo uma a uma sucessivamente. Grande destaque nesta saga é dado a Roberto Nicolas, ficamos por conhecer sua história, seus vícios e fragilidades. A tentação de Roberto é a sede por conhecimento, logo ao chegar a Igreja de Nairóbi, administrada pelo Padre Julian, dedica-se ele a estudar os misteriosos grimórios da gigantesca biblioteca anexa a Igreja. Que bom seria se em todas as Igrejas, ou ao menos nas catedrais, houvesse tamanha biblioteca anexa. O desenvolvimento deste arco foi muito positivo e interessante, bem como a cena do julgamento do Padre Roberto Nicolas riquíssimo do ponto de vista teológico.

Este arco me fez devanear um pouco, pensando nas relações com uma história real ocorrida em terra brasilis... Houve também aqui um suposto santo profeta, dito inerrável, em torno deste homem foi criado um culto estranho e uma ordem monástica com hábitos templários. Após sua morte, seus seguidores se dividiram, sendo parte deles incorporados a estrutura da Igreja; está mesma parte foi recentemente protagonista de escândalos e polêmicas, o que, segundo boatos, teria motivado o Vaticano a enviar uma equipe para inspecioná-los (Roberto e Hiraga live action?). Qual será o desfecho deste caso? Tenho eu meus palpites... Mas, chega de devaneios!

Solucionado o caso na África vamos ao último arco da primeira temporada: O Palhaço Degolador. Em minha opinião um dos mais apressados e um tanto quanto inferior aos outros dois, em brevíssimo tempo somos inundados com uma complexa trama envolvendo drogas, intrigas amorosas, enigmas esotéricos e garotos albinos; elementos em demasia durante um brevíssimo tempo. Duas coisas chamo a atenção, o documentário de Carlo sobre o palhaço degolador no inicio do arco lembre muito a estética usada no clássico do terror: A Bruxa de Blair; e em segundo lugar: mais uma gigantesca biblioteca lotada de livros secretos e raros anexa a Igreja, queria uma assim em minha paróquia rsrs.

Terminado este breve arco, chegamos ao último episódio da temporada: a saúde do irmão mais novo de Hiraga, Ryota, piora, e enquanto este esta em seus momentos finais aguardando a morte, sua história é contada em meio a flashbacks. Ryota tem um estranho dom (ou seria maldição?): de prever com antecedência quando uma pessoa vai morrer. A história tem tons bem tristes e dramáticos, em determinado momento há um ponto muito positivo em que Ryota discerne que sua missão seria então rezar pela salvação das almas destes moribundos, mas com o desenrolar da história, o catolicismo do episódio vai dando lugar a uma espécie de espiritismo japonês em que Ryota se encarrega da missão de levar a “oração dos mortos aos vivos”. Torço para que seja só uma expressão infeliz do roteirista. Outra questão problemática deste episódio foi a referência vaga no que diz respeito ao conceito de sacramento; o anime faz um uso bem poético do termo durante o episódio final, poético em demasia e pouco ortodoxo.

Enfim, no fim, tudo termina de um jeito “bonitinho” e misterioso sugerindo uma segunda temporada, pois ainda há mistérios a serem resolvidos.

É um anime católico? 


Com o fim da primeira temporada posso agora responder essa pergunta: a resposta é NÃO. Vatican Kiseki Chousakan definitivamente não é um anime católico. Prova disso são as insinuações problemáticas, doutrinas erradas (sobretudo nos episódios 05 e 12), bem como a total ausência de cenas retratando as mais importantes realidades cristãs: a celebração dos sacramentos. Em 12 episódios de cerca 20 minutos não é possível ver uma única hóstia consagrada. Igualmente o sacramento da confissão (que em outras obras de ficção, como por exemplo Demolidor, fora tão bem explorada)  é ausente no anime. Vejo a obra mais como fruto da criatividade literária do autor, do que da piedade de um fiel. Entretanto, isso não significa que seja um anime ruim, na verdade de todas as vezes que a Igreja Católica foi retratada na ficção japonesa, esta foi em minha opinião uma das mais positivas.

Foi divertido acompanhar as deduções de Hiraga e Roberto, desvendar junto deles os mistérios, rastrear as causas naturais de supostos milagres, alegrar-me com a arte do desenhista ao retratar belíssimas catedrais. Vi no Padre Roberto Nicolas e sua tentação pelo conhecimento do oculto, um reflexo de certas inclinações de minha própria alma; vi na criteriosa investigação a respeito de cada alegado milagre, um encorajamento a um saudável ceticismo contra uma mentalidade supersticiosa tão comum neste país, que às vezes afeta até mesmo homens da Igreja; e no silêncio de Deus um mistério de Fé. Explico o último ponto: durante toda a história vemos a ação dos homens, homens bons, homens maus, por vezes até mesmo a ação do demônio, mas o silêncio de Deus. Porque Deus não fala? Porque não se manifesta? Ele fala, age de modo misterioso por meio de sua Divina Providência, passa e caminha conosco, como caminhou com os discípulos de Emaús, mas não o vemos. Pedimos por milagres, por acontecimentos estupendos e extraordinários, queremos fazer do extraordinário algo corriqueiro, e fechamos os olhos e os ouvidos para o Cristo que se manifesta na simplicidade. Fico a pensar no Cireneu, que com má vontade ajudou aquele condenado a carregar sua Cruz e não foi capaz de perceber que aquele homem era o próprio Deus. Deus age no mundo, de forma misteriosa ora discreta, silenciosa ora luminosa (aqui entram os milagres), eis o mistério da Fé.

Torço por uma segunda temporada, e confio que mesmo com todas as suas falhas, este obra será usada pela Providência a fim de atrair mais almas para a Igreja Católica.

“Ó Senhor, por favor mostre a eles o caminho!”


Nenhum comentário:

Postar um comentário