quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Punhos em Defesa da Fé

Beato Pier Giorgio Frassati
Todas as sociedades elegem e destacam certos modelos de comportamento a serem imitados, assim o é desde as sociedades primitivas, passando pela luminosa Idade Média, até as trevas da modernidade (como bem explica o finado professor Orlando Fedeli).

Aos cristãos, sobretudo aos católicos, Cristo é o homem perfeito, Aquele que deve ser cultuado, adorado, e também imitado. Entretanto, não raro surgem algumas dificuldades: <Como eu, pobre pecador posso imitar o Filho Unigênito de Deus?>; <Como viver o Evangelho passados mais de dois mil anos?>. A Santa Igreja, inspirada pelo Espírito Santo, desde há muito respondeu tais objeções com a veneração prestada aos santos. Que é um santo? Além de um intercessor, é um modelo, e um vitral; um modelo da vivência do Evangelho, um vitral que reflete as virtudes de Cristo e apontam com sua vida para o Senhor. 

O Beato Pier Giorgio Frassati (“Pedro Jorge” se preferir tradução rsrs) é um destes luminosos modelos que nos aponta a Cristo; sobretudo um modelo aos jovens leigos da vivência do Evangelho “no mundo”. Nascido em uma classe burguesa, de pai maçom, tinha ele tudo para ser mais um “playboy” aburguesado, escolheu, porém, caminhos diametralmente opostos ao Espírito Burguês que possuía os ambientes familiares. 

“Eucaristia e os Pobres” foram o centro da espiritualidade deste jovem leigo, que dedicava horas e horas a adoração eucarística, no serviço aos pobres, na caridade direta e calorosa, e também no ativismo político, o qual militou pelo Reinado Social de Cristo, na contramão da ideologia liberal do pai, da degeneração socialista e da praga fascista.. 

Frassati não hesitava usar até mesmo os punhos para defender sua Fé, como nos conta o Pe. João Piasentin:
Terminado o congresso de Ravenna, foi a Roma para participar do Congresso da Juventude Católica Italiana.

1 de setembro de 1921, data marcante na história da Igreja na Itália e, também na vida de Pedro Jorge Frassati.

Cinquenta mil jovens católicos de toda a Itália se reuniram na Praça de São Pedro para uma grande passeata a fim de afirmar o grande ideal: Jesus Cristo, Salvador do mundo. O governo massônico temia este tipo de manifestações públicas. O liberalismo dominante era contrário aos princípios inovadores da Igreja.

Os jovens católicos queriam afirmar com ímpeto a presença dos católicos italianos na reforma da sociedade.

Proibido o encontro no Coliseu, foi transferido para a Praça de São Pedro com Santa Missa celebrada por Monsenhor Pini. A passeata devia concluir-se no Monumento ao Soldado Desconhecido.

Pedro Jorge sentia-se feliz entre tantos jovens provenientes de toda a Itália.

Com o berrete universitário na cabeça e nas mãos a bandeira do Círculo Cesar Balbo, com a liderança que lhe era natural aconselhava: “Vede bem o que fazeis. Para combater certos sistemas não devemos ser nós os primeiros a usá-los”.

O Papa Bento XV recebeu os 50.000 jovens nos jardins do Vaticano impartindo-lhes sua bênção apostólica.

Em seguida iniciava-se a grande passeata.

Elementos perturbadores intrometem-se e se generaliza uma luta a socos e pancadaria.

Os jovens católicos procuravam defender-se mas chegaram os guardas régios batendo com armas nas costas dos jovens.

Um guarda foi acima de certo jovem franzino, Pedro Jorge interveio em sua defesa com os poderosos socos de sua juventude vigorosa.

Superando o primeiro choque, ao chegar a passeata perto de Santa Maria em Varicella as tropas, por ordem da massonaria, fizeram uma barreira que foi também superada pelo ímpeto dos 50.000 jovens.

Na Praça Argentina os esperava uma segunda barreira com cavalaria, obrigando desviar a passeata para a Rua Plebiscito, quando outros guardas régias se lançaram acima dos jovens com a ordem de tirar-lhes as bandeiras e destruí-las.

Iniciaram o assalto.

Os jovens se defendiam de todos os modos.

Lacerada a bandeira de Trento, avançaram para a bandeira do “Cesar Balbo”.

Quebrada a haste, Pedro Jorge segurou a bandeira com os dentes e com a haste defendeu-se contra 3 guardas régias que queria arrebatá-la.

No fim foram todos levados presos no jardim do Palácio Alfieri. Ele não cedeu a bandeira, símbolo do seu ideal e de sua fé.

Por ordem de chegada dos jovens, ele os acolhia com abraço fraterno agitando a bandeira em farrapos. Tranquilo e sereno encorajava os colegas apavorados.

Entre os presos havia um sacerdote com batina toda rasgada e a face ensanguentada. Continuaram os maus tratos sob os protestos dos jovens, mas os guardas continuaram a bater.

Pedro Jorge, indignado diante daquele cruel comportamento, se lançou contra um tenente.

Então houve o seguinte diálogo:

– “Qual o teu nome?”
– “Pedro Jorge Frassati”
– “Quem é teu pai?”
– “Alfredo Frassati”
– “Qual sua profissão?”
– “Embaixador da Itália em Berlim”
– “Pedimos-lhe desculpas. Pode sair já”.
– “Sairei com todos os outros”.

Jamais se aproveitara do fato de ser filho do embaixador.

Depois se ajoelhou no chão junto ao sacerdote ferido. Os outros o imitaram. Com o rosário numa mão e a bandeira na outra, disse: “Jovens, por todos nós e por aqueles que nos bateram, rezemos”.

Na parte da tarde todos foram liberados.

Várias tentativas de assalto ao grupo Pedro Jorge encontraram a resposta dos seus vigorosos músculos.

No dia seguinte, os 50.00 jovens católicos participaram na Praça de São Pedro da Santa Missa celebrada pelo Santo Padre Bento XV.

Unidos no Pão da Eucaristia, agradeceram a Deus e reafirmaram a vontade de lutar para um Itália unida na fé cristã e na promoção dos pequeninos.

Aos que perguntavam sobre o acidente respondia: “Nos trataram mal, mas respondemos com a reza do rosário”.

Não condenava a ninguém, mas manifestava alegria íntima de ter sofrido pela causa de Cristo.

Digno de nota o seguinte episódio:

Ao sair da Basílica de São Pedro, um numeroso grupo de fascista atacou os poucos jovens que serravam fileira ao redor da bandeira do “Círculo Cesar Balbo”. Pedro Jorge salvou a bandeira odiada com seus músculos fortes e rijos.

Retomado o caminho, aproximou-se um jovem franco e leal que confessou: “Vi a cena. Se quiserdes eu vos acompanharei e defenderei aqui em Roma com muita alegria. Vós mereceis. Também, eu, outrora participava de vossa fé”.

Era um jovem comunista, Pedro Jorge lhe murmurou aos ouvidos: “Há Deus, que nos defende e nos dá força. Dará também ao senhor, a graça de volta a fé. Nós rezaremos muito!”

No coração de Pedro Jorge acendeu-se mais vivamente o amor ao Papa e gritava com todo vigor: “VIVA O PAPA!”

Cansados, doloridos pelas pancadas recebidas, sem voz, voltaram para casa, porém, alegres com o sabor da vitória.

No trem, quando os jovens, tomados de cansaço, tentavam dormir, ele convidou-os: “Agora, juntos, vamos rezar as orações da noite”.

Em Turim, a quantos o elogiavam relatando o que a imprensa escrevera, respondia: “Cumprimos nosso dever. Quando Deus está conosco, nada devemos temer”.

De fato, em Pedro Jorge se manifestava a juventude ativa do catolicismo. Possuído pelo amor ao Cristo sentia-se mobilizado para a causa da redenção da classe dos obres e dos valores evangélicos para uma sociedade fraterna.

Pedro Jorge resistiu bravamente aos desequilíbrios do mundo egoísta e materialista, rejeitou firmemente as disformes configurações plasmadas por uma sociedade liberal massônica, sobrepujou valentemente as múltiplas circunstâncias levianas pelas quais tentavam entravar seu caminho retilíneo e franco de renovação evangélica e desarticulou energicamente todos os preconceitos que visavam vinculá-lo ao consórcio dos covardes. 
A leitura de sua biografia tem sido para mim uma feliz fonte de inspiração e espanto. Ao ver as admiráveis obras deste rapaz em idade próxima a minha, bem como em um tempo histórico recente; fico perturbado com minha mediocridade e animado a deixar cada ranço de “molenguisse” e covardia que ainda resta do “homem velho”. Creio eu que tal leitura terá efeitos semelhantes para com o leitor, por conta disto indico a leitura da obra “Eucaristia e os Pobres” e a devoção a este grande homem de Fé.

Beato Pier Giorgio Frassati, rogai por nós.

Nota: Existe também um filme italiano retratando a vida de Frassati: “Se Non Avessi L'Amore” (segue abaixo), porém, o diretor não foi muito feliz em traduzir a vida do beato para o cinema, a película é bem “sem graça”.

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