domingo, 6 de agosto de 2017

Padres, nazistas, exorcismo, beadões e parapsicologia: Vatican Kiseki Chousakan – Uma crítica católica

(No momento em que escrevo este texto a série encontra-se no seu quinto episódio, sendo que a primeira temporada irá contar com 12, e o arco introdutório foi finalizado no episódio 4, mas creio que com o que foi mostrado já é possível ter uma ideia dos rumos que o anime tomará)

O Japão não é um país cristão; herdeiro de um passado pagão foi introduzido na hipermodernidade pelo trauma nuclear. Os católicos japoneses, constituem uma pequena parcela da população com pouca influência sob a indústria cultural; daí deriva o fato de, no mais das vezes, a grande maioria dos animes serem profundamente problemáticos. Problemáticos em que sentido? Problemáticos no sentido de abusarem de roteiros gnósticos e supersticiosos, personagens impudicos, estereotipados e sexualizados, abordarem temas como sodomia, incesto, além de cenas de extrema violência gráfica (este é o menor dos problemas, mas é normalmente o mais lembrado pelas “Tias de Colégio”), problemas estes que se acentuam quando há alguma referência a Igreja nestas obras, onde se abusam de calúnias e mentiras difamatórias. É o caso de Hellsing, Chrono Crusader, Full Metal Alchemist entre outros.

Vatican Kiseki Shousakan (ou Vatican Miracle Examiner se preferir o título em inglês) foge (ou tenta fugir), surpreendentemente, deste padrão. Ao longo dos quatro primeiros episódios que constituem o primeiro arco do anime, podemos ver uma rica explicação sobre a teologia do Livro de Jó, comentários sobre a morte heroica dos mártires e até citações a respeito da Pequena Via de Santa Terezinha do Menino Jesus. Padre Hiraga e padre Roberto Niccolas são os especialistas do Vaticano encarregados de examinar alegados milagres, afim de discernir se de fato tem uma causa sobrenatural ou se constituem farsas e superstições, sendo o primeiro caso retratado uma dita gravidez virginal. Ao longo da trama, o mistério cresce: imagens que choram, estigmas e possessões demoníacas apimentam a história. Porém, no melhor estilo Scooby Doo, vão pouco a pouco sendo rastreadas as causas humanas dos supostos acontecimentos preternaturais.

Para mim, um brasileiro, nascido em um país extremamente supersticioso, superstição que por vezes ecoa até mesmo na mente de alguns clérigos, foi uma grande felicidade ver a cautela e a frieza científica dos protagonistas antes de dar o milagre como certo, buscando separar minuciosamente a verdade da mentira. Se Padre Quevedo assistisse desenho, estaria dando saltos de alegria rsrs.



A obra também tem seus problemas: usa de alguns clichês anticatólicos. Não, a obra não é anticatólica, na luta do bem contra o mal, da verdade contra a mentira, vemos a Igreja, representada pelos padres Hiraga e Roberto, do lado correto, mas, entre os vilões temos padres pedófilos e nazistas (porém, vale dizer que eram “falsos católicos”, que adoravam o demônio e praticavam espiritismo/necromancia enquanto se disfarçavam sob a batina). Japonês adora associar a Igreja Católica ao nazismo, ecoando o mito do “Papa de Hitler”, só que, não era o Vaticano que lutava ao lado do Eixo na Segunda Guerra, mas sim os amarelos de olhos puxados, enquanto isso o Papa Pio XII, fundamentado na teologia de Santo Tomás de Aquino, conspirava o assassinato de Hitler e acolhia judeus no Vaticano; ao invés de projetar suas culpas na Igreja, deviam os japoneses fazer sua própria mea culpa.

Outro problema da obra: insinuações Yaoi. Que raios é isso? Yaoi é um mangá de beadões. Japonês e sobretudo japoneizinhas pevertidas criaram subgêneros romântico-sodomitas, Yaoi seria entre beadagem e Yuri sapatices. O anime, felizmente, não possui cenas pornográficas nem romances pecaminosos, mas o traço afeminado de alguns personagens (Hiraga, Lauren) imita o estilo usado nos yaois, bem como há cenas onde os personagens mostram uma proximidade que poderia ser interpretada tanto com inocência, quanto com perversidade, uma espécie sútil de piada de duplo sentido, mas profundamente incômoda. Assim, de certo ponto de vista a blasfêmia de Hellsing se torna até mais assimilável que a suavidade de Vatican Kiseki Shousakan, se Alexander Anderson é um vilão sanguinário, psicopata e doentio, ao menos exala masculidade, diferente da dupla Hiraga-Roberto, heróis bonzinhos, “fofinhos” e afeminados.


Com seus méritos e deméritos, não creio se tratar de uma obra católica, mas tampouco de uma obra de difamação vulgar, existe muita coisa pior, sobretudo no mercado japonês.

O que pensa o leitor (manifeste-se nos comentários)? Para mim, essa sútil beadagem da série animada já se tornou incomoda o suficiente, motivo pelo qual não postarei mais os links dos demais episódios no BunKer, embora continue a acompanhar por motivos de estudo (sobre o tema das dinâmicas relações entre a Igreja e a Indústria Cultural no contexto das guerras culturais). 

Diz a sabedoria facebookiana: otaku fedido não é gente; já meu amigo Augusto defende que o entretenimento japonês não passa de “guloseimas culturais”, de modo que quem sobrecarregar a imaginação com essas coisas irá acabar doente, diabético e malnutrido. Este católico fanático arqui-tradicionalista retrógado integrista ultramontano é obrigado a concordar: o entretenimento japonês é profundamente problemático, e mesmo seus melhores achados guardam uma profunda perversão...

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Já que mencionei o Padre Quevedo lá em cima, aproveito para divulgar o trabalho de meu amigo Mário Umetsu. No seu canal Sugestão Católica, Mário tem se esforçado por difundir o legado do Pe. Quevedo e os ensinamentos da Parapsicologia de forma extremamente didática e bem-humorada. O termo “beadagem” também foi cunhado por ele, então fica essa propaganda como um pagamento de direitos autorais rsrs.

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