sexta-feira, 14 de julho de 2017

A Complexidade Psicologico-Simbólica de Digimon

Se tem uma coisa que não canso de repetir é o fato de que a ficção se trata de um poderoso meio de transmissão de idéias, e que todos os produtos da cultura pop têm, por trás de si, uma multidão de conceitos e filosofias que podem contribuir para edificação ou degeneração do homem. Sobretudo no entretenimento infantil essa realidade ganha tons ainda mais graves uma vez que a criança não dispõe ainda de um correto discernimento para lidar com os aspectos "venenosos" de certas obras da moderna indústria cultural. Deste modo, caberia a pais responsáveis selecionar cuidadosamente o entretenimento consumido por seus filhos, principalmente durante sua primeira década de vida. Um desenho infantil nunca é mero entretenimento. É um compêndio simbólico de ensinamentos dirigido a crianças.

Afim de ilustrar toda a complexidade de uma simples narrativa ficcional infantil, trago hoje ao leitor uma breve análise da obra Digimon, tanto do ponto de vista simbólico (apresentado no vídeo), quanto do ponto de vista psicológico (como é destacado no texto).

***



***

(...) O mundo real em Digimon, é bem próximo da realidade. É extremamente conflituoso e problemático:

*Takeru e Yamato são irmãos separados pelo divórcio dos pais, o que faz de Takeru, uma criança insegura e assustada e de Yamato um irmão superprotetor, cheio de ciúmes (foram criados um pelo pai e outro pela mãe, apesar de eles se encontrarem uma vez lá, não tinham até então um laço como irmãos, descobriram isso durante a série!). (...)

*Sora tem uma relação difícil com sua mãe, que lhe parece distante e fria. Motivo? A mãe de Sora desejava que a sua filha se tornasse uma pessoa moldada por ela mesma: sem gostos, sem opiniões! Ocorre que Sora era uma menina diferente das demais! (...) Por conta dessa insegurança e de como a sua mãe a tratava, Sora pensava que sua mãe não a amava e, por conta disso, ela também não amava a sua mãe, então ela que não amava ninguém, não poderia ter como valor, o brasão do “amor”, ao final de adventure, ela descobre o significado da palavra amor!

*Koushiro (Izzy) descobre que foi adotado e tanto ele como seus pais sofrem com o segredo que envolve o fato. Durante toda a série, ele não sabe como chegar aos pais e dizer que em um determinado dia, ele escutou uma conversa entre ambos e sabe que é uma criança adotada, e os pais não sabem como chegar a ele e contar que ele é um filho adotado. Koushiro descobre que ele tem a “SABEDORIA” como virtude, e que ele pode fazer uso dela pra que ele vença seus próprios medos, e que façam assim ele evoluir como ser humano. No final de Digimon Adventure, ele consegue ter a conversa com seus pais, e dizer a eles, que ele os ama acima de qualquer coisa! (...)

*Jou (Joe) é um CDF compulsivo, inseguro e assombrado pelas expectativas de seus pais em relação ao seu sucesso na vida. A escolha da problema de Jou é uma tragédia, que já se tornou muito comum no Japão: jovens que se matam por serem inseguros, e terem medo de não atingir as expectativas que seus pais esperavam. (...)

*Mimi é fútil e egoísta. Isso ocorre em casos que os pais são super protetores (...) A Mimi em Digimon é bem retratada, assim como seus pais; acho que ela é a que mais sofre quando tem a prova de fogo de conseguir sobreviver em um mundo estranho, onde não pode contar com o apoio de ninguém bajulando e realizando suas vontades. (...)

*Taichi parece ser o mais estável do grupo, mas seus pontos fracos são sua irmã mais nova, de saúde frágil e ar triste, e seu sentimento de culpa por não poder protegê-la sempre. (....)

No Mundo Digital, ao serem forçados a formar um grupo, as crianças não conseguem, a princípio, vencer sua insegurança e seus problemas pessoais. O conflito é permanente e declarado, inclusive com violência física, como entre Taichi e Yamato. A eliminação dos conflitos é lenta e dolorosa, e apenas ao final da primeira parte da série, no último episódio, praticamente, eles conseguem a confiança que vem do auto-conhecimento e da certeza de que têm entes queridos que os apoiam.

Os conflitos não se restringem às oito crianças principais: os adultos também sofrem as mesmas angústias das crianças, não conseguem organizar suas vidas adequadamente. E também os digimons têm dúvidas e sofrimentos, anseios e preocupações que os levam a lutas, à fuga ou a uma existência de medo e incerteza. [1]
***

Além do já mencionado, note o leitor a recorrência da mesma estrutura narrativa em que chamei atenção em minha crítica sobre o filme Alice no País das Maravilhas: protagonistas com problemas e dificuldades no mundo real que escapam para o mundo das fadas (no caso aqui, o Digimundo), um mundo de fantasia, onde aprendem a desenvolver as virtudes necessárias para bem viver sua vida cotidiana. Este tipo de estrutura é bem comum no entretenimento infantil, o jogo Final Fantasy Tactics Advanced se destaca por aprofundar um pouco mais na temática:

(...) Em se tratando de jogos com esse tema, temos o Final Fantasy Tactics Advanced, onde no jogo o "Final Fantasy" é visto como um jogo e a historia se passa no mundo real.

Mesmo o jogo sendo um pouco infantil, ele até consegue debater bem sobre esse tema. Mas mostrando varias perspectivas. Temos o nosso herói Marche onde ele e seus dois amigos tem sérios problemas em sua realidade. Enquanto um tem problemas pessoais, o outro teve a mãe que morreu e seu pai que não conseguiu seguir adiante depois da tragédia, deixando o garoto que já tinha problemas ainda mais recluso.

Um dia, os três vão para outro mundo. O protagonista pretende voltar ao mundo real, mas para isso ele tem que destruir cristais que vão criar uma desestabilização naquele mundo, fazendo assim ele e seus amigos voltarem pra casa. Porém, diferente das histórias padrões, os seus amigos não querem voltar pra casa, muito pelo contrário eles decidem ficar nesse mundo, pelo fato de ser tudo o que eles queriam. A garota tem seu sonho realizado, o garoto recluso sem mãe e com um pai fraco, nesse mundo a mãe dele é viva e seu pai é forte e confiante. (...)[2]
Em Final Fantasy Tactics Advanced a discussão vai mais além, tocando a fundo o problema da função da fantasia. Se por um lado temos sua função pedagógica, onde o mundo das fadas é um instrumento para o crescimento nas virtudes, por outro temos seu potencial alienante, onde procura-se usá-lo como uma fuga do mundo real.

De todo o modo, voltemos a Digimon; temos tamanha complexidade psicológico-simbólica em uma simples narrativa infantil, mas, seria o imaginário infantil capaz de absorver tudo isso? Para responder esta questão consulto as reminiscencias de minha infância, creio que devia ter cerca de 8~10 anos no tempo em que me encantava com as maravilhas do digimundo na TV Globinho. Embora toda a estética simbólica do anime me causasse admiração, não era capaz de penetrar em seu significado profundo, mesmo a complexidade psicológica da narrativa passou despercebida; o que guardei na época foi certa admiração pela semelhança (?) entre o temperamento do personagem Yamato/Matt (não sei dizer ao certo se realmente tinha um temperamento e personalidades semelhantes, ou se acabei incorporando isso por mimetismo) e o meu. Vi ali a expressão de certas tendências de personalidade que possuía dentro de mim. Outra coisa que me marcou profundamente na época foi a figura de Angemon, foi ela a primeira e mais ''concreta'' referência imaginária que encontrei daquilo que seria um anjo, a partir daquele personagem é que pude compreender e imaginar a verdade católica a respeito dos anjos da guarda que aprendi em minha catequese infantil.


Conscientemente é isso que lembro-me de ter absorvido, entretanto, a simbólica de Digimon marcou-me tão fortemente, tal qual uma semente, um arquivo compactado, que senti a necessidade de na fase adulta cultivar esta semente, descompactar este arquivo, aprofundar-me no significado da narrativa, e daí veio a pesquisa que originou este artigo.

Concluindo, embora Digimon não é seja uma obra católica e, tampouco, um destes entretenimentos modernos novordistas com vistas a engenharia social; enquadrando-se numa espécie de ''conto de fadas japonês'' lotado de referências culturais, religiosas e sociológicas diversas, mais ou menos explícitas (e classifico como positiva a influência desta obra sobre o imaginário infantil), é um ilustrativo exemplo da profundidade das obras de ficção infantil, e um convite a deixar cair as escamas dos olhos tratando com realismo, seriedade e prudência a temática da fantasia ficcional e sua influência sobre o imaginário infantil.

____________________________________
[1]O texto intitulado "A Filosofia de Digimon" foi parcialmente alterado nesta publicação, não em seu conteúdo mas em sua forma: ortografia, gramática, coesão, e etc. Embora tenha sido feliz nas constatações, o autor do texto original derrapou um pouco na hora de expressá-las textualmente.
[2]O texto "A filosofia dos mundos paralelos dos animes e jogos japoneses" também foi parcialmente alterado em sua forma nesta publicação.

Nenhum comentário:

Postar um comentário