quinta-feira, 1 de junho de 2017

Um Mad Max Protestante


Uma guerra nuclear transformou o planeta num verdadeiro deserto a céu aberto, sob as ruínas da antiga civilização sobrevive a humanidade oprimida por gangues de marginais e arruaceiros; lutas eletrizantes, carros tunados, e muito sangue... Não, eu não estou falando da Mad Max, mas sim de sua paródia protestante, estou falando de “O Livro de Eli”.

Em um futuro não muito distante, 30 anos após o término da última guerra. Eli (Denzel Washington) é um homem solitário, que percorre a América do Norte devastada. Ele apenas deseja paz, mas ao ser desafiado não foge à luta. Seu principal objetivo é proteger a esperança da humanidade, a qual guarda consigo há 30 anos, sendo que para tanto faz o que for preciso para sobreviver. O único que compreende seu intento é Carnegie (Gary Oldman), o autoproclamado déspota de uma cidade repleta de ladrões. Ao mesmo tempo Solara (Mila Kunis), a filha da companheira de Carnegie (Jennifer Beals), fica fascinada com Eli pela possibilidade de que ele lhe mostre o que há além dos domínios que conhece. Só que Carnegie está disposto a impedir sua cruzada, para recuperar Solara e também conseguir o valioso objeto que Eli protege.

A grande sacada dos produtores foi misturar todo esse cenário pós-apocalíptico com a temática religiosa; no filme acompanhamos a história do “profeta” (?) Eli neste mundo terrível. Eli fora escolhido pela Providência como guardião do último exemplar da Bíblia que restou no planeta, mas no meio do caminho é posto em confronto com o ambicioso Carnegie, sobrevivente do mundo antigo que busca utilizar o livro sagrado para manipular o coração dos homens (exatamente como fazem muitos pastores protestantes). Não vou contar o resto do filme para não estragar a história, mas temos ainda pela frente épicas cenas de luta, perseguição, mutilações tiros pra todo canto.

Porque digo que é um filme protestante? A começar porque Eli carrega a Bíblia do Rei James (ou seja, uma Bíblia mal traduzida e mutilada, com sete livros a menos), fosse católico estaria com a Vulgata Latina de São Jerônimo. Não apenas isso, também pelo simplismo do roteiro, para que a Fé continue a sobreviver sobre a Terra não bastaria apenas as escrituras, faz-se necessário a instituição que têm o poder de interpretá-la, e, sobretudo os Sacramentos, que não seriam possíveis sem essa mesma instituição. Em resumo teríamos de ter ao menos um bispo na história para garantir a continuidade da Igreja (prometida pelo próprio Salvador). Ah! Quão mais interessante não se tornaria a história com esses elementos? 

Mas não é só em doutrina que o filme erra. Erra porque se prende a clichês, erra porque trabalha pouco as infinitas possibilidades do cenário “pós-apocalíptico”, erra ao trazer um vilão bem meia boca. Porém, dois acertos me fazem levantar e aplaudir de pé esta obra. Primeiro o respeito ao pudor: mesmo trabalhando temas como a prostituição e o estupro, o diretor não polui o filme com cenas lascivas e incômodas. Segundo, e em minha opinião a sacada de mestre: a mistura de gêneros. Parece que tudo quanto é tipo de filme religioso só sabe ficar girando em torno das narrativas dramáticas chorosas, em O Livro de Eli temos mais que isso, temos um filme de ação incrível. 

Eis a lição do filme, uma lição básica da guerra cultural, que deveríamos ter aprendido com as Sagradas Escrituras: “o dom das línguas”; a habilidade de falar da Fé usando todas as linguagens, inclusive a dos filmes de ação. 

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