quarta-feira, 7 de junho de 2017

Um filme para gente grande

Tirem as mulheres e crianças da sala, hoje o assunto é sério. O filme que venho comentar é daquelas narrativas tão fortes e marcantes cujo qual você não será o mesmo depois de assisti-lo, isso é, se conseguir chegar até o final. Não estou falando de um desses forçados pós-apocalípticos que têm de apelar a violência narrativa para chocar o leitor, tão pouco se trata da violência visual de tantos filmes meia-boca de Hollywood, venho comentar sobre o filme: Santa Teresinha do Menino Jesus – Uma História de Fé. Como é? Todo esse drama para falar do filme de uma freirazinha, tá de brincadeira com a minha cara? Nem um pouco. Estou falando sério, e muito sério. 

Tantas vezes cultivamos ilusões de grandeza, uma vida heroica, grandes aventuras, combates; romantizamos e anestesiamos o próprio sofrimento. A morte que na vida real é um drama tão grande, se torna até mais degustável visto pelas lentes do filmes, quem não escolheria uma morte épica em batalha com a espada em mãos, em meio ao tiroteio do faroeste, e tantas outras formas “gloriosas” que parecem, ao menos nos filmes, fazer calar a dor e o sofrimento? Mas, e quando os heroísmos não são tão visíveis? Quando a batalha não envolve cenas de perseguição, sequências de espadas ou tiros alucinantes? Quando o monstro não é tão feio e assustador a ponto de alguém dar falta dele? Sim, em um mundo de ilusões, cosplayers e rpg não há nada mais assustador ao homem moderno que o prosaísmo de uma vida comum.

O filme, baseado na vida de Santa Teresinha, é um luzeiro em meio a tantas ilusões. E olha que é difícil traduzir a vida de um santo as telas de cinema; mais difícil ainda com um filme de baixo orçamento, e ainda mais se tratando de um santo aparentemente “tão comum”, mas temos uma obra que supera todos estes obstáculos e traz uma mensagem a ecoar pelas almas dos espectadores. 

O inicio é irritante. Sim, irritante, vemos a família dos Martin tão perfeita, tão amorosa e piedosa, que chega a incomodar: “então é isso, é assim uma família católica de verdade?”; e o espectador fica com uma espécie de “inveja branca” (ao menos eu fiquei), por nunca ter visto ou ouvido falar de famílias que ecoassem mesmo que imperfeitamente este modelo. A culpa é do filme que retratou de maneira demasiado romântica e irreal ou nossa que não damos a instituição família a seriedade e respeito que merece? Eu aposto na segunda opção. 

Vemos uma jovem Teresinha, tão mimada, e ao mesmo tempo tão graciosa; a atriz mostra em sua atuação a personalidade infantil da personagem, uma infantilidade mimada, irritante, mas simpática. Uma espécie de egoísmo gracioso e bonitinho, como de crianças mesmo...

O avançar do filme segue assim de pequenos em pequenos dramas: do bullying que a pobre menininha sofria na escola ao sofrimento dela e do pai com as sucessivas ausências das irmãs que se retiram para cumprir sua vocação na vida religiosa. O pai, Luís Martin (São Luís Martin) é retratado de modo tão digno, com uma verdadeira nobreza, quão surpreendente é ver esse mesmo Luís Martin, tão forte, tão digno, em uma cadeira de rodas babando ao final do filme; a mensagem simbólica desta cena, o convite a reflexão sobre o mistério da velhice, da loucura, é algo forte, muito forte.

Vemos também os grandes sacrifícios da pequena Teresinha, seus heroísmos cotidianos tão simples e invisíveis, e ao mesmo tempo tão difíceis: a paciência ao tolerar, sorrir e manter diante da insensibilidade e antipatia dos demais; a humildade em levar sobre si culpas que não são suas; até os dolorosos sofrimentos diante da doença do pai; diante de sua própria doença (tuberculose) e a noite escura que antecedeu sua morte agonizante.

É mais fácil lutar com hereges, derramar o sangue em uma guerra, aventurar-se por terras inóspitas do que tolerar esse prosaísmo cotidiano sorrindo, sem manifestar ira, raiva, violência; é a impressão que se fica... Impressão que revela uma doença de alma, uma doença da alma moderna que procura nas aventuras uma fuga, uma fuga do drama da vida humana.

Um filme simples, e um filme forte. Uma história que nos arranca de nossas ilusões e nos traz para a realidade; a realidade de nosso descaso, inépcia, de nosso desamor. Um filme para gente grande, uma pequena via que faz muitos ditos valentes correrem chorando gritando pela mãe.

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