quinta-feira, 29 de junho de 2017

O UFC e o fim do mito shaolim hollywoodiano

No século passado as artes marciais invadiram a cultura pop, enriquecendo e empolgado o imaginário de milhões de crianças e adultos. Bruce Lee, Chuck Norris, Jackie Chan foram alguns dos nomes que marcaram época; foi também, nos videogames, o tempo dos fenômenos Street Fighter, Mortal Kombat e Tekken. Se, academias e praticantes sérios bem aproveitaram desta moda para popularizar sua arte e estilos de luta foi também o tempo em que pulularam os charlatões. Golpes de Tchi, estilos invencíveis e cursos à distância ludibriaram muitos incautos com o imaginário totalmente distorcido pelos exageros cinematográficos. Tanto dinheiro, e, sobretudo tempo perdido! 

Por mais bonito que seja, ninguém aprende a lutar com o “tira casaco; bota casaco”; bem como mal se tem tempo de usar de firulas[1] e formas belíssimas em um combate real. Por mais incrível que pareça aos olhos de uma plateia, quebrar tijolos com os punhos (pura física vendida como fosse “magia chinesa”) nada significa em um combate real, pois “tijolo não revida”. Porém, o mito persistia, afinal, quantos realmente eram obrigados a colocar tais técnicas à prova em um combate real? Poucos. A maioria engoliu por anos a ilusão, sem sequer perceber que estava sendo enganada. Porém, com o advento do MMA, e eventos como o UFC, vemos o início do fim dos mitos marciais. A cena do mestre de “tchi” nocauteado por um lutador de MMA é o marco de uma época. Hoje em dia, os “Miagi de esquina” e “gurus de academia” são constantemente cobrados quanto a efetividade de seus estilos marciais.


O UFC e eventos similares, aproximaram o homem comum do “realismo marcial”. Raramente vemos em tais competições aqueles golpes cinematográficos e coreografados que foram vendidos a nós no passado pelos filmes, videogames, e academias de esquina, porque será? Vai ver porque era puro mito, balé, ficção, ilusionismo, rpg chinês, balela, confeccionada sob medida para impressionar uma plateia de incautos. É certo que o MMA está longe de ser um “combate real”: na verdadeira luta não há regras ou juízes; mas foi modo até agora mais adequado que a humanidade encontrou trazer o combate às vistas de cada homem comum, sem por em risco a vida dos atletas[2]

Dos campos de batalha aos templos, dos templos as academias e filmes; dos filmes as lutas teatrais do WWE, chegamos enfim “realismo possível” do UFC. Dos estilos fechados, a fluidez do O Tao do Jeet Kune Do[3], passando pelo mix padrão MMA, aos sistemas de defesa militares; as artes marciais tem desde seu surgimento sofrido inúmeras transformações, estarão seus atuais praticantes prontos aos desafios que lhe exige este século? Estarão prontos a abandonar os velhos mitos, corrigir e aperfeiçoar as técnicas, tanto em sua eficiência em combate, quanto para sua sobrevivência cultural? Ou engoliram por tempo demais o romântico mito shaolim de holywood, de tal modo que levarão ao fim a herança milenar que receberam de seus ancestrais? Só o tempo irá dizer...Mas, diferente da Igreja, as tradições marciais não são eternas; nenhuma Providência há de garantir a perenidade das tradições marciais, o futuro delas depende inteiramente das capacidades de seus praticantes, cabe a eles impedir que muitas das antigas tradições marciais sejam sepultadas nas areias do passado.
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[1] A firula tem uma lógica, seu objetivo é iludir, ludibriar, o oponente, em plena coerência com os ensinamentos Sun Tzu: “Todo guerreiro se baseia em simulação. Assim, o capaz se fingirá incapaz e o ativo aparentará inatividade.” (A Arte da Guerra, Cap. I; §17-18). O problema ocorre quando a firula perde seu sentido tático e vira motivo para “ostentação”. 
[2] A discussão sobre a moralidade da luta como entretenimento em eventos como UFC é complexa, pretendo abordar o assunto em textos futuros.
[3] O Tao do Jeet Kune Do é um livro de autoria do ator e artista marcial Bruce Lee; foi o primeiro livro a sugerir a “quebra” dos rígidos sistemas e estilos de luta em prol de uma fluidez pragmática. O livro marcou época, e ainda hoje influencia a prática e o pensamento de muitos artistas marciais.

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