quinta-feira, 22 de junho de 2017

M,O Vampiro de Dusseldorf (1931) - Uma arapuca cinematográfica


Tive recentemente oportunidade de assistir mais um clássico do expressionismo alemão: M, O Vampiro de Dusseldorf (1931) de Frtiz Lang. Apesar do nome sugestivo o filme não trata de homens dentuços sugadores de sangue, longe de ser uma obra de terror fantástico temos aqui um intenso (para os padrões da época) thriller policial com um enredo de quebrar a cabeça e te deixar sem dormir por dias. 



(Vem muitos spoliers por aí, então se for fresco vá ver o filme primeiro e depois volte.)

Há um mistério em Dusseldorf, um misterioso maníaco tem sequestrado e assassinado criancinhas; a população está indignada e cobra constantemente a ação mais efetiva da polícia. Pressionado pelos populares, a polícia cada fica cada vez mais agitada, prejudicando os negócios de alguns mafiosos locais, que se põe também na caça do maníaco por um misto de indignação e pragmatismo (afim da polícia sossegar e deixar seus negócios em paz).

Ao longo do filme somos conduzidos na narrativa por esses três ângulos: as investigações da polícia, as investigações da máfia, e a ação do maníaco. Se com os recursos de 1931, Lang já fez um filme sensacional, imagino o que não faria com as tecnologias de hoje com uma história dessas. Voltando ao filme e pulando direto para o final, no fim os mafiosos conseguem pegar o maníaco e o submetem a uma espécie de tribunal do crime, é ai que começa a “arapuca”.

No tribunal improvisado o mundo do crime pede, indignado, a condenação do maníaco. Prostitutas, vagabundos e ladrões o gritam: “-Matem-no! - Crucifica-o!”. Estaria o autor querendo forçar uma identificação entre o maníaco e o Cristo? Sim, e isso se torna cada vez mais sugestivo conforme a narrativa avança. Em sua defesa o maníaco alega que era diferente de todos eles, que eles (os criminosos) são assim porque são vagabundos e preguiçosos, mas ele é um doente; que não consegue agir de outra forma é um escravo das “vozes na sua cabeça”. O advogado de defesa (sim a máfia providenciou um advogado de defesa para ele! É uma ficção aceitemos os termos por enquanto rsrs) argumenta que devem entregá-lo a polícia, que não podem matar um homem que não têm plena responsabilidade, que não tem controle sobre si; o maníaco precisaria ser tratado não punido. O juiz, um dos chefões da máfia, argumenta que seria ineficaz; que ele poderia sair do manicômio de algum modo e voltar às ruas, voltar a matar e ameaçar as crianças. O advogado de defesa torna a insistir no argumento moral que não se pode punir alguém que não têm controle sobre si; uma das mulheres presentes (possivelmente uma prostituta) grita: “-Você diz isto porque não tem filhos, pergunte a seus pais como dormiriam em paz com um maluco desses a solta”. Antes que o julgamento termine, a polícia aparece a acaba com a festa. A próxima cena sugere que a lei do Estado condenou o maníaco à morte, exatamente o que fariam os mafiosos; segue a cena final com as mães das crianças chorando que isso não traria seus filhos de volta, e deixando uma mensagem ao expectador: “cuidem de suas crianças”.

Wow.... Intenso não? E você o que faria caso fosse o juiz, e os termos da narrativa estivessem corretos (trato disso mais adiante), castigaria um homem doente que não tem controle sobre si com a morte, ou o encaminharia ao tratamento correndo o risco dele voltar para as ruas para ameaçar a vida das inocentes crianças? Pois é, essa é a arapuca! Durante a narrativa o lado passional flui você chega a torcer pros mafiosos acharem o canalha antes da polícia e darem a ele o castigo que merece, mas depois da defesa do maluco o lado racional se põe a pensar se o que ele merece é mesmo um castigo ou um tratamento. A frase da mãe ao final: “isso não vai trazer nossas crianças de volta” faz-nos questionar ainda mais o lado passional.  Complicado dar uma resposta simples para qualquer lado sem peso na consciência, escutar a paixão, ou a razão fria, abstrata e desencarnada? Eis a arapuca.

Meu amigo Pola, que me ajudou com está análise, classificou este filme como o demoníaco germe dos direitos humanos; aí vemos, diz ele, as premissas que conduziram a ideia do bandido como vítima da sociedade, a vitimização do vilão. Outros aspectos por ele mencionado é o fato do diretor colocar na boca da máfia o argumento correto: "sendo doente ou não, não se pode deixar livre um monstro como aquele, é um perigo para a socidede". Já os especialistas técnicos os quais consultei (e que o leitor pode encontrar no vídeo logo abaixo) elogiam a ousadia artística do diretor, e observam aí o germe do gênero conhecido com “film noir”, conhecido por abordar as nuances e matizes de cinza da moralidade humana de um modo dramático e incômodo.



Arte ou perversidade? Respondo isso ao final, vou agora é tentar desenhar a escapatória desta arapuca. O argumento do maníaco segundo a qual é injusto punir um doente sem controle sobre seus atos é até razoável; embora questionável. Se olharmos coisa de um ponto de vista cristão, a pena de morte pode ser um ato de misericórdia para esse homem, fosse ele mesmo inocente, morto, estaria livre dos tormentos de sua doença e poderia descansar em um lugar melhor, além de dar sossego a sociedade (e este é o fundamento moral da pena de morte, a legítima defesa da sociedade contra o individuo que ameaça a toda coletividade). Poderia se objetar que não seria necessário recorrer à morte, talvez houvesse um modo de corrigi-lo, ou mesmo torna-lo inofensivo; mas daí voltaríamos ao jogo dialético entre a máfia e o advogado de defesa, e não é esse o caminho que quero tomar. A questão principal é: o argumento de M, segundo o qual ele não tem controle sobre suas ações é válido? Não ensinam as escrituras que ninguém é tentado acima de suas capacidades, assim esse homem, teria tido, mesmo que uma mínima margem de liberdade para tomar um caminho diferente. Não mostra o filme que ele não só planeja friamente suas monstruosidades, como instiga e provoca a polícia? Não temos a fala do especialista, cenas antes, afirmando ser ele um homem de grande habilidade teatral? Sendo assim, não estaria ele mentindo ao sugerir não ter controle algum sob seus atos?

Ás vezes mergulhamos tanto na narrativa que nos esquecemos do aspecto que é o mais importante: não estamos nós em uma posição privilegiada vendo os fatos concretos como ocorreram, estamos diante de uma narrativa construída pelo narrador, os fatos (premissas) são cuidadosamente organizados para dirigir a nossa conclusão. Cineastas desonestos, normalmente fazem uma complexa seleção dos fatos, com base a conduzir o leitor à conclusão desejada. Fritz Lang não fez isso, e por este motivo, vejo o filme (diferente de meu amigo Pola*) mais por seu valor artístico do que por sua ambiguidade demoníaca. O diretor não foi imparcial, ordenou a narrativa sugerindo a inocência do assassino, porém não esconde ao espectador os ''fatos" que põe em cheque a conclusão apresentada. Lang poderia desde o começo retratar o assassino como um coitado, ocultar da película a análise sobre a personalidade de M, o deleite monstruoso deste em cada nova caçada, mas não o faz. Lang é honesto, ambíguo, mas honesto. Oferece-nos a possibilidade de contestar o filme, usando argumentos do próprio filme, oferece ao espectador mais de uma chave de leitura, sem que seja preciso escapar da narrativa para a realidade, mas não oferece isso de bandeja, escondendo em meio a ordenação dos fatos. Em resumo, Lang ordena os ''fatos'', mas não os seleciona, em vista a tornar possível apenas uma única conclusão.

Pode-se objetar que é uma estética quase gnóstica: os profanos serão conduzidos ao erro (?) por uma apreciação acrítica do filme, os iniciados, se quiserem, poderão escapar da arapuca com os argumentos oferecidos pelo próprio filme. Seria lícito, “disfarçar” a verdade ao invés de explicitá-la, sob uma justificativa artística? É claro que não, dirão alguns, isto é um proceder gnóstico! Sim é possível, dirão outros, não podemos mimar o público, temos de instigá-los a pensar, dirão outros. E o leitor, o que pensa? Manifeste-se nos comentários, e ajude-nos a aprofundar o debate em prol de uma crítica de cinema competente e católica. 
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*Segundo ele, esta sutileza de Lang tornaria o filme ainda mais perigoso. Uma meia-verdade é mais sedutora e convincente que uma mentira completa.

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