sábado, 3 de junho de 2017

Artes Marciais contra o Século XXI

A guerra moderna é algo monstruoso, não que a antiga não fosse, mas em tempos de bomba atômica, drones e metralhadoras a coisa está ainda mais terrível. O tempo dos monges guerreiros a conquistar vitória contra os exércitos nacionais está enterrado no passado, e nas cabeças românticas dos tolos. Um civil hoje não tem qualquer chance contra um militar, é como uma criança frente a um leão. Bastões, espadas e lâminas viraram brinquedos ou curiosidades arqueológicas, na guerra moderna isso tudo é inútil.

A proposta original das artes marciais de preparar os indivíduos para guerra, nos tempos modernos, fracassou. Um mestre Shaolin não duraria cinco minutos em um campo de batalha no Afeganistão, por exemplo, se não tiver por apoio a estrutura de um Estado bélico por trás. O corpo é uma arma, sem dúvida, mas nada pode contra as bugigangas modernas. O fracasso samurai na Era Meiji é o símbolo icônico deste fracasso das artes marciais tradicionais ante a guerra “industrializada”. As katanas ''sagradas'' (?) foram substituídas pela pólvora profana sob o sangue da casta guerreira japonesa. Ninguém hoje, em sã consciência, treina Kendo, Kenjutsu (e as variantes da técnica da espada japonesa, ou mesmo a esgrima europeia) com o intuito de usar tais técnicas em batalhas reais, só no cinema é que a lâmina é mais rápida que a bala.

Se a função marcial perdeu-se, ao menos sua expressão artística continua; nomes como Bruce Lee, Jackie Chan, e Jet Li imortalizaram as artes marciais nas telas do cinema; não há palavras para expressar a beleza paradoxal do estilo de luta conhecido como “punho bêbado”; ou a romântica sensação do ruído das katanas em Samurai X. Sua função artística e metafórica se mantém também como “filosofia de vida”; a disciplina exigida ao treino do corpo, a agilidade e perfeição das técnicas tornam-se metáforas para as batalhas da vida pessoal e profissional; “as artes marciais mudaram minha vida” é uma frase comum de se ouvir, num tom quase que religioso.

Como esporte, porém, as artes marciais tradicionais depois de um breve período de crescimento estabilização, sofrem um declínio. Enquanto no século passado pululavam academias de Kung Fu, a expressão olímpica do Judô animava adeptos, e cada criança queria ser o próximo Karate Kid; hoje, na primeira década do século XXI o octógono vêm tomando o lugar das artes marciais tradicionais nas telas da TV e na imaginação dos adolescentes. E, a hesitação dos artistas marciais tradicionais em adaptar suas técnicas a esta nova modalidade ''brutal e desonrada'' (?), mas extremamente popular do esporte, têm contribuído para potencializar a sua queda.

Mas é, sobretudo, nas brigas de rua, o verdadeiro vale tudo, em que as artes marciais tradicionais encontram seu verdadeiro desafio. Se outrora o artista marcial era como que um escolhido em meio aos profanos leigos, hoje qualquer zé mané baladeiro têm preparo físico e técnica suficientes para dar alguma dor de cabeça. Aquele que tiver a infelicidade de se envolver em uma briga de rua não encontrará um ambiente tão dócil e simples, como fora as brigas de rua dos séculos anteriores. 

As artes marciais tradicionais estão diante de um ponto crítico, um desafio cultural a sua existência, ao menos do modo como conhecemos até o presente momento. Abidicarão elas do conceito “marcial” refugiando-se apenas como expressão artística? Conseguirá, no mundo esportivo, superar a popularidade do MMA, ou se submeterá as regras do octógono, encontrando sua expressão esportiva dentro da generalidade do UFC? Abandonará de vez as pretensões de defesa pessoal, ou mostrará a sua fluidez, adaptando-se como a água (para usar a metáfora de Bruce Lee) a nova realidade das lutas de rua? Essas, e tantas outras perguntas deveriam pairar na mente de cada artista marcial hoje, se pretendem honrar e garantir a perpetuação da herança que receberam de seus ancestrais. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário