quinta-feira, 29 de junho de 2017

O UFC e o fim do mito shaolim hollywoodiano

No século passado as artes marciais invadiram a cultura pop, enriquecendo e empolgado o imaginário de milhões de crianças e adultos. Bruce Lee, Chuck Norris, Jackie Chan foram alguns dos nomes que marcaram época; foi também, nos videogames, o tempo dos fenômenos Street Fighter, Mortal Kombat e Tekken. Se, academias e praticantes sérios bem aproveitaram desta moda para popularizar sua arte e estilos de luta foi também o tempo em que pulularam os charlatões. Golpes de Tchi, estilos invencíveis e cursos à distância ludibriaram muitos incautos com o imaginário totalmente distorcido pelos exageros cinematográficos. Tanto dinheiro, e, sobretudo tempo perdido! 

Por mais bonito que seja, ninguém aprende a lutar com o “tira casaco; bota casaco”; bem como mal se tem tempo de usar de firulas[1] e formas belíssimas em um combate real. Por mais incrível que pareça aos olhos de uma plateia, quebrar tijolos com os punhos (pura física vendida como fosse “magia chinesa”) nada significa em um combate real, pois “tijolo não revida”. Porém, o mito persistia, afinal, quantos realmente eram obrigados a colocar tais técnicas à prova em um combate real? Poucos. A maioria engoliu por anos a ilusão, sem sequer perceber que estava sendo enganada. Porém, com o advento do MMA, e eventos como o UFC, vemos o início do fim dos mitos marciais. A cena do mestre de “tchi” nocauteado por um lutador de MMA é o marco de uma época. Hoje em dia, os “Miagi de esquina” e “gurus de academia” são constantemente cobrados quanto a efetividade de seus estilos marciais.


O UFC e eventos similares, aproximaram o homem comum do “realismo marcial”. Raramente vemos em tais competições aqueles golpes cinematográficos e coreografados que foram vendidos a nós no passado pelos filmes, videogames, e academias de esquina, porque será? Vai ver porque era puro mito, balé, ficção, ilusionismo, rpg chinês, balela, confeccionada sob medida para impressionar uma plateia de incautos. É certo que o MMA está longe de ser um “combate real”: na verdadeira luta não há regras ou juízes; mas foi modo até agora mais adequado que a humanidade encontrou trazer o combate às vistas de cada homem comum, sem por em risco a vida dos atletas[2]

Dos campos de batalha aos templos, dos templos as academias e filmes; dos filmes as lutas teatrais do WWE, chegamos enfim “realismo possível” do UFC. Dos estilos fechados, a fluidez do O Tao do Jeet Kune Do[3], passando pelo mix padrão MMA, aos sistemas de defesa militares; as artes marciais tem desde seu surgimento sofrido inúmeras transformações, estarão seus atuais praticantes prontos aos desafios que lhe exige este século? Estarão prontos a abandonar os velhos mitos, corrigir e aperfeiçoar as técnicas, tanto em sua eficiência em combate, quanto para sua sobrevivência cultural? Ou engoliram por tempo demais o romântico mito shaolim de holywood, de tal modo que levarão ao fim a herança milenar que receberam de seus ancestrais? Só o tempo irá dizer...Mas, diferente da Igreja, as tradições marciais não são eternas; nenhuma Providência há de garantir a perenidade das tradições marciais, o futuro delas depende inteiramente das capacidades de seus praticantes, cabe a eles impedir que muitas das antigas tradições marciais sejam sepultadas nas areias do passado.
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[1] A firula tem uma lógica, seu objetivo é iludir, ludibriar, o oponente, em plena coerência com os ensinamentos Sun Tzu: “Todo guerreiro se baseia em simulação. Assim, o capaz se fingirá incapaz e o ativo aparentará inatividade.” (A Arte da Guerra, Cap. I; §17-18). O problema ocorre quando a firula perde seu sentido tático e vira motivo para “ostentação”. 
[2] A discussão sobre a moralidade da luta como entretenimento em eventos como UFC é complexa, pretendo abordar o assunto em textos futuros.
[3] O Tao do Jeet Kune Do é um livro de autoria do ator e artista marcial Bruce Lee; foi o primeiro livro a sugerir a “quebra” dos rígidos sistemas e estilos de luta em prol de uma fluidez pragmática. O livro marcou época, e ainda hoje influencia a prática e o pensamento de muitos artistas marciais.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

M,O Vampiro de Dusseldorf (1931) - Uma arapuca cinematográfica


Tive recentemente oportunidade de assistir mais um clássico do expressionismo alemão: M, O Vampiro de Dusseldorf (1931) de Frtiz Lang. Apesar do nome sugestivo o filme não trata de homens dentuços sugadores de sangue, longe de ser uma obra de terror fantástico temos aqui um intenso (para os padrões da época) thriller policial com um enredo de quebrar a cabeça e te deixar sem dormir por dias. 



(Vem muitos spoliers por aí, então se for fresco vá ver o filme primeiro e depois volte.)

Há um mistério em Dusseldorf, um misterioso maníaco tem sequestrado e assassinado criancinhas; a população está indignada e cobra constantemente a ação mais efetiva da polícia. Pressionado pelos populares, a polícia cada fica cada vez mais agitada, prejudicando os negócios de alguns mafiosos locais, que se põe também na caça do maníaco por um misto de indignação e pragmatismo (afim da polícia sossegar e deixar seus negócios em paz).

Ao longo do filme somos conduzidos na narrativa por esses três ângulos: as investigações da polícia, as investigações da máfia, e a ação do maníaco. Se com os recursos de 1931, Lang já fez um filme sensacional, imagino o que não faria com as tecnologias de hoje com uma história dessas. Voltando ao filme e pulando direto para o final, no fim os mafiosos conseguem pegar o maníaco e o submetem a uma espécie de tribunal do crime, é ai que começa a “arapuca”.

No tribunal improvisado o mundo do crime pede, indignado, a condenação do maníaco. Prostitutas, vagabundos e ladrões o gritam: “-Matem-no! - Crucifica-o!”. Estaria o autor querendo forçar uma identificação entre o maníaco e o Cristo? Sim, e isso se torna cada vez mais sugestivo conforme a narrativa avança. Em sua defesa o maníaco alega que era diferente de todos eles, que eles (os criminosos) são assim porque são vagabundos e preguiçosos, mas ele é um doente; que não consegue agir de outra forma é um escravo das “vozes na sua cabeça”. O advogado de defesa (sim a máfia providenciou um advogado de defesa para ele! É uma ficção aceitemos os termos por enquanto rsrs) argumenta que devem entregá-lo a polícia, que não podem matar um homem que não têm plena responsabilidade, que não tem controle sobre si; o maníaco precisaria ser tratado não punido. O juiz, um dos chefões da máfia, argumenta que seria ineficaz; que ele poderia sair do manicômio de algum modo e voltar às ruas, voltar a matar e ameaçar as crianças. O advogado de defesa torna a insistir no argumento moral que não se pode punir alguém que não têm controle sobre si; uma das mulheres presentes (possivelmente uma prostituta) grita: “-Você diz isto porque não tem filhos, pergunte a seus pais como dormiriam em paz com um maluco desses a solta”. Antes que o julgamento termine, a polícia aparece a acaba com a festa. A próxima cena sugere que a lei do Estado condenou o maníaco à morte, exatamente o que fariam os mafiosos; segue a cena final com as mães das crianças chorando que isso não traria seus filhos de volta, e deixando uma mensagem ao expectador: “cuidem de suas crianças”.

Wow.... Intenso não? E você o que faria caso fosse o juiz, e os termos da narrativa estivessem corretos (trato disso mais adiante), castigaria um homem doente que não tem controle sobre si com a morte, ou o encaminharia ao tratamento correndo o risco dele voltar para as ruas para ameaçar a vida das inocentes crianças? Pois é, essa é a arapuca! Durante a narrativa o lado passional flui você chega a torcer pros mafiosos acharem o canalha antes da polícia e darem a ele o castigo que merece, mas depois da defesa do maluco o lado racional se põe a pensar se o que ele merece é mesmo um castigo ou um tratamento. A frase da mãe ao final: “isso não vai trazer nossas crianças de volta” faz-nos questionar ainda mais o lado passional.  Complicado dar uma resposta simples para qualquer lado sem peso na consciência, escutar a paixão, ou a razão fria, abstrata e desencarnada? Eis a arapuca.

Meu amigo Pola, que me ajudou com está análise, classificou este filme como o demoníaco germe dos direitos humanos; aí vemos, diz ele, as premissas que conduziram a ideia do bandido como vítima da sociedade, a vitimização do vilão. Outros aspectos por ele mencionado é o fato do diretor colocar na boca da máfia o argumento correto: "sendo doente ou não, não se pode deixar livre um monstro como aquele, é um perigo para a socidede". Já os especialistas técnicos os quais consultei (e que o leitor pode encontrar no vídeo logo abaixo) elogiam a ousadia artística do diretor, e observam aí o germe do gênero conhecido com “film noir”, conhecido por abordar as nuances e matizes de cinza da moralidade humana de um modo dramático e incômodo.



Arte ou perversidade? Respondo isso ao final, vou agora é tentar desenhar a escapatória desta arapuca. O argumento do maníaco segundo a qual é injusto punir um doente sem controle sobre seus atos é até razoável; embora questionável. Se olharmos coisa de um ponto de vista cristão, a pena de morte pode ser um ato de misericórdia para esse homem, fosse ele mesmo inocente, morto, estaria livre dos tormentos de sua doença e poderia descansar em um lugar melhor, além de dar sossego a sociedade (e este é o fundamento moral da pena de morte, a legítima defesa da sociedade contra o individuo que ameaça a toda coletividade). Poderia se objetar que não seria necessário recorrer à morte, talvez houvesse um modo de corrigi-lo, ou mesmo torna-lo inofensivo; mas daí voltaríamos ao jogo dialético entre a máfia e o advogado de defesa, e não é esse o caminho que quero tomar. A questão principal é: o argumento de M, segundo o qual ele não tem controle sobre suas ações é válido? Não ensinam as escrituras que ninguém é tentado acima de suas capacidades, assim esse homem, teria tido, mesmo que uma mínima margem de liberdade para tomar um caminho diferente. Não mostra o filme que ele não só planeja friamente suas monstruosidades, como instiga e provoca a polícia? Não temos a fala do especialista, cenas antes, afirmando ser ele um homem de grande habilidade teatral? Sendo assim, não estaria ele mentindo ao sugerir não ter controle algum sob seus atos?

Ás vezes mergulhamos tanto na narrativa que nos esquecemos do aspecto que é o mais importante: não estamos nós em uma posição privilegiada vendo os fatos concretos como ocorreram, estamos diante de uma narrativa construída pelo narrador, os fatos (premissas) são cuidadosamente organizados para dirigir a nossa conclusão. Cineastas desonestos, normalmente fazem uma complexa seleção dos fatos, com base a conduzir o leitor à conclusão desejada. Fritz Lang não fez isso, e por este motivo, vejo o filme (diferente de meu amigo Pola*) mais por seu valor artístico do que por sua ambiguidade demoníaca. O diretor não foi imparcial, ordenou a narrativa sugerindo a inocência do assassino, porém não esconde ao espectador os ''fatos" que põe em cheque a conclusão apresentada. Lang poderia desde o começo retratar o assassino como um coitado, ocultar da película a análise sobre a personalidade de M, o deleite monstruoso deste em cada nova caçada, mas não o faz. Lang é honesto, ambíguo, mas honesto. Oferece-nos a possibilidade de contestar o filme, usando argumentos do próprio filme, oferece ao espectador mais de uma chave de leitura, sem que seja preciso escapar da narrativa para a realidade, mas não oferece isso de bandeja, escondendo em meio a ordenação dos fatos. Em resumo, Lang ordena os ''fatos'', mas não os seleciona, em vista a tornar possível apenas uma única conclusão.

Pode-se objetar que é uma estética quase gnóstica: os profanos serão conduzidos ao erro (?) por uma apreciação acrítica do filme, os iniciados, se quiserem, poderão escapar da arapuca com os argumentos oferecidos pelo próprio filme. Seria lícito, “disfarçar” a verdade ao invés de explicitá-la, sob uma justificativa artística? É claro que não, dirão alguns, isto é um proceder gnóstico! Sim é possível, dirão outros, não podemos mimar o público, temos de instigá-los a pensar, dirão outros. E o leitor, o que pensa? Manifeste-se nos comentários, e ajude-nos a aprofundar o debate em prol de uma crítica de cinema competente e católica. 
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*Segundo ele, esta sutileza de Lang tornaria o filme ainda mais perigoso. Uma meia-verdade é mais sedutora e convincente que uma mentira completa.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Da Festa de “Corpus Christi“

113) Qual é a festa que se celebra na quinta-feira depois da festa Santíssima Trindade?
Na quinta-feira depois da festa da Santíssima Trindade celebra-se a solenidade do Santíssimo Sacramento, ou do Corpo de Deus: Corpus Christi.

114) Não se celebra na Quinta-feira Santa a instituição do Santíssimo Sacramento?
A Igreja celebra na Quinta-feira Santa a instituição do Santíssimo Sacramento; mas como então está ocupada principalmente em função do luto pela Paixão de Jesus Cristo, julgou conveniente instituir outra festa particular para honrar este mistério em pleno regozijo.

115) De que modo poderemos honrar o mistério que se celebra no dia de Corpus Christi?
Para honrar o mistério que se celebra no dia de Corpus Christi:
1º Devemos aproximarmo-nos com particular devoção e fervor da Sagrada Comunhão e dar graças com todo o afeto de nossa alma ao Senhor que se dignou dar-se à cada um de nós neste sacramento;
2º Devemos assistir nessa solenidade aos ofícios divinos, e particularmente ao Santo Sacrifício da Missa, e fazer frequentes visitas a Jesus, oculto sob as espécies sacramentais.

116) Por que na festa de Corpus Christi se leva solenemente a Santíssima Eucaristia em procissão?
Na festa de Corpus Christi se leva solenemente a Santíssima Eucaristia em procissão:
1º Para honrar a Humanidade de nosso Senhor;
2º Para avivar a fé e aumentar a devoção dos fiéis a este mistério;
3º Para celebrar a vitória que tem dado à sua Igreja contra todos os inimigos do Sacramento;
4º Para reparar de algum modo as injúrias que Lhe são feitas pelos inimigos da nossa Religião.

117) Como devemos assistir a procissão de Corpus Christi?
Devemos assistir a procissão de Corpus Christi:
1º Com grande recolhimento e modéstia, não olhando para um lado e para outro, nem falando sem necessidade;
2º Com intenção de honrar por meio de nossas adorações o triunfo de Jesus Cristo;
3º Pedindo-lhe humildemente perdão pelas comunhões indignas e as demais profanações que se cometem contra este divino Sacramento;
4º Com sentimentos de fé, confiança, amor e reconhecimento a Jesus Cristo, presente na hóstia consagrada.

Catecismo Maior de São Pio XInstrução - Sobre as Festas de Nosso Senhor, da Santíssima Virgem e dos Santos; Primeira Parte: Das festas de Nosso Senhor; Capítulo XIII: Da festa do Corpo de Deus.

domingo, 11 de junho de 2017

Serviço Concreto

Mais do que meros admiradores de Jesus, devemos ser seus discípulos. Por diversas vezes, já deve o leitor ter escutado em homilias e pregações sobre a necessidade de servir e obedecer ao Senhor. Ás vezes, porém, abstraímos demais as coisas, imaginamos que o serviço consiste na participação em alguma pastoral; ou, nestes tempos ideologizados, em uma luta política pelo triunfo das bandeiras da Igreja. São estas, sim, algumas formas de servir ao Senhor, formas muito dignas e meritórias, mas um tanto particulares e específicas. Em tempos de monarquia confessional, por exemplo, os fiéis leigos “comuns” não tinham nada que tratar de política, isso era coisa para reis e nobres (que bom era não? Hoje com a tal democracia temos a dor de cabeça de ter que brigar com esses infelizes que atacam os Mandamentos, a Lei de Deus e o bom senso).

Se alguns modos de serviço são específicos de determinados “onde” e “quando” ou mesmo variam conforme a vocação particular de cada um, há outras obras concretas e necessárias sempre, enquanto durar esse mundo que passa, exigidas de todos os cristãos sejam leigos ou clérigos. Essas obras serão levadas em grande conta no dia do juízo, como o próprio Cristo nos disse (Mt 25, 31-46); são elas as Obras de Misericórdia:
937) Quais são as boas obras de que se nos pedirá conta particular no dia do Juízo?
As boas obras de que se nos pedirá conta particular no dia do Juízo são as obras de misericórdia.

938) Que se entende por obra de misericórdia?
Obra de misericórdia é aquela com que se socorre o nosso próximo nas suas necessidades corporais ou espirituais.

939) Quantas são as obras de misericórdia?
As obras de misericórdia são catorze: sete corporais e sete espirituais, conforme são corporais ou espirituais as necessidades que se socorrem.

940) Quais são as obras de misericórdia corporais?
As obras de misericórdia corporais são:
1ª Dar de comer a quem tem fome;
2ª Dar de beber a quem tem sede;
3ª Vestir os nus;
4ª Dar pousada aos peregrinos;
5ª Assistir aos enfermos;
6ª Visitar os presos;
7ª Enterrar os mortos.

941) Quais são as obras de misericórdia espirituais?
As obras de misericórdia espirituais são:
1ª Dar bom conselho;
2º Ensinar os ignorantes;
3ª Corrigir os que erram;
4ª Consolar os aflitos;
5ª Perdoar as injúrias;
6ª Sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo;
7ª Rogar a Deus por vivos e defuntos.

Catecismo Maior de São Pio X; Parte V, Capítulo IV: Das obras de misericórdia.

Eis aí a indicação prática e concreta de como servir e agradar ao Senhor (além, é claro, da exigência de guardar e observar os mandamentos). Caso o leitor ainda tenha dúvidas quanto a sua vocação específica, sua função e carisma no Corpo Místico de Cristo que é a Igreja, comece pela prática destas obras; caso já tenha encontrado seu carisma, não descuide destas mesmas obras.

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Para mais indicações sobre a forma concreta de se viver e praticar tais obras, dê uma olhada nesta interessante e instrutiva série de aulas de Dom José Falcão:

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Mulher Maravilha? É melhor ir ver o filme do Pelé!

O pessoal da direita "triple A" - antipopular, antipatriótica e antitradicional - anda arrancando os cabelos e comendo esterco de colherada desde que algumas militâncias ideológicas e os aparelhos censores de alguns Estados soberanos resolveram boicotar o filme da Mulher Maravilha.

Pelo que pude apurar, uns satanizam o filme porque a atriz protagonista seria uma praticante devota e conservadora de sua religião judaica, o que é escandaloso para libertinos pós-modernos avessos a toda ideia de padrões morais fixos; e outros consideram inapropriado celebrar uma personalidade que militou voluntariamente nas forças do assim chamado Estado de Israel, agressoras habituais de populações árabes e islâmicas dentro e fora das fronteiras ora sob o poder do Governo de Ocupação Sionista da Terra Santa.

Antes de qualquer coisa, eu penso ser louvável não assistir um filme cuja heroína aparentemente é uma mulher seminua e masculinizada cujas precárias vestes são alusivas a símbolos nacionais de outro país, país esse que não é amigo do nosso e nem de nossa Igreja. O problema da moça ser tomada por um novo amuleto pop do sionismo me parece não desimportante, mas secundário para católicos que vivem fora do Oriente Médio.

Quanto aos triple-As lambe-salto que já canonizaram a sua dominatrix israelita, é o caso de que se perguntem: qual a coerência em defender a família tradicional, combater o feminismo e enaltecer uma mulher que é basicamente o elogio público da imoralidade e da subversão do papel social feminino com sua vida que combina concursos de beleza, carreira militar e filmes de mau gosto? Nem se atrevam a compará-la a Santa Joana d'Arc, mulher que a contragosto adentrou na vida militar por obediência ao chamado místico de Deus, e mesmo assim tomando sempre os maiores cuidados para defender ao máximo sua feminilidade e sua pureza virginais.

Por fim, eu parabenizo o grande patriota católico العماد ميشال عون - General Michel Aoun, presidente do Líbano, por ter defendido seus governados de mais um lixo cultural produzido em Hollywood. Aproveito ainda para instar as comunidades maronitas e libanesas em geral para apoiar entusiasticamente a medida do presidente.


#Victor Fernandes

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Um filme para gente grande

Tirem as mulheres e crianças da sala, hoje o assunto é sério. O filme que venho comentar é daquelas narrativas tão fortes e marcantes cujo qual você não será o mesmo depois de assisti-lo, isso é, se conseguir chegar até o final. Não estou falando de um desses forçados pós-apocalípticos que têm de apelar a violência narrativa para chocar o leitor, tão pouco se trata da violência visual de tantos filmes meia-boca de Hollywood, venho comentar sobre o filme: Santa Teresinha do Menino Jesus – Uma História de Fé. Como é? Todo esse drama para falar do filme de uma freirazinha, tá de brincadeira com a minha cara? Nem um pouco. Estou falando sério, e muito sério. 

Tantas vezes cultivamos ilusões de grandeza, uma vida heroica, grandes aventuras, combates; romantizamos e anestesiamos o próprio sofrimento. A morte que na vida real é um drama tão grande, se torna até mais degustável visto pelas lentes do filmes, quem não escolheria uma morte épica em batalha com a espada em mãos, em meio ao tiroteio do faroeste, e tantas outras formas “gloriosas” que parecem, ao menos nos filmes, fazer calar a dor e o sofrimento? Mas, e quando os heroísmos não são tão visíveis? Quando a batalha não envolve cenas de perseguição, sequências de espadas ou tiros alucinantes? Quando o monstro não é tão feio e assustador a ponto de alguém dar falta dele? Sim, em um mundo de ilusões, cosplayers e rpg não há nada mais assustador ao homem moderno que o prosaísmo de uma vida comum.

O filme, baseado na vida de Santa Teresinha, é um luzeiro em meio a tantas ilusões. E olha que é difícil traduzir a vida de um santo as telas de cinema; mais difícil ainda com um filme de baixo orçamento, e ainda mais se tratando de um santo aparentemente “tão comum”, mas temos uma obra que supera todos estes obstáculos e traz uma mensagem a ecoar pelas almas dos espectadores. 

O inicio é irritante. Sim, irritante, vemos a família dos Martin tão perfeita, tão amorosa e piedosa, que chega a incomodar: “então é isso, é assim uma família católica de verdade?”; e o espectador fica com uma espécie de “inveja branca” (ao menos eu fiquei), por nunca ter visto ou ouvido falar de famílias que ecoassem mesmo que imperfeitamente este modelo. A culpa é do filme que retratou de maneira demasiado romântica e irreal ou nossa que não damos a instituição família a seriedade e respeito que merece? Eu aposto na segunda opção. 

Vemos uma jovem Teresinha, tão mimada, e ao mesmo tempo tão graciosa; a atriz mostra em sua atuação a personalidade infantil da personagem, uma infantilidade mimada, irritante, mas simpática. Uma espécie de egoísmo gracioso e bonitinho, como de crianças mesmo...

O avançar do filme segue assim de pequenos em pequenos dramas: do bullying que a pobre menininha sofria na escola ao sofrimento dela e do pai com as sucessivas ausências das irmãs que se retiram para cumprir sua vocação na vida religiosa. O pai, Luís Martin (São Luís Martin) é retratado de modo tão digno, com uma verdadeira nobreza, quão surpreendente é ver esse mesmo Luís Martin, tão forte, tão digno, em uma cadeira de rodas babando ao final do filme; a mensagem simbólica desta cena, o convite a reflexão sobre o mistério da velhice, da loucura, é algo forte, muito forte.

Vemos também os grandes sacrifícios da pequena Teresinha, seus heroísmos cotidianos tão simples e invisíveis, e ao mesmo tempo tão difíceis: a paciência ao tolerar, sorrir e manter diante da insensibilidade e antipatia dos demais; a humildade em levar sobre si culpas que não são suas; até os dolorosos sofrimentos diante da doença do pai; diante de sua própria doença (tuberculose) e a noite escura que antecedeu sua morte agonizante.

É mais fácil lutar com hereges, derramar o sangue em uma guerra, aventurar-se por terras inóspitas do que tolerar esse prosaísmo cotidiano sorrindo, sem manifestar ira, raiva, violência; é a impressão que se fica... Impressão que revela uma doença de alma, uma doença da alma moderna que procura nas aventuras uma fuga, uma fuga do drama da vida humana.

Um filme simples, e um filme forte. Uma história que nos arranca de nossas ilusões e nos traz para a realidade; a realidade de nosso descaso, inépcia, de nosso desamor. Um filme para gente grande, uma pequena via que faz muitos ditos valentes correrem chorando gritando pela mãe.

sábado, 3 de junho de 2017

Artes Marciais contra o Século XXI

A guerra moderna é algo monstruoso, não que a antiga não fosse, mas em tempos de bomba atômica, drones e metralhadoras a coisa está ainda mais terrível. O tempo dos monges guerreiros a conquistar vitória contra os exércitos nacionais está enterrado no passado, e nas cabeças românticas dos tolos. Um civil hoje não tem qualquer chance contra um militar, é como uma criança frente a um leão. Bastões, espadas e lâminas viraram brinquedos ou curiosidades arqueológicas, na guerra moderna isso tudo é inútil.

A proposta original das artes marciais de preparar os indivíduos para guerra, nos tempos modernos, fracassou. Um mestre Shaolin não duraria cinco minutos em um campo de batalha no Afeganistão, por exemplo, se não tiver por apoio a estrutura de um Estado bélico por trás. O corpo é uma arma, sem dúvida, mas nada pode contra as bugigangas modernas. O fracasso samurai na Era Meiji é o símbolo icônico deste fracasso das artes marciais tradicionais ante a guerra “industrializada”. As katanas ''sagradas'' (?) foram substituídas pela pólvora profana sob o sangue da casta guerreira japonesa. Ninguém hoje, em sã consciência, treina Kendo, Kenjutsu (e as variantes da técnica da espada japonesa, ou mesmo a esgrima europeia) com o intuito de usar tais técnicas em batalhas reais, só no cinema é que a lâmina é mais rápida que a bala.

Se a função marcial perdeu-se, ao menos sua expressão artística continua; nomes como Bruce Lee, Jackie Chan, e Jet Li imortalizaram as artes marciais nas telas do cinema; não há palavras para expressar a beleza paradoxal do estilo de luta conhecido como “punho bêbado”; ou a romântica sensação do ruído das katanas em Samurai X. Sua função artística e metafórica se mantém também como “filosofia de vida”; a disciplina exigida ao treino do corpo, a agilidade e perfeição das técnicas tornam-se metáforas para as batalhas da vida pessoal e profissional; “as artes marciais mudaram minha vida” é uma frase comum de se ouvir, num tom quase que religioso.

Como esporte, porém, as artes marciais tradicionais depois de um breve período de crescimento estabilização, sofrem um declínio. Enquanto no século passado pululavam academias de Kung Fu, a expressão olímpica do Judô animava adeptos, e cada criança queria ser o próximo Karate Kid; hoje, na primeira década do século XXI o octógono vêm tomando o lugar das artes marciais tradicionais nas telas da TV e na imaginação dos adolescentes. E, a hesitação dos artistas marciais tradicionais em adaptar suas técnicas a esta nova modalidade ''brutal e desonrada'' (?), mas extremamente popular do esporte, têm contribuído para potencializar a sua queda.

Mas é, sobretudo, nas brigas de rua, o verdadeiro vale tudo, em que as artes marciais tradicionais encontram seu verdadeiro desafio. Se outrora o artista marcial era como que um escolhido em meio aos profanos leigos, hoje qualquer zé mané baladeiro têm preparo físico e técnica suficientes para dar alguma dor de cabeça. Aquele que tiver a infelicidade de se envolver em uma briga de rua não encontrará um ambiente tão dócil e simples, como fora as brigas de rua dos séculos anteriores. 

As artes marciais tradicionais estão diante de um ponto crítico, um desafio cultural a sua existência, ao menos do modo como conhecemos até o presente momento. Abidicarão elas do conceito “marcial” refugiando-se apenas como expressão artística? Conseguirá, no mundo esportivo, superar a popularidade do MMA, ou se submeterá as regras do octógono, encontrando sua expressão esportiva dentro da generalidade do UFC? Abandonará de vez as pretensões de defesa pessoal, ou mostrará a sua fluidez, adaptando-se como a água (para usar a metáfora de Bruce Lee) a nova realidade das lutas de rua? Essas, e tantas outras perguntas deveriam pairar na mente de cada artista marcial hoje, se pretendem honrar e garantir a perpetuação da herança que receberam de seus ancestrais. 

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Um Mad Max Protestante


Uma guerra nuclear transformou o planeta num verdadeiro deserto a céu aberto, sob as ruínas da antiga civilização sobrevive a humanidade oprimida por gangues de marginais e arruaceiros; lutas eletrizantes, carros tunados, e muito sangue... Não, eu não estou falando da Mad Max, mas sim de sua paródia protestante, estou falando de “O Livro de Eli”.

Em um futuro não muito distante, 30 anos após o término da última guerra. Eli (Denzel Washington) é um homem solitário, que percorre a América do Norte devastada. Ele apenas deseja paz, mas ao ser desafiado não foge à luta. Seu principal objetivo é proteger a esperança da humanidade, a qual guarda consigo há 30 anos, sendo que para tanto faz o que for preciso para sobreviver. O único que compreende seu intento é Carnegie (Gary Oldman), o autoproclamado déspota de uma cidade repleta de ladrões. Ao mesmo tempo Solara (Mila Kunis), a filha da companheira de Carnegie (Jennifer Beals), fica fascinada com Eli pela possibilidade de que ele lhe mostre o que há além dos domínios que conhece. Só que Carnegie está disposto a impedir sua cruzada, para recuperar Solara e também conseguir o valioso objeto que Eli protege.

A grande sacada dos produtores foi misturar todo esse cenário pós-apocalíptico com a temática religiosa; no filme acompanhamos a história do “profeta” (?) Eli neste mundo terrível. Eli fora escolhido pela Providência como guardião do último exemplar da Bíblia que restou no planeta, mas no meio do caminho é posto em confronto com o ambicioso Carnegie, sobrevivente do mundo antigo que busca utilizar o livro sagrado para manipular o coração dos homens (exatamente como fazem muitos pastores protestantes). Não vou contar o resto do filme para não estragar a história, mas temos ainda pela frente épicas cenas de luta, perseguição, mutilações tiros pra todo canto.

Porque digo que é um filme protestante? A começar porque Eli carrega a Bíblia do Rei James (ou seja, uma Bíblia mal traduzida e mutilada, com sete livros a menos), fosse católico estaria com a Vulgata Latina de São Jerônimo. Não apenas isso, também pelo simplismo do roteiro, para que a Fé continue a sobreviver sobre a Terra não bastaria apenas as escrituras, faz-se necessário a instituição que têm o poder de interpretá-la, e, sobretudo os Sacramentos, que não seriam possíveis sem essa mesma instituição. Em resumo teríamos de ter ao menos um bispo na história para garantir a continuidade da Igreja (prometida pelo próprio Salvador). Ah! Quão mais interessante não se tornaria a história com esses elementos? 

Mas não é só em doutrina que o filme erra. Erra porque se prende a clichês, erra porque trabalha pouco as infinitas possibilidades do cenário “pós-apocalíptico”, erra ao trazer um vilão bem meia boca. Porém, dois acertos me fazem levantar e aplaudir de pé esta obra. Primeiro o respeito ao pudor: mesmo trabalhando temas como a prostituição e o estupro, o diretor não polui o filme com cenas lascivas e incômodas. Segundo, e em minha opinião a sacada de mestre: a mistura de gêneros. Parece que tudo quanto é tipo de filme religioso só sabe ficar girando em torno das narrativas dramáticas chorosas, em O Livro de Eli temos mais que isso, temos um filme de ação incrível. 

Eis a lição do filme, uma lição básica da guerra cultural, que deveríamos ter aprendido com as Sagradas Escrituras: “o dom das línguas”; a habilidade de falar da Fé usando todas as linguagens, inclusive a dos filmes de ação.