domingo, 9 de abril de 2017

Teologia na Sarjeta

 "É preciso ascender as luzes do porão e botar para fora os ratos e morcegos."
Theodore Dalrymple escreveu seu clássico “Vida na Sarjeta” em que descreve a miséria existencial da classe suburbana da Inglaterra. Um livro desconcertante e incômodo. De igual modo seria possível escrever outra obra incômoda e desconcertante sobre os escândalos do clero nacional, uma espécie de “Teologia na Sarjeta”. É terrível como as leis da Igreja são sumamente ignoradas nessa terra brasilis, bem como a inércia do episcopado em corrigir os abusos, procurando antes abafar o caso, que usar do poder e autoridade que gozam.

A cada novo dia os escândalos da Diocese de São Miguel Paulista promovidas pelo Padre Paulo Sérgio Bezerra ganham destaque no Frates in Unum, lideranças leigas, inclusive, foram pessoalmente ter com o Bispo. Resultado? Nada...


A Teologia da Libertação, condenada sucessivamente por dois Papas continua a ser propagada e ensinada nos púlpitos e seminários. A Bíblia “edição pastoral” é amplamente usada em milhares de paróquias em todo o país sem que a Conferência Episcopal tomasse qualquer atitude a respeito.

Apesar da proibição de Bento XVI de que candidatos com tendências homossexuais ingressem nos seminários, por duas vezes, em dois diferentes estados brasileiros, ouço relatos de homens que abandonaram os estudos pelo fato de que as casas de formação sacerdotal “exalavam purpurina”.

A Liturgia, em muitos lugares, está em situação desastrosa onde tudo é permitido, desde a “Missa Afro”, passando as show-missas, apenas o rito tridentino é coibido. 

Sobre os exorcismos a situação é igualmente preocupante[1]. Enquanto bispos e padres se amigam de animistas e espíritas, seitas ocultistas pululam, o número de exorcistas é mínimo, a demonologia sequer é mencionada nos seminários, de modo que muitos padres e bispos negam a existência do demônio jogando tudo na conta de um psicologismo barato.

E os relatos de profanações do celibato sacerdotal? Padres com filhos que continuam a exercer seu ministério frente as comunidades sem sofrerem nenhuma punição. 

Sim, se me aparecesse um “Dalrymple Católico” que resolvesse cutucar esse formigueiro iria encontrar muita coisa. No século XIX tivemos São Pedro Damião[2] autor do Livro de Gomorra[3], em que com admirável valentia denunciava as mazelas do clero de seu tempo.

Quem sabe fossem as denúncias mais frequentes e barulhentas, as autoridades da Igreja deixassem de lado suas tolices ecumênico-irenistas, e passassem a ter preocupações realmente dignas de nota.

Longe de “sujar a imagem da Igreja”, este tipo de crítica (ainda felizmente encontrada na internet em sites como Frates in Unum e Adelante la Fé) prestam um grande serviço a Igreja. É preciso ascender as luzes do porão e botar para fora os ratos e morcegos. Falta ainda nesse nosso tempo, porém, homens de culhão, dentro e fora da hierarquia da Igreja, que enfrentem essas pragas domésticas pelo bem das almas.

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(Quantos sãos os leigos, bispos e clérigos que podem repetir como Serjão Berranteiro: "Aqui têm coragem!"?)

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Anseio eu pelo dia em que as dioceses serão ocupadas por homens como São Pedro Damião e São Pio X, cujo o zelo para com a casa do pai os consuma. Até lá, que os católicos deste inicio de século estão perplexos, quem poderá negar?

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[1] Pouco depois de ter escrito este texto, leio que a CNBB está a elaborar um estudo doutrinal a respeito dos exorcismos. Rezemos e aguardemos.

[2] São Pedro Damião foi um monge reformador do círculo do papa Leão IX e um cardeal que, em 1823, foi declarado um Doutor da Igreja. Leia mais em <catolicismo.com.br>

[3] Liber Gomorrhianus em latim, ou em português Livro de Gomorra, é uma obra escrita por São Pedro Damião em 1049/1050 d.C. na Itália. Escrito em forma de tratado, o livro denunciava abertamente os vícios do clero da igreja italiana, recomendando punições severas a certos membros do clero por vita spurcissima  (ou seja, pelo seu "modo de vida imundo"). 

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