segunda-feira, 17 de abril de 2017

Tá Com Pena Leva Pra Casa (?)

Tem gerado polêmica na internet uma infeliz charge[1] publicada pelo Jornal Extra. Na charge temos a imagem do crucificado e na inscrição fixada acima da cruz, ao invés do tradicional INRI (Iēsus Nazarēnus, Rēx Iūdaeōrum), a sigla TCPLPC cujo significado seria: Tá Com Pena Leva Pra Casa.

A charge seria uma crítica a um dos mais populares jargões daquilo que identifiquei como direita maria-viatura[2]. A mensagem que o cartunista quisera passar seria algo como: vocês se dizem cristãos, mas, com seu comportamento estariam condenando o próprio Cristo. Equipara-se assim na narrativa os cristãos maria-viaturas aos fariseus. Tal crítica nada têm de inédita nem de original, em "O Grande Inquisidor", Fiódor Dostoiévski cria um mundo fictício onde em sua segunda vinda Nosso Senhor Jesus Cristo seria novamente rejeitado, desta vez, queimado pela Inquisição da Igreja que fundara. Ariano Suassuna em "A Farsa da Boa Preguiça" coloca Nosso Senhor vindo a terra disfarçado de mendigo e sendo hostilizado pelos “bons cristãos” de seu tempo, criticando assim certa religiosidade de aparências. Cito também a música O Seu Nome é Jesus Cristo que segue na mesma linha.

Esse tipo de crítica encontra, de certo modo, figuras análogas no próprio Evangelho. Em São Mateus 25, 41-45 estamos diante da seguinte situação:

Voltar-se-á em seguida para os da sua esquerda e lhes dirá: - Retirai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno destinado ao demônio e aos seus anjos. Porque tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber; era peregrino e não me acolhestes; nu e não me vestistes; enfermo e na prisão e não me visitastes. Também estes lhe perguntarão: - Senhor, quando foi que te vimos com fome, com sede, peregrino, nu, enfermo, ou na prisão e não te socorremos? E ele responderá: - Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer.  

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Como vimos certa identificação entre Cristo e o pobre, o perseguido, o oprimido não é algo novo. Está presente na música, na literatura, na iconografia cristã e inclusive nas Sagradas Escrituras, não dá para dar de ombros e dizer que é coisa de comunista, teólogo da libertação. Não, está relação é parte integrante da da revelação. MAS, esse texto não termina aqui, não quero ficar em simplismos de líderes de torcidas ideológicas, aprofundemo-nos! Se é adequada certa identificação entre Cristo e o oprimido, seria adequada a identificação neste contexto concreto em que estamos? Mais especificamente, seria adequado comparar o Crucificado com aqueles contra os quais é dirigido o jargão Tá Com Pena Leva Pra Casa?  E a resposta é NÃO. Explico: embora o jargão seja proferido de modo emocional e tolo, levando a uma atitude infantil de julgar temerariamente que todo aquele que caia sob o rótulo de “bandido” seja um monstro, não levando em conta a devida prudência, tal emocionalismo é fruto de um contexto de um país extremamente violento onde há no ar uma sensação de impunidade que indigna o cidadão comum. O jargão foi construído e usado para se referir a pessoas que estariam muito longe do Inocente Crucificado, e mesmo do Bom Ladrão arrependido, se assemelhariam no mais das vezes ao terceiro personagem da cena: o mal ladrão blasfemo (De igual modo creio eu que Dostoiévski em seu juízo sobre a Inquisição não foi muito feliz, os condenados a fogueira não eram nenhum “bolinho” mas isso é discussão para outra hora). 

Compreendo a raiva dos maria viaturas diante de tal situação de impunidade, mas a razão e a religião impedem de dar lado as suas respostas emocionalistas. Compreendo igualmente a crítica do cartunista, embora pense ser esse tipo de charge em pleno Domingo de Páscoa uma provocação igualmente emocional. Quem dera ambos tentassem se compreender ao invés de incorporarem torcidas organizadas de times de futebol a repetir sua posição com o único fim de causar a maior irritação possível ao adversário ideológico como criancinhas do primário. 

Vai pagar de isentão agora então? De que lado agora você está? Deve ser o coro das torcidas ideológicas que conseguiram chegar até está parte do texto, mas creio que aqui mais do que dar a resposta pronta as crianças cabe deixar no ar, não quero eu o fim da dessa discussão, dessa treta, quero apenas que ela suba de nível e para tal estas linhas bastam. 

Inté o/

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[1] Optei por não exibir a charge neste post, caso o leitor se interesse poderá vizualizá-la e acompanhar parte das reações indignadas neste link.

[2] Direita maria-viatura: é um subgrupo dentro da comunidade neodiretista com tendências fascistóides que crê firmemente no poder redentor da violência, e na necessidade de uma ordem autoritária imposta para pôr fim ao caos. Maiores informações você encontra aqui

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