segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: Infidelidade e Castigo


(20ª Semana do Tempo Comum - Segunda-feira 21/08/2017)
Primeira Leitura (Jz 2,11-19) 
Responsório (Sl 105,34-44) 
Evangelho (Mt 19,16-22)

Há uma harmonia admirável, providencial, na liturgia de hoje. Uma mensagem de Deus tão concreta para o nosso mundo hoje que quase é possível tocá-la.

Na primeira leitura e no salmo somos colocados diante da infidelidade do povo de Israel. Abandonou Israel o Deus que os tirou do Egito, e caiu na idolatria, passou a servir os ídolos, conta o salmo que inclusive começou a sacrificar seus filhos aos demônios. Tal qual o antigo Israel, assim o fez o mundo moderno, em sua idolatria do dinheiro, da luxúria, que passa a sacrificar seus filhos em clínicas de aborto e eutanásia, no altar de Asmodeu e Mamon.

Por sua infidelidade, Israel foi entregue as mãos de seus inimigos. Por sua infidelidade o mundo moderno é entregue a mão de seus inimigos. O que é a dominação Islâmica da Europa senão o castigo pela apostasia daquele continente?

A raiz da idolatria? Nos conta o Evangelho: o amor desmedido a esta terra as suas riquezas, a seus prazeres. Recusou o jovem rico a companhia de Jesus em nome das riquezas. Despreza o homem moderno os mandamentos de Deus em nome das riquezas e dos prazeres do mundo. Em nome das riquezas, dá de ombros ao descanso dominical. Em nome das riquezas mata seus anciãos e sacrifica a vida de seus filhos. Em nome das riquezas prostitui sua Fé, vende a sua dignidade, trai a aliança para com Deus. Mesmo a heresia tem raízes no amor desmedido a esta terra. Que querem os hereges? Agradar os poderosos, receber os aplausos do mundo.

Deus, porém, suscitou em Israel juízes para pastorear o povo. Na Igreja, suscitou santos, entre eles o grande São Pio X, cuja memória hoje celebramos. São Pio X, um humilde guardador de porcos, tornou-se pároco, bispo, cardeal, papa e santo. Combateu a heresia modernista, enfrentou de peito aberto o mundo moderno maçônico. Mas, diz a escritura, que com a morte dos juízes, retornou o povo a praticar abominações ainda piores. Com a morte de São Pio X, retornaram muitos homens da Igreja ao câncer modernista, praticando abominações ainda piores... O que pressupõe que virá um castigo ainda pior, como veio para Israel.

É tempo de penitência, conversão e, combate. Combate heroico e tenaz contra a idolatria, sob o lema de São Pio X: “Restaurar todas as coisas em Cristo” .

sábado, 19 de agosto de 2017

A Simplicidade Perturbadora de Aparecida



“Maria foi exaltada acima de todos os coros dos Anjos, e acima de todos os Santos do Paraíso, como Rainha do Céu e da Terra” [1]

No contexto desse ano, na proximidade da festa da Assunção (que no Brasil foi transferida do dia 15 de agosto para o domingo próximo) lia eu o pequeno livreto (pouco mais de 40 páginas) de Fred Jorge: Aparição e Milagres – Nossa Senhora Aparecida; uma “relíquia” publicada a mais de meio século. 

Como nos ensina a escritura, Deus tem uma preferência especial pelos pobres e pequeninos, e os muitos milagres atribuídos a Virgem Negra de Aparecida ilustram de forma esplêndida tais ensinamentos. Em meio a tantas batalhas e conflitos políticos que varriam o século, quis a Virgem se manifestar a rudes pescadores, em um episódio um tanto quanto “tolo” para a consternação dos sábios do mundo. A pesca milagrosa no Paraíba, faz eco ao episódio do primeiro milagre do Messias onde, atendendo a pedido de sua Santíssima Mãe, manifestou sua divindade em meio a simplicidade provinciana de uma falta de vinho em um casamento local. Uma simplicidade perturbadora, mistério para os homens, loucura para os sábios segundo o mundo, alegria para os pobres de espírito, pois deles é o Reino dos Céus.

Na pesca da imagem, veio por primeiro o corpo, seguido da cabeça. Segundo o Pe. Paulo Ricardo, temos aí mais um sinal de Deus que bem conhece a psicologia dos povos: o corpo, o coração. O sentimental povo brasileiro será atraído ao Cristo, por intercessão de Maria, primeiro através de seus sentimentos, seguido depois pela razão, que unirá a cabeça ao corpo, fechando o caminho de conversão. Trajetória essa estranha, igualmente espantosa, espantosa ainda hoje 300 anos depois. Lia eu no jornal local o artigo de um seminarista a resmungar um “exagero mariano” de uma suposta “Mariolatria”, combatida com o Concilio Vaticano II. A devoção dos filhos a Mãe, incomodou este jovem seminarista, que repete o brado serpentino protestante. Não compreendeu ele que o Imaculado Coração de Maria aponta ao Sagrado Coração de Jesus, que toda a emoção do povo simples para com a Mãe Aparecida é o caminho seguro que os conduz aos Sacramentos, ao arrependimento na penitência, e ao diálogo íntimo com Nosso Senhor Jesus Cristo na Sagrada Comunhão.

300 anos das manifestações milagrosas de Aparecida, 100 anos das aparições de Fátima, na proximidade da Festa da Assunção, e o cenário é trágico. A terra consagrada a Virgem, Terra de Santa Cruz, foi infestada de serpentes, a pérfida heresia protestante avança sobretudo sobre os mais pobres e simples, enganando, roubando e perdendo as almas com suas falsificações de milagre. O clero, sociedade consagrada, que devia constituir as fileiras da Milícia da Imaculada, abandona covardemente o campo de batalha, e sob a desculpa do “diálogo ecumênico” entrega as almas dos pequeninos as garras da heresia, e toma parte nos ataques a Senhora. Não é apenas este jovem seminarista, mas tantos padres, bispos e cardeais tomam parte em tal empreitada. Porém, diante de tamanha escuridão as palavras da profecia continuam a ecoar: “Por fim meu Imaculado Coração Triunfará”, para o escândalo dos sábios segundo do mundo, a Mãe Rainha retomará seu a posse de seu Reino, e uma vez mais esmagará a cabeça da serpente infernal, pelas graças infinitas de seu Diviníssimo Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo. 
Ó Maria Imaculada, Senhora da Conceição Aparecida, aqui tendes prostrado diante de vossa milagrosa Imagem o Brasil que vem de novo consagrar-se a Vossa Maternal Proteção.
Escolhendo-vos por essencial padroeira e advogada da nossa pátria, nós queremos que ela seja inteiramente vossa. Vossa a sua natureza, vossas as suas riquezas, vossos os campos e as montanhas, os vales e os rios, vossa a sociedade, vossos os lares e seus habitantes, com seus corações e tudo que têm e possuem; vosso enfim, é todo Brasil.
Sim, é Senhora Aparecida, o Brasil é vosso!
Por vossa intercessão temos recebido todos os bens das mãos de Deus e todos os bens esperamos ainda e sempre, por vossa intercessão. Abençoai, pois, o Brasil que vos ama, abençoai o Brasil que vos agradece, abençoai o Brasil que é vosso.
Abençoai, ó Rainha de amor e misericórdia, abençoai, defendei, salvai o vosso Brasil!
Protegei a santa Igreja, preservai a nossa fé, defendei o Santo Padre, assisti os nossos
Bispos, santificai o Nosso Clero, socorrei as nossas famílias, amparai o nosso povo, esclarecei o nosso governo, guiai a nossa gente no caminho do céu e da felicidade.
Ó Senhora da Conceição Aparecida!
Lembrai-vos que somos e queremos ser vossos vassalos e súditos fiéis. Mas lembrai-vos também que somos e queremos ser vossos filhos. Mostrai, pois, ante o céu e a terra que sois a padroeira poderosa do Brasil e a mãe querida de todo povo brasileiro.
Sim, ó Rainha do Brasil, ó mãe de todos os brasileiros, venha sempre mais a nós o Vosso reino de amor, por Vossa mediação, venha a nossa Pátria o reino de Jesus Cristo, Vosso filho e Senhor Nosso. Amem.[2]
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[1] Catecismo Maior de São Pio X; Instrução sobre as Festas da Santíssima Virgem e dos Santos; Segunda Parte – Das Festas da Santíssima Virgem e das Festas dos Santos; Capítulo V – Da Assunção da Virgem Maria, Questão 176. Editora América, 2015.
[2] Aparição e Milagres: Nossa Senhora Aparecida - Fred Jorge, 1954, pág. 41.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Vídeo Games e Nova Ordem Mundial

Os jogos de videogame são em si um entretenimento neutro, podem ser ocasião de saudável diversão se usados a partir da virtude da temperança, mas também podem ser utilizados pelos engenheiros sociais como forma de controle de massas. Em minhas observações identifiquei três formas nas quais os videogames têm servido aos interesses dos “grandes figurões”:
1)Alienação-Distração:

Os vídeo games pode ser ocasião de alienação e distração das coisas que realmente importam. Quantos não são os que se esquecem da vida para dedicar-se exclusivamente ao “mundo virtual”? É comum ouvirmos relatos de marmanjões barbudos com mais de 30 anos, gordos e sedentários, sem emprego ou sentido na vida, que tudo o que fazem é jogar. Tal estereótipo tema de piadas e filmes, se torna cada vez mais numeroso e real.

Além disto, quantos não fecham os olhos para busca da verdade,  fazem pouco caso da luta entre o bem e o mal, a verdade e a mentira, a virtude a impiedade, para se dedicar a lutas e duelos virtuais. O instinto de luta, de conquista e aventura do homem é assim domesticado, desviado para longe daquilo que realmente importa.

2)Transmissão de Ideias Iníquas:

A ficção é um importante meio de transmissão de ideias. Toda história, filme, série e mesmo um jogo de videogame está fazendo uma pregação, transmitindo uma cosmovisão; por trás sempre há um discurso. Entretanto nem sempre estão os homens conscientes disto e, no consumo do entretenimento acabam absorvendo e aceitando facilmente ideias contrárias à seus princípios, que se expostas de forma lógico-discursiva seriam ostensivamente rejeitadas.

Lembro-me que a série de jogos Final Fantasy incrustaram em meu imaginário infantil a ideia de que existiria uma espécie de "magia boa"; o que e me levou a alguns anos perdidos nos abismos do ocultismo (dos quais graças a Deus, escapei).

Cito o caso de um outro autor, que demonstra como o jogo Final Fantasy X alimentou seu ódio contra a Igreja Católica, incentivando-o ao caminho do ateísmo:
A fé indiscutível na Igreja de Yevon mostrada em Final Fantasy X e como posteriormente ela é desmascarada como um farsa foi algo marcante para o garoto de 15 anos, vindo de uma família católica, e que se via descrente de tudo aquilo que lhe havia sido ensinado desde pequeno.
(…)
A abordagem que Final Fantasy X faz de assuntos como fé vs ciência, a evolução da sociedade e o preconceito contra aqueles que nos são diferentes continuam sendo relevantes e postas como algo que nos faz refletir… entre uma partida de Bliztball e outra. [1]
As insinuações perversas nem sempre são tão discretas, por vezes são abertamente manifestas, como no jogo Assassin’s Creed: Brotherhood, por exemplo, onde a missão do protagonista é nada menos do que assassinar o Papa, retratado como grande vilão da narrativa.


3)Controle Social:

Além disto, os videogames têm atraído a intenção dos governos totalitários como um poderoso meio de engenharia social; na China está sendo desenvolvido  o "jogo do bom cidadão", um refinado processo de programação social sob máscaras de entretenimento:



Conclusão

Os videogames podem converte-se de um entretenimento saudável numa poderosa arma de engenharia social, não são poucos os jogos instrumentalizados a este fim, o intuito deste artigo não é demonizar tal forma de entretenimento, mas exortar o jogador a usar da prudência, temperança e ser crítico quanto a que mensagem o jogo lhe está transmitindo, e a que papel o videogame ocupa em sua vida, se de mero passatempo, ou ao contrário, tem-se convertido em um ídolo.

*Artigo originalmente publicado em 20  julho de 2016 no Instituto Shibumi.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Punhos em Defesa da Fé

Beato Pier Giorgio Frassati
Todas as sociedades elegem e destacam certos modelos de comportamento a serem imitados, assim o é desde as sociedades primitivas, passando pela luminosa Idade Média, até as trevas da modernidade (como bem explica o finado professor Orlando Fedeli).

Aos cristãos, sobretudo aos católicos, Cristo é o homem perfeito, Aquele que deve ser cultuado, adorado, e também imitado. Entretanto, não raro surgem algumas dificuldades: <Como eu, pobre pecador posso imitar o Filho Unigênito de Deus?>; <Como viver o Evangelho passados mais de dois mil anos?>. A Santa Igreja, inspirada pelo Espírito Santo, desde há muito respondeu tais objeções com a veneração prestada aos santos. Que é um santo? Além de um intercessor, é um modelo, e um vitral; um modelo da vivência do Evangelho, um vitral que reflete as virtudes de Cristo e apontam com sua vida para o Senhor. 

O Beato Pier Giorgio Frassati (“Pedro Jorge” se preferir tradução rsrs) é um destes luminosos modelos que nos aponta a Cristo; sobretudo um modelo aos jovens leigos da vivência do Evangelho “no mundo”. Nascido em uma classe burguesa, de pai maçom, tinha ele tudo para ser mais um “playboy” aburguesado, escolheu, porém, caminhos diametralmente opostos ao Espírito Burguês que possuía os ambientes familiares. 

“Eucaristia e os Pobres” foram o centro da espiritualidade deste jovem leigo, que dedicava horas e horas a adoração eucarística, no serviço aos pobres, na caridade direta e calorosa, e também no ativismo político, o qual militou pelo Reinado Social de Cristo, na contramão da ideologia liberal do pai, da degeneração socialista e da praga fascista.. 

Frassati não hesitava usar até mesmo os punhos para defender sua Fé, como nos conta o Pe. João Piasentin:
Terminado o congresso de Ravenna, foi a Roma para participar do Congresso da Juventude Católica Italiana.

1 de setembro de 1921, data marcante na história da Igreja na Itália e, também na vida de Pedro Jorge Frassati.

Cinquenta mil jovens católicos de toda a Itália se reuniram na Praça de São Pedro para uma grande passeata a fim de afirmar o grande ideal: Jesus Cristo, Salvador do mundo. O governo massônico temia este tipo de manifestações públicas. O liberalismo dominante era contrário aos princípios inovadores da Igreja.

Os jovens católicos queriam afirmar com ímpeto a presença dos católicos italianos na reforma da sociedade.

Proibido o encontro no Coliseu, foi transferido para a Praça de São Pedro com Santa Missa celebrada por Monsenhor Pini. A passeata devia concluir-se no Monumento ao Soldado Desconhecido.

Pedro Jorge sentia-se feliz entre tantos jovens provenientes de toda a Itália.

Com o berrete universitário na cabeça e nas mãos a bandeira do Círculo Cesar Balbo, com a liderança que lhe era natural aconselhava: “Vede bem o que fazeis. Para combater certos sistemas não devemos ser nós os primeiros a usá-los”.

O Papa Bento XV recebeu os 50.000 jovens nos jardins do Vaticano impartindo-lhes sua bênção apostólica.

Em seguida iniciava-se a grande passeata.

Elementos perturbadores intrometem-se e se generaliza uma luta a socos e pancadaria.

Os jovens católicos procuravam defender-se mas chegaram os guardas régios batendo com armas nas costas dos jovens.

Um guarda foi acima de certo jovem franzino, Pedro Jorge interveio em sua defesa com os poderosos socos de sua juventude vigorosa.

Superando o primeiro choque, ao chegar a passeata perto de Santa Maria em Varicella as tropas, por ordem da massonaria, fizeram uma barreira que foi também superada pelo ímpeto dos 50.000 jovens.

Na Praça Argentina os esperava uma segunda barreira com cavalaria, obrigando desviar a passeata para a Rua Plebiscito, quando outros guardas régias se lançaram acima dos jovens com a ordem de tirar-lhes as bandeiras e destruí-las.

Iniciaram o assalto.

Os jovens se defendiam de todos os modos.

Lacerada a bandeira de Trento, avançaram para a bandeira do “Cesar Balbo”.

Quebrada a haste, Pedro Jorge segurou a bandeira com os dentes e com a haste defendeu-se contra 3 guardas régias que queria arrebatá-la.

No fim foram todos levados presos no jardim do Palácio Alfieri. Ele não cedeu a bandeira, símbolo do seu ideal e de sua fé.

Por ordem de chegada dos jovens, ele os acolhia com abraço fraterno agitando a bandeira em farrapos. Tranquilo e sereno encorajava os colegas apavorados.

Entre os presos havia um sacerdote com batina toda rasgada e a face ensanguentada. Continuaram os maus tratos sob os protestos dos jovens, mas os guardas continuaram a bater.

Pedro Jorge, indignado diante daquele cruel comportamento, se lançou contra um tenente.

Então houve o seguinte diálogo:

– “Qual o teu nome?”
– “Pedro Jorge Frassati”
– “Quem é teu pai?”
– “Alfredo Frassati”
– “Qual sua profissão?”
– “Embaixador da Itália em Berlim”
– “Pedimos-lhe desculpas. Pode sair já”.
– “Sairei com todos os outros”.

Jamais se aproveitara do fato de ser filho do embaixador.

Depois se ajoelhou no chão junto ao sacerdote ferido. Os outros o imitaram. Com o rosário numa mão e a bandeira na outra, disse: “Jovens, por todos nós e por aqueles que nos bateram, rezemos”.

Na parte da tarde todos foram liberados.

Várias tentativas de assalto ao grupo Pedro Jorge encontraram a resposta dos seus vigorosos músculos.

No dia seguinte, os 50.00 jovens católicos participaram na Praça de São Pedro da Santa Missa celebrada pelo Santo Padre Bento XV.

Unidos no Pão da Eucaristia, agradeceram a Deus e reafirmaram a vontade de lutar para um Itália unida na fé cristã e na promoção dos pequeninos.

Aos que perguntavam sobre o acidente respondia: “Nos trataram mal, mas respondemos com a reza do rosário”.

Não condenava a ninguém, mas manifestava alegria íntima de ter sofrido pela causa de Cristo.

Digno de nota o seguinte episódio:

Ao sair da Basílica de São Pedro, um numeroso grupo de fascista atacou os poucos jovens que serravam fileira ao redor da bandeira do “Círculo Cesar Balbo”. Pedro Jorge salvou a bandeira odiada com seus músculos fortes e rijos.

Retomado o caminho, aproximou-se um jovem franco e leal que confessou: “Vi a cena. Se quiserdes eu vos acompanharei e defenderei aqui em Roma com muita alegria. Vós mereceis. Também, eu, outrora participava de vossa fé”.

Era um jovem comunista, Pedro Jorge lhe murmurou aos ouvidos: “Há Deus, que nos defende e nos dá força. Dará também ao senhor, a graça de volta a fé. Nós rezaremos muito!”

No coração de Pedro Jorge acendeu-se mais vivamente o amor ao Papa e gritava com todo vigor: “VIVA O PAPA!”

Cansados, doloridos pelas pancadas recebidas, sem voz, voltaram para casa, porém, alegres com o sabor da vitória.

No trem, quando os jovens, tomados de cansaço, tentavam dormir, ele convidou-os: “Agora, juntos, vamos rezar as orações da noite”.

Em Turim, a quantos o elogiavam relatando o que a imprensa escrevera, respondia: “Cumprimos nosso dever. Quando Deus está conosco, nada devemos temer”.

De fato, em Pedro Jorge se manifestava a juventude ativa do catolicismo. Possuído pelo amor ao Cristo sentia-se mobilizado para a causa da redenção da classe dos obres e dos valores evangélicos para uma sociedade fraterna.

Pedro Jorge resistiu bravamente aos desequilíbrios do mundo egoísta e materialista, rejeitou firmemente as disformes configurações plasmadas por uma sociedade liberal massônica, sobrepujou valentemente as múltiplas circunstâncias levianas pelas quais tentavam entravar seu caminho retilíneo e franco de renovação evangélica e desarticulou energicamente todos os preconceitos que visavam vinculá-lo ao consórcio dos covardes. 
A leitura de sua biografia tem sido para mim uma feliz fonte de inspiração e espanto. Ao ver as admiráveis obras deste rapaz em idade próxima a minha, bem como em um tempo histórico recente; fico perturbado com minha mediocridade e animado a deixar cada ranço de “molenguisse” e covardia que ainda resta do “homem velho”. Creio eu que tal leitura terá efeitos semelhantes para com o leitor, por conta disto indico a leitura da obra “Eucaristia e os Pobres” e a devoção a este grande homem de Fé.

Beato Pier Giorgio Frassati, rogai por nós.

Nota: Existe também um filme italiano retratando a vida de Frassati: “Se Non Avessi L'Amore” (segue abaixo), porém, o diretor não foi muito feliz em traduzir a vida do beato para o cinema, a película é bem “sem graça”.

domingo, 6 de agosto de 2017

Padres, nazistas, exorcismo, beadões e parapsicologia: Vatican Kiseki Chousakan – Uma crítica católica

(No momento em que escrevo este texto a série encontra-se no seu quinto episódio, sendo que a primeira temporada irá contar com 12, e o arco introdutório foi finalizado no episódio 4, mas creio que com o que foi mostrado já é possível ter uma ideia dos rumos que o anime tomará)

O Japão não é um país cristão; herdeiro de um passado pagão foi introduzido na hipermodernidade pelo trauma nuclear. Os católicos japoneses, constituem uma pequena parcela da população com pouca influência sob a indústria cultural; daí deriva o fato de, no mais das vezes, a grande maioria dos animes serem profundamente problemáticos. Problemáticos em que sentido? Problemáticos no sentido de abusarem de roteiros gnósticos e supersticiosos, personagens impudicos, estereotipados e sexualizados, abordarem temas como sodomia, incesto, além de cenas de extrema violência gráfica (este é o menor dos problemas, mas é normalmente o mais lembrado pelas “Tias de Colégio”), problemas estes que se acentuam quando há alguma referência a Igreja nestas obras, onde se abusam de calúnias e mentiras difamatórias. É o caso de Hellsing, Chrono Crusader, Full Metal Alchemist entre outros.

Vatican Kiseki Shousakan (ou Vatican Miracle Examiner se preferir o título em inglês) foge (ou tenta fugir), surpreendentemente, deste padrão. Ao longo dos quatro primeiros episódios que constituem o primeiro arco do anime, podemos ver uma rica explicação sobre a teologia do Livro de Jó, comentários sobre a morte heroica dos mártires e até citações a respeito da Pequena Via de Santa Terezinha do Menino Jesus. Padre Hiraga e padre Roberto Niccolas são os especialistas do Vaticano encarregados de examinar alegados milagres, afim de discernir se de fato tem uma causa sobrenatural ou se constituem farsas e superstições, sendo o primeiro caso retratado uma dita gravidez virginal. Ao longo da trama, o mistério cresce: imagens que choram, estigmas e possessões demoníacas apimentam a história. Porém, no melhor estilo Scooby Doo, vão pouco a pouco sendo rastreadas as causas humanas dos supostos acontecimentos preternaturais.

Para mim, um brasileiro, nascido em um país extremamente supersticioso, superstição que por vezes ecoa até mesmo na mente de alguns clérigos, foi uma grande felicidade ver a cautela e a frieza científica dos protagonistas antes de dar o milagre como certo, buscando separar minuciosamente a verdade da mentira. Se Padre Quevedo assistisse desenho, estaria dando saltos de alegria rsrs.



A obra também tem seus problemas: usa de alguns clichês anticatólicos. Não, a obra não é anticatólica, na luta do bem contra o mal, da verdade contra a mentira, vemos a Igreja, representada pelos padres Hiraga e Roberto, do lado correto, mas, entre os vilões temos padres pedófilos e nazistas (porém, vale dizer que eram “falsos católicos”, que adoravam o demônio e praticavam espiritismo/necromancia enquanto se disfarçavam sob a batina). Japonês adora associar a Igreja Católica ao nazismo, ecoando o mito do “Papa de Hitler”, só que, não era o Vaticano que lutava ao lado do Eixo na Segunda Guerra, mas sim os amarelos de olhos puxados, enquanto isso o Papa Pio XII, fundamentado na teologia de Santo Tomás de Aquino, conspirava o assassinato de Hitler e acolhia judeus no Vaticano; ao invés de projetar suas culpas na Igreja, deviam os japoneses fazer sua própria mea culpa.

Outro problema da obra: insinuações Yaoi. Que raios é isso? Yaoi é um mangá de beadões. Japonês e sobretudo japoneizinhas pevertidas criaram subgêneros romântico-sodomitas, Yaoi seria entre beadagem e Yuri sapatices. O anime, felizmente, não possui cenas pornográficas nem romances pecaminosos, mas o traço afeminado de alguns personagens (Hiraga, Lauren) imita o estilo usado nos yaois, bem como há cenas onde os personagens mostram uma proximidade que poderia ser interpretada tanto com inocência, quanto com perversidade, uma espécie sútil de piada de duplo sentido, mas profundamente incômoda. Assim, de certo ponto de vista a blasfêmia de Hellsing se torna até mais assimilável que a suavidade de Vatican Kiseki Shousakan, se Alexander Anderson é um vilão sanguinário, psicopata e doentio, ao menos exala masculidade, diferente da dupla Hiraga-Roberto, heróis bonzinhos, “fofinhos” e afeminados.


Com seus méritos e deméritos, não creio se tratar de uma obra católica, mas tampouco de uma obra de difamação vulgar, existe muita coisa pior, sobretudo no mercado japonês.

O que pensa o leitor (manifeste-se nos comentários)? Para mim, essa sútil beadagem da série animada já se tornou incomoda o suficiente, motivo pelo qual não postarei mais os links dos demais episódios no BunKer, embora continue a acompanhar por motivos de estudo (sobre o tema das dinâmicas relações entre a Igreja e a Indústria Cultural no contexto das guerras culturais). 

Diz a sabedoria facebookiana: otaku fedido não é gente; já meu amigo Augusto defende que o entretenimento japonês não passa de “guloseimas culturais”, de modo que quem sobrecarregar a imaginação com essas coisas irá acabar doente, diabético e malnutrido. Este católico fanático arqui-tradicionalista retrógado integrista ultramontano é obrigado a concordar: o entretenimento japonês é profundamente problemático, e mesmo seus melhores achados guardam uma profunda perversão...

***

Já que mencionei o Padre Quevedo lá em cima, aproveito para divulgar o trabalho de meu amigo Mário Umetsu. No seu canal Sugestão Católica, Mário tem se esforçado por difundir o legado do Pe. Quevedo e os ensinamentos da Parapsicologia de forma extremamente didática e bem-humorada. O termo “beadagem” também foi cunhado por ele, então fica essa propaganda como um pagamento de direitos autorais rsrs.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

O Eixo Rio-Hollywood-Tóquio e as dinâmicas da Guerra Cultural

Rio de Janeiro-Hollywood-Tóquio, este é o eixo de difusão de ideias via entretenimento cujos ecos ressoam na mente do brasileiro. Vez ou outra ecoa aqui alguma coisa da “zoropa”, mas só depois de ter batido carimbo no Tio Sam.

Do Rio de Janeiro, do Projac, saem as degenerações nacionais da Rede Globo, regadas pelo substrato pseudo-intelectual das universidades brasileiras, como a USP e a UFRJ, difundindo pós-modernices que atingem as massas, de modo especial, as classes mais baixas, na forma de novelas, minisséries e programas "inteligentinhos" (estes mais ao gosto de classe média) como a dona Fátima Bernardes.

O entretenimento estadunidense (e o europeu com carimbo do Tio Sam) influi mais sobre as classes médias e altas. Chega via TV paga, cinema e Netflix. É artisticamente superior as produções nacionais, mas igualmente meio de difusão de uma filosofia antropocêntrica, pós-moderna, globalista e anti-católica. Além de gestar degenerados, o entretenimento americano causa a doença do viralatismo e dá ao consumidor uma falsa sensação de superioridade por consumir uma droga mais refinada.

Por fim, o entretenimento japonês, que atinge uma pequena parcela da população brasileira, sobretudo jovens com acesso à internet e tempo de ócio, um entretenimento igualmente problemático, mas, de natureza um tanto quanto diferente dos anteriores. Se a indústria cultural nacional e estadunidense estão comprometidas e submetidas ao projeto de poder novordista-marcusiano, o entretenimento japonês, por sua vez, é a expressão de um povo espiritualmente doente que busca na fantasia gnóstica a fuga do trauma advindo do pós-guerra.

Sob estes três pólos não têm a Igreja nenhuma influência, o que explica porque de difundirem degenerações. No caso dos dois primeiros (Rio-Holywood), temos uma estrutura abertamente hostil e inimiga da Fé e dos valores católicos, comprometida um projeto de poder que visa a destruição do cristianismo e sua assimilação em uma espiritualidade new age híbrida e sincrética. No caso do terceiro (Tóquio) temos uma terra que não foi evangelizada de forma satisfatória, que guarda as chagas de um passado pagão clássico e o parasita gnóstico-moderno em alto grau de desenvolvimento.

Poderia o leitor acusar-me de simplismo, aceito a acusação. Realmente, este esquema dos eixos culturais é demasiado simplista, mas é um simplismo com fins pedagógicos. É certo, por exemplo, que pólo norte-americano é palco de uma guerra interna entre o projeto novordista-marcusiano e um projeto nacionalista-neocon (resíduo da fase anterior da revolução); certo é também que para além das produções televisivas e cinematográficas há a influência de cada um destes pólos culturais no mundo da música, e em menor grau, por meio da indústria dos quadrinhos e livros pops; mas por agora fiquemos com o modelo inicial afim de extrairmos dele algumas consequências.

Como não há na atualidade uma "potência cultural" católica, sendo as manifestações dos filhos Igreja na cultura pop raríssimas, constituindo quase que uma subcultura, inevitavelmente o católico brasileiro será consumidor dos produtos culturais advindos destes três pólos, a menos que magicamente surja do “nada” uma nova indústria cultural católica com pretensões globais, coisa está não muito provável no curto e médio prazo. Neste cenário, o caminho para a lida do católico com a cultura pop é apenas um: não “seje” trouxa, ou em linguagem bonitinha: não seja um consumidor passivo, mas um espectador crítico. Jamais sente na frente da TV e torne-se refém do que “está passando”, da programação previamente escolhida e desenhada pelos donos de uma emissora anti-cristã; não invente de assistir uma série só porque "todo mundo está comentando", a popularidade em uma cultura pagã-mundana nunca é um guia seguro. Faça uso da crítica, e de um apurado discernimento, selecione previamente e detalhadamente o conteúdo que vai consumir, do contrário, vai assistir porcaria e ter a cabeça envenenada por degenerações.

A tudo isso junta-se mais uma dificuldade: não existe em nosso país uma crítica cultural católica. Daí, na hora de avaliar a pertinência de determinado entretenimento vai ter que acabar recorrendo a crítica pagã-mundana para formar seu juízo inicial com relação a determinada obra.

Sim, a coisa é feia, e do ponto de vista da guerra cultural estamos anos atrasados. Mas choramingar não adianta; já passou da hora de abandonar a passividade e ingenuidade infantil e encarar as coisas como são. A vitória no campo político-institucional depende antes de uma vitória hegemônica do campo cultural, e neste front, nós filhos da Igreja estamos perdendo de lavada.

sábado, 29 de julho de 2017

Vatican Kiseki Chousakan/Vatican Miracle Examiner (S01-EP04)


Com o quarto episódio chega ao fim o primeiro arco de Vatican Kiseki Chousakan. O roteiro toma caminhos um tanto quanto mais amalucados, mas termina de maneira que classifico como positiva, mostrando, afinal, não se tratar de uma obra anticatólica (embora use alguns clichês problemáticos). 

Deixo o link do quarto episódio em espanhol, e logo que sair a versão em português, incorporarei o player na postagem.

Vatican Miracle Examiner (S01-EP04)

Logo, também, pretendo trazer ao leitor uma análise mais detalhada sobre os pontos positivos e negativos do anime, sob um ponto de vista católico, a partir do que foi possível observar neste primeiro arco.

terça-feira, 25 de julho de 2017

A interpretação do Concílio Vaticano II e a sua relação com a crise atual da Igreja

A situação atual da inaudita crise da Igreja é comparável com aquela geral no século IV, onde o arianismo contaminou a esmagadora maioria do episcopado e foi reinante na vida da Igreja. Devemos procurar ver esta situação atual, por um lado, com realismo e, por outro, com o espírito sobrenatural, com um profundo amor para com a Igreja, que é nossa mãe, e que está sofrendo a paixão de Cristo por meio dessa tremenda e geral confusão doutrinal, litúrgica e pastoral.

Devemos renovar a nossa Fé de que a Igreja está nas mãos seguras de Cristo e que Ele sempre intervirá para renová-la nos momentos em que a barca da Igreja parece naufragar, como é o caso óbvio em nossos dias.
Quanto à atitude diante do Concílio Vaticano II, devemos evitar os dois extremos: uma rejeição completa (como o fazem os sedevacantistas e uma parte da FSSPX) ou uma “infalibilização” de tudo o que o Concílio falou.

O Concílio Vaticano II foi uma legítima assembleia presidida pelos Papas e devemos manter para com este concílio uma atitude de respeito. Contudo, isso não significa que não podemos exprimir dúvidas bem argumentadas e respeitosas propostas de melhoria, apoiando-se na Tradição integral da Igreja e no Magistério constante.

Pronunciamentos doutrinais tradicionais e constantes do Magistério durante um plurissecular período têm a precedência e constituem um critério de verificação acerca da exatidão de pronunciamentos magisteriais posteriores. Os pronunciamentos novos do Magistério devem, em si, ser mais exatos e mais claros, nunca, porém, ambíguos e aparentemente contrastantes com anteriores pronunciamentos constantes magisteriais.

Aqueles pronunciamentos do Vaticano II que são ambíguos devem ser lidos e interpretados segundo os pronunciamentos da inteira Tradição e do Magistério constante da Igreja.

Na dúvida, os pronunciamentos do Magistério constante (os concílios anteriores e os documentos de Papas, cujo conteúdo demonstrava ser uma tradição segura e repetida durante séculos no mesmo sentido) prevalecem sobre aqueles pronunciamentos objetivamente ambíguos ou novos do Concílio Vaticano II, os quais, objetivamente, dificilmente concordam com específicos pronunciamentos do Magistério anterior e constante (por exemplo, o dever do Estado de venerar publicamente Cristo, Rei de todas as sociedades humanas; o verdadeiro sentido da colegialidade episcopal frente ao primado petrino e ao governo universal da Igreja; a nocividade de todas as religiões não-católicas e o perigo que elas constituem para a salvação eternas das almas).

O Vaticano II deve ser visto e aceito tal como ele quis ser e como realmente foi: um concílio primeiramente pastoral, isto é, um concílio que não teve a intenção de propor doutrinas novas ou propô-las numa forma definitiva. Na maioria dos seus pronunciamentos, o Concílio confirmou a doutrina tradicional e constante da Igreja.

Alguns dos novos pronunciamentos do Vaticano II (por exemplo, colegialidade, liberdade religiosa, diálogo ecuménico e inter-religioso, atitude para com o mundo) não são definitivos e por eles, aparentemente ou em realidade, não concordarem com os pronunciamentos tradicionais e constantes do Magistério, devem ser ainda completados com explicações mais exatas e com suplementos mais precisos de caráter doutrinal. Uma aplicação cega do princípio da “hermenêutica da continuidade” também não ajuda, pois se criam com isso interpretações forçadas, que não convencem e que não ajudam para chegar ao conhecimento mais claro das verdades imutáveis da Fé Católica e da sua aplicação concreta.

Houve casos na história onde expressões não definitivas de alguns concílios foram, mais tarde, graças a um debate teológico sereno, precisadas ou tacitamente corrigidas (por exemplo, os pronunciamentos do Concílio de Florença acerca da matéria do sacramento da ordenação, isto é, que a matéria fosse a entrega dos instrumentos, mas a tradição mais segura e constante dizia que era suficiente a imposição das mãos do bispo, o que Pio XII em 1947 confirmou). Se depois do concílio de Florença os teólogos tivessem aplicado cegamente o princípio da “hermenêutica da continuidade” a este pronunciamento específico do concílio de Florença (um pronunciamento objetivamente errôneo), defendendo a tese que a entrega dos instrumentos como matéria do sacramento da ordem fosse uma expressão do Magistério constante da Igreja, provavelmente não se teria chegado ao consenso geral dos teólogos sobre a verdade que diz que somente a imposição das mãos do bispo constituiria propriamente a matéria do sacramento da ordem.

Deve-se criar na Igreja um clima sereno de discussão doutrinal acerca daqueles pronunciamentos do Vaticano II que são ambíguos ou que criaram interpretações errôneas. Não há nada de escandaloso nisso, pelo contrário, será uma contribuiçao para guardar e explicar na maneira mais segura e integral o depósito da Fé imutável da Igreja.

Não se deve destacar demais um determinado concílio, absolutizando-o ou equiparando-o de fato, à Palavra de Deus oral (Tradição Sagrada) ou escrita (Sagrada Escritura). O Vaticano II mesmo disse, justamente (cf. Dei Verbum, 10), que o Magistério (Papas, Concílios, magistério ordinário e universal) não estão acima da Palavra de Deus, mas sob ela, submisso a ela, e somente ministro dela (da Palavra de Deus oral = Sagrada Tradição e da Palavra de Deus escrita = Sagrada Escritura).

Do ponto de vista objetivo, os pronunciamentos do Magistério (Papas e concílios) de caráter definitivo têm mais valor e mais peso frente aos pronunciamentos de caráter pastoral, os quais são, por natureza, mutáveis e temporários, dependentes de circunstâncias históricas ou respondendo às situações pastorais de um determinado tempo, como é o caso da maior parte dos pronunciamentos do Vaticano II.

O próprio contributo valioso e original do Concílio Vaticano II consiste no chamado universal de todos os membros da Igreja à santidade (cap. 5 da Lumen gentium), na doutrina sobre o papel central de Nossa Senhora na vida da Igreja (cap. 8 da Lumen gentium), na importância dos fiéis leigos em conservarem, defenderem e promoverem a Fé Católica e que eles devem evangelizar e santificar as realidades temporárias segundo o perene sentido da Igreja (cap. 4 da Lumen gentium), no primado da adoração de Deus na vida da Igreja e na celebração da liturgia (Sacrosanctum Concilium, nn. 2; 5-10). O resto se podia até um certo ponto considerar secundário, temporário e talvez no futuro mesmo esquecível, como foi o caso com os pronunciamentos não definitivos, pastorais e disciplinais de diversos concílios ecumênicos no passado.

Os quatro assuntos seguintes: Nossa Senhora, santificação da vida pessoal, defesa da Fé com a santificação do mundo segundo o espírito perene da Igreja e o primado da adoração de Deus são os tópicos mais urgentes a serem vividos e aplicados hoje em dia. Nisso, o Vaticano II tem um papel profético, o que, infelizmente, não está ainda realizado de modo satisfatório. Em vez de viver e de aplicar estes quatro aspectos, uma considerável parte da “nomenklatura” teológica e administrativa na vida da Igreja, há meio século, promoveu e está ainda promovendo assuntos doutrinários, pastorais e litúrgicos ambíguos, deturpando, assim, a intenção originária do Concílio ou abusando dos seus pronunciamentos doutrinários menos claros ou ambíguos a fim de criar uma outra Igreja de tipo relativista ou protestante. Estamos vivenciando o auge desse desenvolvimento em nossos dias.

O problema da atual crise da Igreja consiste, em parte, no fato de que se infalibizaram aqueles pronunciamentos do Vaticano II que são objetivamente ambíguos, ou aqueles poucos pronunciamentos dificilmente concordantes com a tradição magisterial constante da Igreja. Dessa forma, impediu-se um sadio debate e uma necessária correção, implícita ou tácita, dando, ao mesmo tempo, o incentivo para criar afirmações teológicas contrastantes com a tradição perene (por exemplo, no que diz respeito à nova teoria de um assim chamado duplo sujeito ordinário supremo do governo da Igreja, ou seja, o Papa sozinho e todo o colégio episcopal junto com o Papa; ou a doutrina da assim chamada neutralidade do Estado frente ao culto público que ele deve prestar ao Deus verdadeiro, que é Jesus Cristo, Rei também de cada sociedade humana e política; a relativização da verdade que a Igreja Católica é o único caminho da salvação querido e ordenado por Deus).

Devemos nos libertar das algemas da absolutização e da infalibilização total do Vaticano II e pedir que haja um clima de debate sereno e respeitoso, por amor sincero à Igreja e à sua Fé imutável.

Uma indicação positiva nesse sentido podemos ver no fato de que, em 2 de agosto 2012, o Papa Bento XVI escreveu um prefácio ao volume relativo ao Concílio Vaticano II na edição da sua Opera omnia. Neste prefácio, Bento XVI exprime suas reservas quanto a um conteúdo específico dos documentos Gaudium et spes e Nostra aetate. Do teor dessas palavras de Bento XVI se vê que alguns defeitos pontuais em algumas passagens do Vaticano II não são remediáveis pela “hermenêutica da continuidade”.

Uma Fraternidade Sacerdotal de São Pio X canônica e plenamente integrada na vida da Igreja poderia também dar um válido contributo nesse debate, como também o desejou o Arcebispo Marcel Lefebvre. A presença plenamente canônica da FSSPX na vida da Igreja de hoje poderia também ajudar a criar um tal clima geral de um debate construtivo na Igreja, para que aquilo que foi crido sempre, em toda a parte e por todos os católicos durante dois mil anos, seja crido mais clara e de modo mais seguro também em nossos dias, realizando, assim, a verdadeira intenção pastoral dos Padres do Concílio Vaticano II.

A autêntica intenção pastoral visa a salvação eterna das almas, a qual se dá somente pelo anúncio de toda a vontade Divina (cf. At 20, 7). Uma ambiguidade na doutrina da fé e na sua aplicação concreta (na liturgia e na pastoral) ameaçaria a salvação eterna das almas e seria, por conseguinte, anti-pastoral, já que o anúncio da clareza e da integridade da Fé Católica e da sua fiel aplicação concreta é vontade explícita de Deus. Somente a obediência perfeita a esta vontade de Deus que, por Cristo, o Verbo Encarnado, e pelos Apóstolos nos revelou a verdadeira Fé, a Fé interpretada e praticada constantemente no mesmo sentido pelo Magistério da Igreja, traz a salvação das almas.


+ Dom Athanasius Schneider,
Bispo auxiliar da arquidiocese de Maria Santíssima em Astana, Cazaquistão

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Notas sobre a Tradição

Uma das características da modernidade é a sua ruptura e rejeição as tradições, abandona-se o caminho seguro, a experiência acumulada das gerações em prol das “modas”; atitude terrível que amputa o homem de seu passado pondo em risco o seu futuro, um desastre para as nações, um desastre para as famílias, um desastre para os indivíduos. 

Tal qual a árvore que finca raízes cada vez mais profundas ao solo a fim de que dele retire os nutrientes os quais, na magnífica dinâmica interna da criação (que a ciência explica e descreve, mas, por vezes, esquece-se de contemplar), serão combinados e transformados para crescimento e perpetuação da planta, assim devem as nações retirar das profundezas do passado os elementos para edificação de seu presente e constituição de seu futuro. Se, por outro lado, a árvore não fincar raízes profundas, mas restringe-se a superfície, como fazem as sociedades que abandonam suas tradições, tornar-se-á fraca e débil; indefesa frente a violência dos ventos.

Tendo isto em vista, trago aos leitores do BunKer, após esta breve introdução, um artigo da Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, de autoria do meu grande amigo Victor Emanuel Barbuy, neto do grande filósofo Heraldo Barbuy, também ele, tal qual o avô, um homem católico, herdeiro das antigas tradições, arauto do Brasil Profundo. Sob essas notas, que visam clarificar o conceito de Tradição (não confundir com “Tradição Apostólica” ou "Sagrada Tradição”, que dizem respeito à Igreja universal), entendida no contexto das tradições nacionais de um povo; está assentada parte importante da “filosofia” deste BunKer, que visa apresentar uma linha de ação católica no front da guerra cultural; sendo o desbravar e o redescobrir as primevas tradições luso-brasileiras também um modo de resgate da herança católica desta Terra de Santa Cruz.

~Edmundo_Noir

***

Notas sobre a Tradição
Victor Emanuel Vilela Barbuy[i]

sábado, 22 de julho de 2017

Vatican Kiseki Chousakan/Vatican Miracle Examiner (S01-EP03)



Saiu o terceiro episódio de Vatican Kiseki Chousakan. Ainda não tive tempo de assistir, logo que o fizer edito a postagem adicionando meus comentários a respeito como de costume.

Vatican Kiseki Chousakan

domingo, 16 de julho de 2017

Que tipo de educação?



”Vou investir em educação”

”Lugar de criança é na escola’’

”Escola em tempo integral”

São alguns dos mantras repetidos pelos políticos em época eleitoral…Escola, escola, escola, educação, educação, educação. Mas que escola?Que educação?

Quando mais jovem a escola para mim foi uma longa e entediante perca de tempo.

As aulas de História eram divertidas, o professor um piadista nato. Mas, e a história que aprendi?Simplesmente falsa: aprendi que a Igreja matou ”milhões na inquisição” e que Salazar era uma versão portuguesa do nazismo. Aprendi que Cuba era um paraíso na Terra, e que o mundo não era outra coisa se não uma eterna luta entre opressores e oprimidos, o mesmo roteiro em cenários diferentes…

Nas aulas (terrivelmente tediosas) de Gramática devia decorar uma lista incansável de regrinhas.
Para que isso? – perguntei certa feita a professora.
Para passar no vestibular... – me respondia.

As aulas de Matemática Aplicada não podiam estar mais longe da aplicação, aprendia fórmulas e complexos raciocínios , mas nenhuma indicação de como aplicá-lo em situações cotidianas.

E o que dizer então das aulas de Química, e Física?Totalmente voltadas ao tal do ”Vestibular”, com suas musiquetas e trocadilhos idiotas a fim de decorar fórmulas cujo o sentido do uso não compreendia.

As únicas aulas que escapavam desta lógica: Artes e Educação Física. Mas eram como fosse um segundo recreio: a professora de Artes nos dava algumas folhas e tintas para rabiscarmos; já o professor de Educação Física dava uma bola para jogarmos futebol, e sumia. 

Nenhuma destas, porém, foram piores que minhas aulas de Inglês, lá era eu induzido a decoreba de mil regrinhas a respeito do uso de verbos que não sabia o significado para frases que minha velha professora traduzia de má vontade. E assim foi, que depois de 7 anos desta disciplina ainda sou incapaz de ler um texto na língua anglo-saxônica sem recorrer ao Google Tradutor.

BAMMMMMM! O sinal batia, e finalmente podia eu ir pra casa.

E assim foi ano após ano, sendo eu obrigado dia após dia à frequentar aulas e mais aulas da escola, sem que meus professores me desse quaisquer respostas do porque de eu estar ali, se não para o tal do vestibular.

Educação, educação, educação. Escola, escola, escola.

Ao menos no que se propôs, funcionou, serviu para me fazer ”passar no vestibular”, nos dois que prestei passei em uma boa colocação sem dificuldade, mas perdi tanto tempo para tão pouco...E a vida acadêmica na faculdade não é lá grande coisa, mas isso é assunto para outra hora.

Ah, se me tivesse sido ensinada a verdadeira História! Ah se me tivesse sido ensinado colocar em prática os raciocínios abstratos da Química, da Física e da Matemática! Ah, se a professora de Gramática tivesse dito sobre a importância da língua na compreensão e desenvolvimento do horizonte mental do individuo! Ah, se meu professor de Educação Física tivesse me mostrado outro esporte que não o futebol!

Aqui estou eu, depois de anos dessa tal educação, procurando me virar, limpar a mente das mentiras e cacoetes ensinados, e a procura de aprender aquilo de importante que não aprendi… Buscando a verdadeira história, aplicando à vida concreta as abstrações, treinando o corpo na disciplina de um esporte que me agrada.

Quem dera no passado eu não tivesse sido um bom aluno… Sim, isso mesmo. Quem sabe se eu fosse da turminha do ”fundão”, da zoeira, não teria eu tanto trabalho hoje para limpar a mente das porcarias aprendidas no ontem, com a tal ”educação”.

Quanto tempo perdido, quantos anos ali sentados naquela carteira só para cumprir uma exigência curricular, só para passar numa provinha de múltipla escolha ao final da jornada… E hoje falam em escolas de tempo integral! Penso nas pobres crianças….

Acaso venha eu a ter filhos e fossem eles obrigados a frequentar tais instituições lhes daria o seguinte conselho:
-Não deixe que a escola mate seu desejo de conhecimento meu filho! Se dedique o suficiente para sair daí com o ”papel” o mais rápido possível, e ter tempo de sobra para estudar de verdade.

Educação!Educação! Escola! Escola! -gritam os políticos.
-Que tipo de educação? -pergunto eu, a multidão se aquieta, e não sobra nada além do velho sorrisinho cínico, a contemplar a própria mentira enunciada. O mesmo sorriso de meus velhos professores, o sorriso de alguém que não acredita na real utilidade daquilo que diz.

sábado, 15 de julho de 2017

Vatican Kiseki Chousakan/Vatican Miracle Examiner (S01-EP02)


Saiu o segundo episódio de Vatican Kiseki Chousakan/Vatican Miracle Examiner. A narrativa ganha contornos ainda mais tensos e interessantes, mesmo assim ainda é difícil julgar a "catolicidade" do anime pelos dados até agora apresentados...

(Vale mencionar: o tradutor não parece ser muito católico; o "São Rosário" na legenda foi difícil de engolir rsrs.)

  Vatican Miracle Examiner (S01-EP02)

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Cardeal Sarah quer “reconciliação litúrgica” das formas antiga e nova da missa

Robert Sarah, cardeal guineense, quer ver um fim às batalhas entre os apoiadores da forma extraordinária da liturgia e aqueles que são a favor da celebração ordinária da missa, forma desenvolvida após o Concílio Vaticano II.

Por decisão de Bento XVI, com a publicação do documento Summorum Pontificum dez anos atrás, houve uma suspensão das restrições em celebrar a liturgia pré-conciliar, autorizando um uso ampliado do antigo rito. Nesta versão, a missa é conduzida por um padre proferindo as orações em latim, as quais são, em sua maioria, inaudíveis e de costas ao povo, ou seja, com o sacerdote de frente para o oriente, postura conhecida como ad orientem. Os devotos desta forma da missa a elogiam por seu mistério transcendental e a têm como uma via à contemplação.

Os críticos dizem, porém, que a decisão de Bento XVI foi um movimento que acabou gerando divisão, pondo em dúvida as reformas do Concílio de 1962 a 1965: este permitiu que a missa fosse celebrada nas línguas vernáculas e com uma ênfase na “participação ativa” do povo. A “forma ordinária” reformada da liturgia é aquela celebrada na grande maioria das paróquias ao redor do mundo.

Em artigo à revista francesa La Nef para marcar os dez anos desde a publicação de Summorum Pontificum, Sarah agora quer reconciliar os ritos com um novo calendário compartilhado para quando se celebrarem dias santos, garantindo que ambas as formas da missa usem as mesmas leituras bíblicas ao mesmo tempo. Sob o comando de Bento XVI, uma comissão trabalhou, por muitos anos, nesse sentido, mas sem sucesso.

Esse movimento do prelado guineense é, por um lado, um movimento conciliatório, visto que ele tem amplamente promovido os desejos dos tradicionalistas desde que assumiu a presidência da Congregação para o Culto Divino.

No artigo, o religioso pede um fim à frase “reforma da reforma”, ideia levantada pelos que querem que a forma ordinária da missa seja mais parecida com o rito antigo.

“‘Reforma da reforma’ se tornou sinônimo de domínio de um clã sobre o outro”, escreve ele em francês. “Esta expressão pode então se tornar inadequada, portanto prefiro falar de reconciliação litúrgica. Na Igreja, o cristão não tem opositor!”.

No ano passado, durante uma palestra em Londres, o cardeal disse que “não podemos descartar a possibilidade ou o desejo de uma reforma oficial da reforma litúrgica”, e fez um apelo aos padres para que começassem a rezar a missa ad orientem. Mas, logo depois, ele se encontrou com o papa que, segundo nota divulgada pelo Vaticano, disse ao cardeal que nenhuma orientação nesse sentido deveria ser dada, ao mesmo tempo em que o porta-voz da Santa Sé falou que a frase “reforma da reforma” deveria ser evitada.

Porém, no mesmo momento em que pede reconciliação, o cardeal também quer que a versão ordinária da missa assuma elementos da versão extraordinária, adotando um maior uso do latim e tendo os padres a rezarem determinadas orações em silêncio. Em abril deste ano, Sarah denunciou o “desastre, a devastação e o cisma que os promotores modernos de uma liturgia viva causaram” e disse que a Igreja, depois do Concílio Vaticano II, abandonara as suas “raízes cristãs”.

No artigo publicado em Le Nef, o prelado ainda propõe que a forma mais recente da liturgia adote o seguinte: a comunhão seja recebida de joelhos e sobre a língua, a inclusão de “Orações ao Pé do Altar”, que acontecem no antigo rito, e que o sacerdote se certifique de que, após consagrar a hóstia, os dedos que a tocaram permaneçam unidos.
O cardeal afirma que os que usam o antigo rito da missa para pôr em dúvida oVaticano II estão “gravemente em erro”, mas também escreve que as reformas conciliares não “contradizem” aquela que veio antes.

“Seria, pois, um erro considerar as duas formas diferentes de liturgia como se mostrassem duas teologias opostas”, explica o religioso.

“É uma prioridade que, com a ajuda do Espírito Santo, possamos examinar, via oração e estudo, como voltar a um rito reformado comum sempre com o objetivo de uma reconciliação dentro da Igreja. Por enquanto, ainda há violência, desprezo e uma oposição prejudicial que destrói a Igreja e nos afasta ainda mais da unidade pela qual Jesus orou e morreu na Cruz”, escreve o cardeal.

Aos apoiadores do rito, o religioso enfatiza que a liturgia não é um “objeto de museu”, mas, diferentemente, pode ser “frutífero aos cristãos de hoje”. Sarah também sustenta ser essencial que os fiéis que frequentam as missas na forma extraordinária tenham uma forma de “participação ativa” na liturgia, e que as leituras bíblicas – que geralmente são lidas em latim – sejam compreendidas pelas pessoas nos bancos da igreja.

Quando se trata da liturgia mais recente, o prelado quer que os padres assumam um papel menos proeminente e quer uma cruz grande sobre o altar, que possa ser vista por todos e, dessa forma, se torne “um ponto de referência a toda a congregação reunida”.

Fonte: The Tablet
Tradução: IHU Unisinos

A Complexidade Psicologico-Simbólica de Digimon

Se tem uma coisa que não canso de repetir é o fato de que a ficção se trata de um poderoso meio de transmissão de idéias, e que todos os produtos da cultura pop têm, por trás de si, uma multidão de conceitos e filosofias que podem contribuir para edificação ou degeneração do homem. Sobretudo no entretenimento infantil essa realidade ganha tons ainda mais graves uma vez que a criança não dispõe ainda de um correto discernimento para lidar com os aspectos "venenosos" de certas obras da moderna indústria cultural. Deste modo, caberia a pais responsáveis selecionar cuidadosamente o entretenimento consumido por seus filhos, principalmente durante sua primeira década de vida. Um desenho infantil nunca é mero entretenimento. É um compêndio simbólico de ensinamentos dirigido a crianças.

Afim de ilustrar toda a complexidade de uma simples narrativa ficcional infantil, trago hoje ao leitor uma breve análise da obra Digimon, tanto do ponto de vista simbólico (apresentado no vídeo), quanto do ponto de vista psicológico (como é destacado no texto).

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(...) O mundo real em Digimon, é bem próximo da realidade. É extremamente conflituoso e problemático:

*Takeru e Yamato são irmãos separados pelo divórcio dos pais, o que faz de Takeru, uma criança insegura e assustada e de Yamato um irmão superprotetor, cheio de ciúmes (foram criados um pelo pai e outro pela mãe, apesar de eles se encontrarem uma vez lá, não tinham até então um laço como irmãos, descobriram isso durante a série!). (...)

*Sora tem uma relação difícil com sua mãe, que lhe parece distante e fria. Motivo? A mãe de Sora desejava que a sua filha se tornasse uma pessoa moldada por ela mesma: sem gostos, sem opiniões! Ocorre que Sora era uma menina diferente das demais! (...) Por conta dessa insegurança e de como a sua mãe a tratava, Sora pensava que sua mãe não a amava e, por conta disso, ela também não amava a sua mãe, então ela que não amava ninguém, não poderia ter como valor, o brasão do “amor”, ao final de adventure, ela descobre o significado da palavra amor!

*Koushiro (Izzy) descobre que foi adotado e tanto ele como seus pais sofrem com o segredo que envolve o fato. Durante toda a série, ele não sabe como chegar aos pais e dizer que em um determinado dia, ele escutou uma conversa entre ambos e sabe que é uma criança adotada, e os pais não sabem como chegar a ele e contar que ele é um filho adotado. Koushiro descobre que ele tem a “SABEDORIA” como virtude, e que ele pode fazer uso dela pra que ele vença seus próprios medos, e que façam assim ele evoluir como ser humano. No final de Digimon Adventure, ele consegue ter a conversa com seus pais, e dizer a eles, que ele os ama acima de qualquer coisa! (...)

*Jou (Joe) é um CDF compulsivo, inseguro e assombrado pelas expectativas de seus pais em relação ao seu sucesso na vida. A escolha da problema de Jou é uma tragédia, que já se tornou muito comum no Japão: jovens que se matam por serem inseguros, e terem medo de não atingir as expectativas que seus pais esperavam. (...)

*Mimi é fútil e egoísta. Isso ocorre em casos que os pais são super protetores (...) A Mimi em Digimon é bem retratada, assim como seus pais; acho que ela é a que mais sofre quando tem a prova de fogo de conseguir sobreviver em um mundo estranho, onde não pode contar com o apoio de ninguém bajulando e realizando suas vontades. (...)

*Taichi parece ser o mais estável do grupo, mas seus pontos fracos são sua irmã mais nova, de saúde frágil e ar triste, e seu sentimento de culpa por não poder protegê-la sempre. (....)

No Mundo Digital, ao serem forçados a formar um grupo, as crianças não conseguem, a princípio, vencer sua insegurança e seus problemas pessoais. O conflito é permanente e declarado, inclusive com violência física, como entre Taichi e Yamato. A eliminação dos conflitos é lenta e dolorosa, e apenas ao final da primeira parte da série, no último episódio, praticamente, eles conseguem a confiança que vem do auto-conhecimento e da certeza de que têm entes queridos que os apoiam.

Os conflitos não se restringem às oito crianças principais: os adultos também sofrem as mesmas angústias das crianças, não conseguem organizar suas vidas adequadamente. E também os digimons têm dúvidas e sofrimentos, anseios e preocupações que os levam a lutas, à fuga ou a uma existência de medo e incerteza. [1]
***

Além do já mencionado, note o leitor a recorrência da mesma estrutura narrativa em que chamei atenção em minha crítica sobre o filme Alice no País das Maravilhas: protagonistas com problemas e dificuldades no mundo real que escapam para o mundo das fadas (no caso aqui, o Digimundo), um mundo de fantasia, onde aprendem a desenvolver as virtudes necessárias para bem viver sua vida cotidiana. Este tipo de estrutura é bem comum no entretenimento infantil, o jogo Final Fantasy Tactics Advanced se destaca por aprofundar um pouco mais na temática:

(...) Em se tratando de jogos com esse tema, temos o Final Fantasy Tactics Advanced, onde no jogo o "Final Fantasy" é visto como um jogo e a historia se passa no mundo real.

Mesmo o jogo sendo um pouco infantil, ele até consegue debater bem sobre esse tema. Mas mostrando varias perspectivas. Temos o nosso herói Marche onde ele e seus dois amigos tem sérios problemas em sua realidade. Enquanto um tem problemas pessoais, o outro teve a mãe que morreu e seu pai que não conseguiu seguir adiante depois da tragédia, deixando o garoto que já tinha problemas ainda mais recluso.

Um dia, os três vão para outro mundo. O protagonista pretende voltar ao mundo real, mas para isso ele tem que destruir cristais que vão criar uma desestabilização naquele mundo, fazendo assim ele e seus amigos voltarem pra casa. Porém, diferente das histórias padrões, os seus amigos não querem voltar pra casa, muito pelo contrário eles decidem ficar nesse mundo, pelo fato de ser tudo o que eles queriam. A garota tem seu sonho realizado, o garoto recluso sem mãe e com um pai fraco, nesse mundo a mãe dele é viva e seu pai é forte e confiante. (...)[2]
Em Final Fantasy Tactics Advanced a discussão vai mais além, tocando a fundo o problema da função da fantasia. Se por um lado temos sua função pedagógica, onde o mundo das fadas é um instrumento para o crescimento nas virtudes, por outro temos seu potencial alienante, onde procura-se usá-lo como uma fuga do mundo real.

De todo o modo, voltemos a Digimon; temos tamanha complexidade psicológico-simbólica em uma simples narrativa infantil, mas, seria o imaginário infantil capaz de absorver tudo isso? Para responder esta questão consulto as reminiscencias de minha infância, creio que devia ter cerca de 8~10 anos no tempo em que me encantava com as maravilhas do digimundo na TV Globinho. Embora toda a estética simbólica do anime me causasse admiração, não era capaz de penetrar em seu significado profundo, mesmo a complexidade psicológica da narrativa passou despercebida; o que guardei na época foi certa admiração pela semelhança (?) entre o temperamento do personagem Yamato/Matt (não sei dizer ao certo se realmente tinha um temperamento e personalidades semelhantes, ou se acabei incorporando isso por mimetismo) e o meu. Vi ali a expressão de certas tendências de personalidade que possuía dentro de mim. Outra coisa que me marcou profundamente na época foi a figura de Angemon, foi ela a primeira e mais ''concreta'' referência imaginária que encontrei daquilo que seria um anjo, a partir daquele personagem é que pude compreender e imaginar a verdade católica a respeito dos anjos da guarda que aprendi em minha catequese infantil.


Conscientemente é isso que lembro-me de ter absorvido, entretanto, a simbólica de Digimon marcou-me tão fortemente, tal qual uma semente, um arquivo compactado, que senti a necessidade de na fase adulta cultivar esta semente, descompactar este arquivo, aprofundar-me no significado da narrativa, e daí veio a pesquisa que originou este artigo.

Concluindo, embora Digimon não é seja uma obra católica e, tampouco, um destes entretenimentos modernos novordistas com vistas a engenharia social; enquadrando-se numa espécie de ''conto de fadas japonês'' lotado de referências culturais, religiosas e sociológicas diversas, mais ou menos explícitas (e classifico como positiva a influência desta obra sobre o imaginário infantil), é um ilustrativo exemplo da profundidade das obras de ficção infantil, e um convite a deixar cair as escamas dos olhos tratando com realismo, seriedade e prudência a temática da fantasia ficcional e sua influência sobre o imaginário infantil.

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[1]O texto intitulado "A Filosofia de Digimon" foi parcialmente alterado nesta publicação, não em seu conteúdo mas em sua forma: ortografia, gramática, coesão, e etc. Embora tenha sido feliz nas constatações, o autor do texto original derrapou um pouco na hora de expressá-las textualmente.
[2]O texto "A filosofia dos mundos paralelos dos animes e jogos japoneses" também foi parcialmente alterado em sua forma nesta publicação.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Cinema "da Libertação" : Daens, Nomadelphia, Hélder e Dom Romero


O cinema é um precioso meio de difusão de ideias, uma arte usada com frequência pelos inimigos da Igreja, não só pelos seus inimigos externos como também por seus inimigos internos que escondem sob a batina as armas da revolução. Em nosso país a Teologia da Libertação usou e abusou dos meios cinematográficos, temos uma verdadeira indústria do filme socialista-cristão[1]: Batismo de Sangue, Dom Helder: O Santo Rebelde, O Anel de Tucum, Descalço sobre a Terra Vermelha são alguns dos títulos que infestaram a cinema nacional. Já no estrangeiro poderia citar Don Zeno - O Fundador de Nomadelphia, Daens: Um Grito de Justiça, Ya no Basta Rezar.

Sem dúvida há no mundo muitas injustiças e cabe sim a Igreja denunciar, tal qual fez o profetismo israelita. Mas, a Teologia da Libertação não fica só no profetismo bíblico e na denúncia das injustiças, passa para um milenarismo herético na tentativa de imanentizar a escatologia; o mal deixa de ser fruto do pecado e é jogado na culpa do sistema; o pecado pessoal dá lugar ao pecado estrutural; a conversão e a penitência dão lugar a Revolução. E como está claro que essa concepção não é muito católica, a Teologia da Libertação estende seu conceito de sistema à “igreja hierárquica”, comprando a narrativa protestante que associa o Catolicismo a uma artimanha do Império Romano para “domesticar” o cristianismo. 

E isto não é calúnia, os próprios expoentes da Teologia da Libertação não têm vergonha de admitir:



Além da narrativa “TL” ser algo herético e estúpido é de uma chatice e um mau gosto terrível, tanto do ponto de vista Teológico, quando do narrativo. E nessa chatice que, com raras exceções, basicamente consiste sua expressão cinematográfica. A história é sempre a mesma: um padre rebelde a combater o sistema, mas que têm em seu caminho o obstáculo da Igreja institucional; assim é em Daens: Um Grito de Justiça, onde o padre “romaninho” é sempre retratado como um covarde puxa-saco a abusar de sua autoridade espiritual para intimidar os trabalhadores a não se revoltarem contra seus patrões carrascos. No mesmo filme encontramos também o personagem Woeste, um eminente politico católico que não passa de um tirano burguês. Os malabarismos narrativos utilizados no filme são tão grandes, que da luta da Igreja pela dignidade dos trabalhadores a coisa se converte na imagem simbólica de socialistas e liberais se unirem em apoio a eleição do Padre Daens contra a “opressão do partido católico”.

Em Don Zeno - O Fundador de Nomadelphia não temos coisa muito diferente: um padre revolucionário, “amigo dos pobres”, lutando contra uma Igreja indiferente submissa aos ricos; o Papa (Pio XII) nessa história vira um príncipe apático prisioneiro do poder, uma figura simbólica oprimida pelas estruturas aristocráticas da cúria romana. Não estou eu forçando a barra, veja algumas frases extraídas de diálogos do filme: "o mundo é dividido em duas partes: opressores e oprimidos”; “(...) ao longo do tempo tivemos os santos, a caridade, tudo bem mas isto não basta, precisamos de uma Revolução!”;

Os filmes nacionais vão na mesma linha, Dom Hélder: O santo (?) rebelde, embora tente desgrudar do Bispo de Olinda o rótulo de “comunista” como fosse uma “calúnia da ditadura”, não consegue disfarçar seu desconcerto para com a Igreja “institucional”, finalizando a obra com o famoso e blasfemo poema “helderiano”:

“Sonhei que o Papa enlouquecia
E ele mesmo ateava fogo
Ao Vaticano.
E à Basílica de S. Pedro…
Loucura sagrada,
Porque Deus atiçava o fogo
Que os bombeiros
Em vão
Tentavam extinguir.
O Papa, louco,
Saía pelas ruas de Roma,
Dizendo adeus aos Embaixadores,
Credenciados junto a Ele;
Jogando a tiara no Tibre;
Espalhando pelos Pobres
O dinheiro todo
Do Banco do Vaticano…
Que vergonha para os Cristãos!
Para que um Papa
Viva o Evangelho,
Temos que imaginá-lo
Em plena loucura!…”


***

Diante deste festival de heresias, cujo uma pequena parte chegou as lentes do cinema, o Vaticano obviamente tomou providencias, culminando na publicação do documento Instrução sobre alguns aspectos da «Teologia da Libertação», assinado pelo prefeito da Sagrada Congregação para Doutrina da Fé, na época, o Cardeal Ratzinger (futuro Bento XVI). Apesar do choro dos teólogos da libertação, a “inquisição ratizingeriana”  foi extremamente branda. Muitos conservadores consideram até que foi “branda até demais”... Talvez, mas vale apresentar o argumento de que a Teologia da Libertação não é um produto de meras especulações intelectuais, mas tomou forma no complicado contexto politico das ditaduras sul-americanas, um “furacão de tensões e emoções” que confundiu a cabeça de muita gente; isso, possivelmente, ajuda a explicar a paciência da Santa Sé. 

De todo o modo, como só falei de filme ruim até aqui, falo agora de um bom filme, um dos poucos filmes “TL” sem o veneno da heterodoxia[2] , falo do filme Romero, onde temos o retrato de uma oposição católica a um regime tirano, um bispo que ama seu povo e sua Igreja e que não cai na armadilha de escolher neste falsa oposição entre a doutrina e a justiça. 



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Em resumo, além de rechados de heterodoxias, 90% dos filmes “TL” são uma chatice só (igualzinho suas músicas)...


Obs: 
-Todos os filmes mencionados podem ser facilmente encontrados no YouTube.
-Me limitei aqui a comentar apenas os filmes, pouco sei sobre os personagens históricos nele retratados como: Daens, Zeno, Dom Hélder e Dom Romero.
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[1] Que dizer então do chamado “socialismo cristão” ou “católico”?
O chamado “socialismo cristão” ou “socialismo católico” é uma aberração tão grande como se alguém falasse de um protestantismo católico ou de um círculo quadrado. - Catecismo Anticomunista, §84; Dom Geraldo de Proença Sigaud.
[2] Talvez nem TL seja, alguns defendem que Dom Romero jamais teve ligação com os expoentes heterodoxos deste movimento, mas que teve sua imagem “sequestrada” pelo marketing revolucionário.