domingo, 4 de dezembro de 2016

Vida Comum



Hoje em dia o pessoal tem opinião sobre tudo menos sobre a própria vida. Varam altas madrugadas discutindo os melhores rumos para a economia do país, mas não sabem nem equilibrar o orçamento doméstico. Traçam estratégias mirabolantes para por seu partido-movimento no poder da Nação, mas não sabem o que fazer com relação a rua de sua casa que está esburacada. Clamam ardorosos por uma nova cruzada, falam em pegar em armas ”pra defender o país” sem nunca terem se envolvido ao menos numa briga de boteco. Colocam-se no alto grau da sapiência, a ponto de dizer o que o Papa deve ou não fazer, sem sequer terem terminado de ler o Catecismo. Declaram seus juízos infalíveis sobre as mais variadas guerras e suas soluções para tais, sem sequer conseguir apaziguar uma briguinha de família.

Pessoal fica em abstração demais, olhando muito pro alto sem a noção da própria insignificância, vivem tanto de olhar os jogos de poder na alta cúpula que se esquecem de suas próprias vidas. Outro caminho nos ensinam os Santos, de modo especial Santa Terezinha e São Josemaria Escrivá insistem na valorização a vida comum, da rotina diária; e de procurar vê-la como meio de santificação. Nosso Senhor Jesus Cristo, dedicou especial atenção a vida comum, realizando seu primeiro milagre não nos exércitos dos zelotas, ou colocando um de seus apóstolos no trono dos césares, mas em um casamento, numa cena cotidiana que é a falta de vinho:

<Assim «Jesus realizou o primeiro dos seus sinais miraculosos» (v. 11), em Caná da Galileia. Não há um gesto estrondoso realizado diante da multidão, nem uma intervenção que resolva um problema político flagrante, como a subjugação do povo à dominação romana. Pelo contrário, numa pequena aldeia, tem lugar um milagre simples, que alegra o casamento duma jovem família, completamente anônima. E contudo a água transformada em vinho na festa de núpcias é um grande sinal, porque revela o rosto esponsal de Deus, de um Deus que Se põe à mesa connosco, que sonha e realiza a comunhão connosco. Diz-nos que o Senhor não Se mantém à distância, mas é vizinho e concreto, está no nosso meio e cuida de nós, sem decidir em nosso lugar nem Se ocupar de questões de poder. De facto prefere encerrar-Se no que é pequeno, ao contrário do homem que tende a querer possuir algo sempre maior. Deixar-se atrair pelo poder, a grandeza e a visibilidade é tragicamente humano, resultando uma grande tentação que procura insinuar-se por todo o lado. Ao passo que é requintadamente divino dar-se aos outros, eliminando as distâncias, permanecendo na pequenez e habitando concretamente a quotidianidade. [1]>

De igual modo fala o Prof. Tiago Amorim, repetindo a tradição da filosofia espanhola da importância de se valorizar a vida comum, e ter ela como base para suas reflexões, e de degrauzinho em degrauzinho ir subindo para os temas mais elevados.

Quando vejo essa juvenada ai, que nem paga o próprio arroz feijão, querendo postular sobre universais, ou espalhando aos quatro cantos da internet o proselitismo de suas opiniões sobre assuntos que não têm a menor capacidade de influir, e esquecendo-se da própria vida, me ponho a rir…

O guri me gasta toda a vida lendo a ”Escola Austríaca” para debater economia na internet, ou postular sobre o conflito Árabe-Israelense e defender com unhas e dentes o Estado Sinoista.

Legal cara, mas e a vida?Sua vida comum o arroz e feijão?
Tu é jornalista? Economista? Político? Não? Então que raios vai lhe servir todo o tempo perdido lendo isso ai? Que raios vai lhe servir saber de cor e salteado a Escola Austríaca? Não seria mais útil estudar como administrar melhor SEU orçamento doméstico, ao invés de como um chefe de estado deve administrar a economia de uma nação?

De que raios vai adiantar fazer prosélitos da causa sionista? Não seria melhor estudar e propagar o Evangelho, a sua religião, ao invés de adeptos de uma guerra lá longe cujo o qual você não influencia em nada?

Há um princípio da Doutrina Social da Igreja denominado princípio da subsidiariedade. Em termos práticos, este princípio indica que a responsabilidade sempre é de quem está mais próximo ao problema. Ou seja é sua responsabilidade lidar com os problemas próximos a você, cuja sua insignificância lhe permite resolver e não os gigantes.

Não é sua responsabilidade por exemplo corrigir as heresias do clero alemão, mas é sua responsabilidade ajudar a resolver o problema da má catequese em sua paróquia.

Não vai adiantar nada fazer nessa sua biboca provinciana uma passeata pra tirar a Dilma/Temer/<insira outro grande figurão aqui> (a menos que more em uma grande capital com São Paulo, Rio de Janeiro ou Brasília). Acha que uma passeata contra a Dilma, Temer o escambau em Erechim ou em São Raimundo Nonato vai adiantar de alguma coisa? Mas, uma passeata ai contra um prefeito local corrupto é de grande utilidade e relevância.

Enfim, o que quero com esse texto não é demonizar os estudos gerias ou desvalorizar a ação política, mas alertar para a possibilidade deles se transformarem numa matrix, numa causa de alienação. Tenhamos isso em mente, e não criemos desculpas para esquecer nossa vidinha comum, pois como diz Chesterton: “A coisa mais extraordinário do mundo é um homem comum, uma mulher comum e seus filhos comuns”.

*Texto originalmente publicado em 28 de Julho de 2016 no Instituto Shibumi.
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[1] Homilia do Papa em Czestochowa, Polônia (2016-07-28), disponível em <news.va/pt/news/homilia-do-papa-em-czestochowa-texto-integral>

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