terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Um conto Steampunk e a finalidade da Técnica


Steampunk (também conhecido como Tecnavapor) é um subgênero narrativo dentro da ficção científica, de forma geral descreve obras ambientadas no passado, no qual os paradigmas tecnológicos modernos ocorreram mais cedo do que no mundo real. Geralmente, a maioria das obras deste subgênero tem sido ambientadas na Inglaterra Vitoriana, contrastando a fineza dos costumes à alta tecnologia porém, já se empreenderam obras ambientadas no Faroeste e na Idade Média, partindo-se do mesmo princípio.

Tendo isso em mente, para o início desta reflexão passemos a obra em questão, a animação japonesa Steamboy, que como o nome sugere, uma típica represente do gênero steampunk. O filme de 2004 é talvez um dos mais caros da história das animações japonesas, custando por volta de US$ 20 milhões; o resultado foi um uma obra artística admirável, com uma qualidade estética magnífica (a arquitetura interna da torre, todo o maquinário a vapor são de tirar o fôlego, mas é sobretudo com relação ao roteiro da obra que pretendo tratar aqui).

A grande discussão que norteia a obra é a respeito da função da ciência e, sobretudo sua aplicação prática, a técnica. Cada personagem representa um arquétipo, um argumento simbólico condensado. A começar a gigantesca e bilionária Fundação O'Hara, esse gigantesco império financeiro vê na família Steam uma chance de maximizar ainda mais seus lucros. Mas, qual o ramo de atuação da O'Hara? Armas, a fundação vive de provocar guerras e vender armas para ambos os lados, qualquer correspondência a realidade não é mera coincidência.

Porém, o dinheiro (o esterco do diabo nas palavras do Papa Francisco) não é a única força a almejar instrumentalizar a ciência, temos do outro lado o Leviatã Estatal representado pelo nacionalismo britânico de Robert Stephenson, assim como os O'Hara, Stephenson é um fabricante de armas porém, o faz não com o objetivo de lucro financeiro imediato, mas na mitologia nacionalista (a religião da pátria, como diria Belloc), para a glória e expansão do império inglês.

Nesta encrenca toda não poderia faltar a revolta primitivista, representada pelo velho Dr. Lloyd Steam, amargurado por sua obra científica ser posta a serviço da guerra, e buscando, por fim, destruir tudo. O homem não deve ter nas mãos tamanho poder, eis a filosofia do Dr. Lloyd.

Mas, o personagem mais interessante é o gênio artístico (e louco) do Dr. Eddie Steam. Eddie não é movido por nacionalismo, ganância financeira, ou nobres ideais, ele é um artista querendo ver sua obra em movimento independente do modo ou para que esta será usada. David, parceiro do senhor Stephenson de modo incompleto apresenta a mesma veia artística de Eddie, embora ainda misturada com gotas de ganância (em uma das cenas finais, vendo as engenhosas armas da corporação O'Hara sendo usadas contra o império britânico, David se põe a admirar a engenhosidade de seus rivais).

Qual deve ser a função da ciência? Servir ao dinheiro (ao ídolo do mercado)? Servir aos interesses da nação (o Leviatã Estatal)? Ou tão somente ser a manifestação direta e livre do desejo criador do homem independente de seu uso? Ou é demasiado perigosa, algo a ser coibido, fechado a sete chaves como uma alquimia perversa e proibida?

A obra não nos oferece uma resposta, se por um lado o protagonista Ray Steam, seguindo as ordens do avô, impede que a Torre seja usada contra os cidadãos ingleses, por outro não mostra compactuar com nenhum dos argumentos representados pelos personagens. E assim nessa indefinição termina a obra, ou melhor, na síntese hegeliana finalizando com a seguinte conclusão: tanto faz, ambos os argumentos levarão ao progresso da ciência, e isto será empolgante e interessante.

O impulso criador do homem, a busca pelas glórias da nação (atualmente o Leviatã é global e supranacional), o almejado lucro, a revolta primitivista; cada uma destas correntes estão em conflito hoje na busca de definir os rumos da ciência, e apartada da religião católica, tudo isso só pode terminar mal.

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