domingo, 4 de dezembro de 2016

O velho Pistoleiro e o pequeno Hobbit: O mundo seguiu adiante, mas YOU SHALL NOT PASS!


Stephen King conta no prefácio de seu opus magnum (A Torre Negra) que aos dezenove anos logo após a leitura da obra de Tolkien ficou deslumbrado e sentiu-se impelido a buscar uma realização semelhante na literatura. A Terra Média era um mundo tão vasto, tão belo, ordenado, e toda a mitologia criada pelo inglês tão consistente, que marcou profundamente aquele mancebo norte-americano, que ali começou a rascunhar as primeiras ideias a respeito de sua Torre Negra. Porém, assim como a Torre é inalcançável para o Roland o pistoleiro, e de igual modo é a distância que separa a obra de Tolkien de seu fã norte-americano.

A diferença entre as obras se explica primeiramente pela diferença do horizonte de consciência de Tolkien e King. Tolkien um inglês, profundamente católico em uma terra anglicana, sofreu por sua Fé discriminações em sua terra natal (o que não o impediu de lutar por ela durante a primeira guerra mundial). King, um norte-americano, crê na Bíblia e em Deus, mas não segue nenhuma “religião organizada” ou seja só crê em si mesmo; com preconceitos anti-católicos vulgares, fruto da cultura popular norte-americana inspirada por asneiras protestantes. Se Tolkien lutou na guerra, King frequentou os alcoólicos anônimos, se o primeiro conhecia profundamente a teologia escolástica, o segundo era fã dos Beatles e cantarolava Hey Jude.

Enquanto na obra do inglês temos uma profunda mensagem disfarçada sobre trejeitos de um conto de fadas infantil, no seu fã norte-americano temos uma obra tipicamente adolescente, com muita pose e pouca entrega. Enquanto a primeira é sistematicamente ordenada tal qual uma sinfonia de Mozart, a segunda é tão caótica quanto um show de punk rock.

Frodo e sua comitiva são um grupo pequeno e inocente, tão simples e ao mesmo tempo tão complexos. Roland e seu Ka-tet, profundamente superficiais. Enquanto Tolkien joga com a narrativa, dividindo a comitiva, ora nos localizando em Rohan na pele de Aragorn, Legolas e Gimli, ora nas florestas de Fangorn com Merry e Pippin, ora nas proximidades de Mordor com Frodo e Sam; King raramente consegue nos entreter quando tira o velho Roland de cena.

Tolkien com toda a sua simplicidade e pudor de um bom católico retrata de forma ao mesmo tempo discreta e atemorizante o mal, encarnado em Sauron. King com toda a sua apelação adolescente faz o Rei Rubro e seu príncipe profetizado Mordred não mais que uma incômoda aranha.

A Terra Média tão bem estruturada, mapeada (Tolkien até desenhou um mapa, e ainda adicionou escalas para aproximar ainda mais o leitor da aventura do Anel) com sua geografia descrita, sua cronologia artisticamente definida. O mundo da Torre tão caótico com suas múltiplas dimensões e linhas do tempo intercruzadas e seus desertos tão iguais, tal qual o desenho do Papa-Léguas.

O precioso do pobre Gollum torna sua patética miséria mais realista que toda a heroína consumida por Eddie Dean. Mesmo Roland, o velho pistoleiro não passa de uma sombra deprimente de Aragorn dos Dúnedain.

King faz um punhado de referências escrachadas (desde o nome dos personagens lembrando os Cavaleiros de Arthur, a citações de canções pop), já as de Tolkien, tão sutis que as tornam quase imperceptíveis para olhos menos atentos (como a atuação da Providência durante toda a história). Tolkien em seu mundo ficcional nos toca de forma real; King mesmo colocando seu pistoleiro no mundo real a dialogar consigo, não consegue nada semelhante…

Ao fim, tal qual seu pistoleiro King não alcançou sua Torre, sua obra passa longe de toda a profundidade escondida naquela toca do Condado. A Torre Negra nada mais é do que uma interessante obra da cultura pop, a ser esquecida como um modismo descartável; enquanto a obra de Tolkien figurará na estante dos clássicos da literatura.

No fundo, o velho garoto que leu deslumbrado o Senhor dos Anéis aos 19 anos é o mesmo que escreveu a Torre Negra, uma boa história adolescente, típica dos 19 anos, presunçosa, jovem e efêmera…

O mundo seguiu adiante, mas YOU SHALL NOT PASS!

*Texto originalmente publicado em 3 de Agosto de 2016 no Instituto Shibumi.

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