segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

O Pais das Maravilhas e a Função do Mundo das Fadas


Raramente acompanho o cinema, ultimamente Hollywood não produz outra coisa senão perversões. Só assistir algo depois de ler uma boa crítica e uma confiável recomendação, uma prática salutar que me ajuda a evitar perder tempo com lixo.

Mas, afinal, acabei abrindo uma exceção a essa regra e indo atrás com atraso de ver o filme de Tim Burton, Alice no País das Maravilhas, uma verdadeira porcaria.

O que me atrai fundamentalmente em um filme é o roteiro, a história, e a história de Alice é insonsa. Uma reedição do conto de fadas adaptada aos tempos modernos: Alice é uma mocinha boba e indecisa, pressionada pela família a casar com um lorde inglês (caricato, efeminado e irritante), é então transportada ao País das Maravilhas onde após viver uma aventura, encontra forças para, no arquétipo feminista, ser senhora de si e não ser um peso morto guiado pela maré.

A personagem Alice é como uma menininha mimada, os vilões pouco dignos, a Rainha Vermelha com seu cabeção parece uma criancinha birrenta, o Valete um personagem deslocado na história, e o quase par romântico de Alice, o Chapeleiro Maluco, apesar da estética do personagem ter ficado boa com toda a maquiagem exuberante ao estilo característico de Burton, fica apenas nisso. Um idiota bem-vestido…

Talvez para mocinhas o filme deva ser mais agradável uma vez que investe em arquétipos tipicamente femininos e trata dos dramas da adolescência, mas para mim, um camponês provinciano bruto, rústico e sistemático, o filme foi de um tédio mortal.

Contudo, ao menos este filme besta traz uma lição digna de nota a respeito da função do Mundo das Fadas. Para tantos a realidade é opressiva má, e o Mundo das Fadas, a ficção, é um meio de alienação, um modo de fuga da realidade. É mais fácil ficar no Mundo das Fadas, refugiar-se no País das Maravilhas, um local onde as árvores são coloridas, e o mal nunca é demasiado assustador….

E hoje em dia há tantos para se fugir da realidade, de livretos tolos, passando por toda a subcultura Geek (e seus produtos alienantes em vários formatos: desenhos, filmes, gibis, videojogos etc), pelas drogas, e até mesmo a religião. Sim a religião, não falo apenas das seitas pagãs e paracristãs (protestantes), mas até mesmo a verdadeira religião, aquela criada pelo próprio Deus para religar o homem a eternidade, a religião católica, é pervertida como modo de alienação. A título de exemplo, cito o mundinho pseudomístico da RCC.

Pois então qual seria a função da ficção, do Mundo das Fadas? Apenas entreter crianças tolas?

Não! A ficção deve dar ao homem subsídios mentais para agir no mundo real. A ficção é um modo efetivo de se transmitir ideias, e tais ideias uma vez avaliadas como boas devem ser postas em prática no mundo real. Alice faz isso, após matar o dragão no País das Maravilhas, toma coragem para enfrentar seus problemas reais no mundo de carne e osso.

Deste modo fica o conselho: se a ficção que consome não lhe faz agir de modo mais responsável e criativo na realidade, está usando o Mundo das Fadas da maneira errada, tal qual uma droga alienante.

Nenhum comentário:

Postar um comentário