quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

O Conservadorismo e as Tribos Ideológicas na Modernidade Líquida


Pelo fato de ter saído a tempo relativamente recente da arapuca ideológica do conservadorismo, este tem sido o tema de vários de meus escritos. Hoje venho a tratar mais uma vez do assunto: a neodireita e o aspecto atrativo do chamado conservadorismo, não como ideia, mas como um produto identitário da indústria cultural. Mais do que as ideias, é a identidade estética do movimento que tem atraído tantos jovens (a mesma fórmula é usada também pela esquerda).

Como assim? Nessa modernidade líquida o indivíduo, principalmente o jovem, se sente um náufrago em um mar a deriva. Tudo é líquido, nada há em que se apoiar. Alguns (a maioria) se apoiam no presente, formam sua identidade na frágil e mutável cultura pop, estes estão sempre seguindo a moda. É a moda, a opinião pública, as tendências, que movem a mente desta criatura mundana, se tudo é mutável ele é uma metamorfose ambulante, uma cria direta sempre em atualizações da cultura pop.

Esse é o caso do mundano comum, o do dito conservador é um pouco mais complexo. O conservador está neste mesmo oceano liquido pós-moderno porém, diferente do mundano comum, a cultura pop não basta para si, por algum motivo ele não quer ser pioneiro a testar cada nova atualização midiática. Então, o conservadorismo oferece para ele uma tradição, uma tradição estereotipada, um barco furado, mas é um barco; e nele se apoia. Assim o infeliz não se sente mais um infeliz a deriva, mas continuador de uma tradição (estereotipada e fake, mas, que dá a ele certa segurança). E com base nisso, o infeliz forja a própria identidade.

Não raro que os mais amalucados, tão logo se “convertem’’ ao conservadorismo, tem como primeiro ato absorver seus símbolos estereotipados, tirando fotos com cachimbos, terno (alguns vão atrás até de suspensórios rsrs). Mesmo que o fio de continuidade entre ele e os homens do passado em que se baseia sejam tênues, e por vezes ilusões importadas de filmes americnaoides, isso não importa, basta essa ilusão de continuidade para lhe dar a segurança psicológica que precisam. Assim a mocinha pós-moderna baladeira e carreirista adepta da revolução sexual crê-se a moça direita, a conservadora respeitável tá qual a avó que casou virgem, e dedicou a vida ao cuidado dos filhos; o manginão covarde sustentado pelos pais crê-se o patriarca, o respeitável pai de família.

Longe de ser um continuador da tradição, o conservador é filho da ruptura. Seus valores, seu modo de pensar pouco tem a ver com o de seus pais e avós, ele é mais moderno, uma versão mais nova da revolução que não quer acompanhar as últimas atualizações. Em resumo, o que conserva o conservador? A fase anterior da revolução.

Se o revolucionário esquerdista crê ser ele o porta-voz do futuro, o novo homem que só pode ser julgado pela história; o conservador acredita ser ele o intérprete do passado, o herdeiro da tradição, da civilização ocidental. E nessa metanarrativa politica ambos tem seus símbolos, sua mitologia e sua visão maniqueísta do mundo na eterna luta da direita contra a esquerda.

Na visão dialética esquerdista seus heróis são sempre o lado da antítese não importa qual seja, já para os conservadores os seus são sempre a tese, a classe dominante, os “homens respeitáveis”.  Assim no panteão conservador se misturam Margaret Thatcher (abortista e pró-gayzismo) com Chesterton (católico totalmente avesso as elites inglesas), Enéas (nacionalista) divide lugar com Ronald Reagan (liberal), e milicos positivistas viram representantes de uma “direita cristã”.

Em resumo, tais tribos politicas são doces ilusões na qual o infeliz se apega, refúgios psicológicos a dar sustento a sua personalidade nesta modernidade liquida. Se a esquerda prefere o arquétipo subversivo, a direita preza pelo arquétipo do homem respeitável. No fim, ambos estão tentando apenas representar seu personagem.

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