segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

A Tirania da Técnica na Ficção Científica


A técnica e suas maravilhas são capazes de levar multidões de juvenas ao êxtase. A cada novo videogame, a cada nova bugigada da Apple, vemos uma multidão de fãs fanáticos em peregrinação. A Técnica (Tecnologia) é um dos ídolos (falso-deus) adorados pelos neopagãos hodiernos.

Forçando a analogia, assim como todos os deuses dos antigos pagãos são demônios, o ídolo da técnica pode vir a tomar o mesmo caminho, e em tempos de “êxtase” ainda há neopagãos com suficiente bom senso para perceber isto, e manifestar sua preocupação através de sua arte (no caso aqui tratado o cinema).

Inúmeros filmes (alguns bons, outros não tão bons e muitos horríveis) do gênero ficção científica tem trabalhado a imagem do demônio da técnica. Em O Exterminador do Futuro e Matrix temos a expressão gnóstica da criatura se revoltando contra o criador, se na modernidade o homem divinizou a si mesmo, nestas obras, a cria do homem, as máquinas, se revoltam contra este, reduzindo-o a escravidão. O conto de fadas distópico gnóstico de ambas as obras (que não recomendo a mentes fracas, pois além de cenas lascívias, as obras propagam falsas ideias heréticas) é interessante, mas de modo algum próximo a realidade. O robô, a máquina jamais será capaz de tal ato, desenvolver alma, consciência? Tolice! O homem não é um deus, não é capaz de criar vida, a máquina ao final será sempre um títere, o perigo não está no boneco, mas em quem manipula as cordas. Que em um futuro distópico as máquinas podem ser usadas para a criação de uma ditadura perversa e totalitária é uma possibilidade real, mas que o cérebro por trás dessa ditadura seria um cérebro robótico, isso é tolice! O poder estaria nas mãos das empresas que fabricam e controlam as máquinas, os velhos executivos de terno e gravata a dirigir as grandes corporações, protegidos por seu exército robótico.

Embora ausente nas obras citadas, a ideia de super corporações no topo de um governo despótico não é ausente na ficção científica. Em Avatar (mais uma obra não recomendada, alimenta o mito do bom selvagem de Rousseau e está recheada de propaganda esotérica da Nova Era) um planeta inteiro é devastado em favor dos lucros do grande capital; em O Vingador do Futuro (tirando algumas piadinhas imorais, pouco tenho a reclamar sobre está obra) o oxigênio, na ficção um recurso gratuito e abundante no planeta vermelho, é dito como escasso para não prejudicar os lucros da corporação que o comercializa. Mera ficção sem base alguma na realidade? Penso eu nos inúmeros desastres ecológicos silenciados, ou talvez na proposta de um dos figurões da Nestlé de privatizar a água….


Em O Sexto Dia (um bom filme, apesar das piadas imorais) temos nós também uma imagem interessantíssima da influência do lobby econômico sob o governo. No filme, os mais desonestos meios são usados a fim de pressionar o governo a revogar a chamada Lei do Sexto Dia, e permitir a clonagem humana, dar ao homem o poder de brincar de deus (velha heresia gnóstica). A narrativa apresentada pelos lobbystas? A “ciência” contra o “fundamentalismo” religioso. O paralelo do filme com as indústrias assassinas do aborto, eugenia e eutanásia é inevitável. Pena, que na vida real não temos um Schwarzenegger irritadiço para frustrar as pretensões gnósticas dos grandes figurões que pensam poder brincar com a vida humana.

Mas, se a Técnica restrita ao domínio das grandes corporações é um problema, tanto mais o é nas mãos do governo, e isto não escapa as lentes do cinema. No anti-clerical Equilibrium (onde é forçada uma analogia entre o governo totalitário e a Igreja Católica), ou em O Doador de Memórias (bom filme, vale a pena ver), onde, tal qual em Admirável Mundo Novo, o governo droga seus cidadãos a fim de manter a alienação perpétua, além de assassinar os improdutivos via eutanásia e extinguir as famílias em prol de uma produção de bebês em escala industrial sob o domínio da burocracia (está última ideia está inclusive presente em Superman: O Homem de Aço), a tirania da técnica sob o domínio estatal é desvelada. O que é isto senão o projeto novordista que vem sendo implantado em todo o mundo?

Se, a ralé dos idiotas neopagãos ainda insiste em idolatrar a técnica, ao menos algumas das figuras desta fauna já se libertaram dessa vulgar ilusão, e manifestam sua descrença pelas lentes do cinema.

Voltemos as cavernas então? Como a herética seita dos Amish, deixemos a Cidade em prol das Serras, fujamos para Walden? Não é isso que ensina a doutrina católica, Pio XII reafirma em Miranda Prorsus que a tecnologia em si é neutra, tendo potencial para ser usada tanto para o bem quanto para o mal.

É interessante notar como a quase hegemônica alienação televisiva foi quebrada com o advento da internet. Se o monopólio das técnicas de difusão de conteúdo seja sob as mãos do Estado laicista moderno, seja sob o poder das grandes corporações proporciona grandes males, a democratização dos meios de difusão representou uma grande dor de cabeça aos grandes figurões. Personagens controversos como Assange e Snowden tem sido incômodas pedras no sapato dos novordistas. Diante de tudo isso, em meio a esta cultura neopagã em que a tecnologia tem seu uso por vezes direcionado o mal, ao menos é melhor que esteja acessível a muitos, e não concertada nas mãos de poucos.

Concluindo, idolatrar a técnica pela técnica independente de seu uso é uma grande tolice que só pode ser concebida por neopagãos idiotas. Esta tem um potencial maléfico surpreendente, contudo a demonização desta parece uma tolice igual. O mais racional diante desta realidade é a boa e velha ética cristã, orientar o uso da técnica pelas leis morais da Igreja, e disseminar o seu uso, a fim de que tal arma não esteja sob o monopólio de poucos figurões. Neste sentido, viva o Linux!

*Texto originalmente publicado em 1 de Novembro de 2016 no Instituto Shibumi.

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