domingo, 4 de dezembro de 2016

A Aventura da Fé


Ainda não consegui rastrear a origem da (errônea) figura imaginária, muito atuante em nossos dias, que coloca o fato do infeliz ser um “bom moço”, um “bom cidadão” como sinônimo da prática cristã, como se o cristianismo se resumisse tão somente num código moral de bom comportamento.

Certa feita, tive uma conversa com uma moça (não tão moça assim) que argumentava do porque não precisar de “religião”: <Eu não sou criminosa, não sou viciada em drogas, não faço mal a ninguém. Não preciso de religião para ser uma pessoa…>

Tola!
A “religião”, principalmente a Verdadeira Religião, aquela revelada pelo próprio Deus, não busca formar “boas pessoas”, ela busca religar o homem a Deus, devolver o sentido do viver, ser a luz em sua caminhada, libertá-lo do pecado, de seus vícios, levá-lo para além dos limites de seu “onde” e “quando”, bem como dar ao homem a felicidade eterna. Definitivamente ela não é um código de boa conduta, muito pelo contrário muitas vezes ela pode ser altamente subversiva, incômoda e inconveniente aos olhos do mundo, os santos e mártires que o digam.

O escritor católico J. R.R. Tolkien de forma sútil e belíssima ilustra bem essa oposição entre a religião e o bom mocismo burguês em seu livro O Hobbit (que posteriormente ganhou algumas adaptações para o cinema):


Destaco o seguinte trecho do diálogo:

<Gandalf: - Estou procurando alguém para participar de uma aventura?
(…)
Bilbo:- [aventuras] são coisas desagradáveis e desconfortáveis, nos atrasam pro jantar.>

Bilbo é um bom moço burguês, um bom cidadão mas, ensimesmado em sua vidinha no condado (uma alma pequena, com horizontes pequenos, daí o significado do tamanho do hobbit), Gandalf então aparece para bagunçar a vidinha de Bilbo, lhe propõe uma aventura (que é uma analogia a conversão), algo que ira tirar Bilbo de sua zona de conforto, algo que vai doer, vai fazê-lo sofrer mas, ao mesmo tempo o fará crescer em virtude, superar suas as ninharias provincianas e sobretudo fazê-lo feliz.

C.S. Lewis, também escritor e amigo pessoal de Tolkien, nos dá uma visão semelhante, distanciando bem a prática da religião, do “código de boa conduta social”:

<Um território ocupado pelo inimigo — assim é este mundo. O cristianismo é a história de como o rei por direito desembarcou disfarçado em sua terra e nos chama a tomar parte numa grande campanha de sabotagem. Quando você vai à igreja, na verdade vai receber os códigos secretos mandados pelos nossos amigos: não é por outro motivo que o inimigo fica tão ansioso para nos impedir de frequentá-la. [1]>

São Josemaria Escrivá também usa linguagem semelhante para falar da prática católica:

<Cristo, que é a nossa paz, é também o Caminho. Se queremos a paz, temos de seguir os seus passos. A paz é consequência da guerra, da luta, dessa luta ascética, íntima, que cada cristão deve sustentar contra tudo aquilo que, na sua vida, não é de Deus: contra a soberba, a sensualidade, o egoísmo, a superficialidade, a estreiteza do coração. É inútil clamar pelo sossego exterior se falta tranquilidade nas consciências, no fundo da alma, porque é do coração que saem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as fornicações, os furtos, os falsos testemunhos, as blasfêmias. [2]>

E nas Sagradas Escrituras são inúmeras as referências ao combate espiritual, a guerra, a aventura. Para não me estender demais, cito apenas São Paulo:

<Combati o bom combate, completei a corrida, perseverei na fé! [3]>

Portanto, ressalto: o cristianismo não é um código de conduta social mas, uma incrível e perigosa aventura. Homens cruzaram os mares e se engrenharam em terras desconhecidas, muitos derramaram (e ainda derramam) seu sangue, outros tantos abandonaram família, amigos escolhendo o silêncio da clausura. Eles não fizeram isso por um “código moral”, ou por serem “bons cidadãos”.

Se você não é capaz de compreender o porque disto, jamais será capaz de compreender o Catolicismo.

*Texto originalmente publicado em 06 de Fevereiro de 2016 no Instituto Shibumi.
___________________________________________________________________________________________________________
[1] LEWIS, C. S.; Cristianismo Puro e Simples
[2] ESCRIVÁ, São Josemaria; A Luta Interior disponível em: <http://www.pt.josemariaescriva.info/artigo/a-luta-interior>
[3] 2Tm 4, 7.

Nenhum comentário:

Postar um comentário