terça-feira, 25 de julho de 2017

A interpretação do Concílio Vaticano II e a sua relação com a crise atual da Igreja

A situação atual da inaudita crise da Igreja é comparável com aquela geral no século IV, onde o arianismo contaminou a esmagadora maioria do episcopado e foi reinante na vida da Igreja. Devemos procurar ver esta situação atual, por um lado, com realismo e, por outro, com o espírito sobrenatural, com um profundo amor para com a Igreja, que é nossa mãe, e que está sofrendo a paixão de Cristo por meio dessa tremenda e geral confusão doutrinal, litúrgica e pastoral.

Devemos renovar a nossa Fé de que a Igreja está nas mãos seguras de Cristo e que Ele sempre intervirá para renová-la nos momentos em que a barca da Igreja parece naufragar, como é o caso óbvio em nossos dias.
Quanto à atitude diante do Concílio Vaticano II, devemos evitar os dois extremos: uma rejeição completa (como o fazem os sedevacantistas e uma parte da FSSPX) ou uma “infalibilização” de tudo o que o Concílio falou.

O Concílio Vaticano II foi uma legítima assembleia presidida pelos Papas e devemos manter para com este concílio uma atitude de respeito. Contudo, isso não significa que não podemos exprimir dúvidas bem argumentadas e respeitosas propostas de melhoria, apoiando-se na Tradição integral da Igreja e no Magistério constante.

Pronunciamentos doutrinais tradicionais e constantes do Magistério durante um plurissecular período têm a precedência e constituem um critério de verificação acerca da exatidão de pronunciamentos magisteriais posteriores. Os pronunciamentos novos do Magistério devem, em si, ser mais exatos e mais claros, nunca, porém, ambíguos e aparentemente contrastantes com anteriores pronunciamentos constantes magisteriais.

Aqueles pronunciamentos do Vaticano II que são ambíguos devem ser lidos e interpretados segundo os pronunciamentos da inteira Tradição e do Magistério constante da Igreja.

Na dúvida, os pronunciamentos do Magistério constante (os concílios anteriores e os documentos de Papas, cujo conteúdo demonstrava ser uma tradição segura e repetida durante séculos no mesmo sentido) prevalecem sobre aqueles pronunciamentos objetivamente ambíguos ou novos do Concílio Vaticano II, os quais, objetivamente, dificilmente concordam com específicos pronunciamentos do Magistério anterior e constante (por exemplo, o dever do Estado de venerar publicamente Cristo, Rei de todas as sociedades humanas; o verdadeiro sentido da colegialidade episcopal frente ao primado petrino e ao governo universal da Igreja; a nocividade de todas as religiões não-católicas e o perigo que elas constituem para a salvação eternas das almas).

O Vaticano II deve ser visto e aceito tal como ele quis ser e como realmente foi: um concílio primeiramente pastoral, isto é, um concílio que não teve a intenção de propor doutrinas novas ou propô-las numa forma definitiva. Na maioria dos seus pronunciamentos, o Concílio confirmou a doutrina tradicional e constante da Igreja.

Alguns dos novos pronunciamentos do Vaticano II (por exemplo, colegialidade, liberdade religiosa, diálogo ecuménico e inter-religioso, atitude para com o mundo) não são definitivos e por eles, aparentemente ou em realidade, não concordarem com os pronunciamentos tradicionais e constantes do Magistério, devem ser ainda completados com explicações mais exatas e com suplementos mais precisos de caráter doutrinal. Uma aplicação cega do princípio da “hermenêutica da continuidade” também não ajuda, pois se criam com isso interpretações forçadas, que não convencem e que não ajudam para chegar ao conhecimento mais claro das verdades imutáveis da Fé Católica e da sua aplicação concreta.

Houve casos na história onde expressões não definitivas de alguns concílios foram, mais tarde, graças a um debate teológico sereno, precisadas ou tacitamente corrigidas (por exemplo, os pronunciamentos do Concílio de Florença acerca da matéria do sacramento da ordenação, isto é, que a matéria fosse a entrega dos instrumentos, mas a tradição mais segura e constante dizia que era suficiente a imposição das mãos do bispo, o que Pio XII em 1947 confirmou). Se depois do concílio de Florença os teólogos tivessem aplicado cegamente o princípio da “hermenêutica da continuidade” a este pronunciamento específico do concílio de Florença (um pronunciamento objetivamente errôneo), defendendo a tese que a entrega dos instrumentos como matéria do sacramento da ordem fosse uma expressão do Magistério constante da Igreja, provavelmente não se teria chegado ao consenso geral dos teólogos sobre a verdade que diz que somente a imposição das mãos do bispo constituiria propriamente a matéria do sacramento da ordem.

Deve-se criar na Igreja um clima sereno de discussão doutrinal acerca daqueles pronunciamentos do Vaticano II que são ambíguos ou que criaram interpretações errôneas. Não há nada de escandaloso nisso, pelo contrário, será uma contribuiçao para guardar e explicar na maneira mais segura e integral o depósito da Fé imutável da Igreja.

Não se deve destacar demais um determinado concílio, absolutizando-o ou equiparando-o de fato, à Palavra de Deus oral (Tradição Sagrada) ou escrita (Sagrada Escritura). O Vaticano II mesmo disse, justamente (cf. Dei Verbum, 10), que o Magistério (Papas, Concílios, magistério ordinário e universal) não estão acima da Palavra de Deus, mas sob ela, submisso a ela, e somente ministro dela (da Palavra de Deus oral = Sagrada Tradição e da Palavra de Deus escrita = Sagrada Escritura).

Do ponto de vista objetivo, os pronunciamentos do Magistério (Papas e concílios) de caráter definitivo têm mais valor e mais peso frente aos pronunciamentos de caráter pastoral, os quais são, por natureza, mutáveis e temporários, dependentes de circunstâncias históricas ou respondendo às situações pastorais de um determinado tempo, como é o caso da maior parte dos pronunciamentos do Vaticano II.

O próprio contributo valioso e original do Concílio Vaticano II consiste no chamado universal de todos os membros da Igreja à santidade (cap. 5 da Lumen gentium), na doutrina sobre o papel central de Nossa Senhora na vida da Igreja (cap. 8 da Lumen gentium), na importância dos fiéis leigos em conservarem, defenderem e promoverem a Fé Católica e que eles devem evangelizar e santificar as realidades temporárias segundo o perene sentido da Igreja (cap. 4 da Lumen gentium), no primado da adoração de Deus na vida da Igreja e na celebração da liturgia (Sacrosanctum Concilium, nn. 2; 5-10). O resto se podia até um certo ponto considerar secundário, temporário e talvez no futuro mesmo esquecível, como foi o caso com os pronunciamentos não definitivos, pastorais e disciplinais de diversos concílios ecumênicos no passado.

Os quatro assuntos seguintes: Nossa Senhora, santificação da vida pessoal, defesa da Fé com a santificação do mundo segundo o espírito perene da Igreja e o primado da adoração de Deus são os tópicos mais urgentes a serem vividos e aplicados hoje em dia. Nisso, o Vaticano II tem um papel profético, o que, infelizmente, não está ainda realizado de modo satisfatório. Em vez de viver e de aplicar estes quatro aspectos, uma considerável parte da “nomenklatura” teológica e administrativa na vida da Igreja, há meio século, promoveu e está ainda promovendo assuntos doutrinários, pastorais e litúrgicos ambíguos, deturpando, assim, a intenção originária do Concílio ou abusando dos seus pronunciamentos doutrinários menos claros ou ambíguos a fim de criar uma outra Igreja de tipo relativista ou protestante. Estamos vivenciando o auge desse desenvolvimento em nossos dias.

O problema da atual crise da Igreja consiste, em parte, no fato de que se infalibizaram aqueles pronunciamentos do Vaticano II que são objetivamente ambíguos, ou aqueles poucos pronunciamentos dificilmente concordantes com a tradição magisterial constante da Igreja. Dessa forma, impediu-se um sadio debate e uma necessária correção, implícita ou tácita, dando, ao mesmo tempo, o incentivo para criar afirmações teológicas contrastantes com a tradição perene (por exemplo, no que diz respeito à nova teoria de um assim chamado duplo sujeito ordinário supremo do governo da Igreja, ou seja, o Papa sozinho e todo o colégio episcopal junto com o Papa; ou a doutrina da assim chamada neutralidade do Estado frente ao culto público que ele deve prestar ao Deus verdadeiro, que é Jesus Cristo, Rei também de cada sociedade humana e política; a relativização da verdade que a Igreja Católica é o único caminho da salvação querido e ordenado por Deus).

Devemos nos libertar das algemas da absolutização e da infalibilização total do Vaticano II e pedir que haja um clima de debate sereno e respeitoso, por amor sincero à Igreja e à sua Fé imutável.

Uma indicação positiva nesse sentido podemos ver no fato de que, em 2 de agosto 2012, o Papa Bento XVI escreveu um prefácio ao volume relativo ao Concílio Vaticano II na edição da sua Opera omnia. Neste prefácio, Bento XVI exprime suas reservas quanto a um conteúdo específico dos documentos Gaudium et spes e Nostra aetate. Do teor dessas palavras de Bento XVI se vê que alguns defeitos pontuais em algumas passagens do Vaticano II não são remediáveis pela “hermenêutica da continuidade”.

Uma Fraternidade Sacerdotal de São Pio X canônica e plenamente integrada na vida da Igreja poderia também dar um válido contributo nesse debate, como também o desejou o Arcebispo Marcel Lefebvre. A presença plenamente canônica da FSSPX na vida da Igreja de hoje poderia também ajudar a criar um tal clima geral de um debate construtivo na Igreja, para que aquilo que foi crido sempre, em toda a parte e por todos os católicos durante dois mil anos, seja crido mais clara e de modo mais seguro também em nossos dias, realizando, assim, a verdadeira intenção pastoral dos Padres do Concílio Vaticano II.

A autêntica intenção pastoral visa a salvação eterna das almas, a qual se dá somente pelo anúncio de toda a vontade Divina (cf. At 20, 7). Uma ambiguidade na doutrina da fé e na sua aplicação concreta (na liturgia e na pastoral) ameaçaria a salvação eterna das almas e seria, por conseguinte, anti-pastoral, já que o anúncio da clareza e da integridade da Fé Católica e da sua fiel aplicação concreta é vontade explícita de Deus. Somente a obediência perfeita a esta vontade de Deus que, por Cristo, o Verbo Encarnado, e pelos Apóstolos nos revelou a verdadeira Fé, a Fé interpretada e praticada constantemente no mesmo sentido pelo Magistério da Igreja, traz a salvação das almas.


+ Dom Athanasius Schneider,
Bispo auxiliar da arquidiocese de Maria Santíssima em Astana, Cazaquistão

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Notas sobre a Tradição

Uma das características da modernidade é a sua ruptura e rejeição as tradições, abandona-se o caminho seguro, a experiência acumulada das gerações em prol das “modas”; atitude terrível que amputa o homem de seu passado pondo em risco o seu futuro, um desastre para as nações, um desastre para as famílias, um desastre para os indivíduos. 

Tal qual a árvore que finca raízes cada vez mais profundas ao solo a fim de que dele retire os nutrientes os quais, na magnífica dinâmica interna da criação (que a ciência explica e descreve, mas, por vezes, esquece-se de contemplar), serão combinados e transformados para crescimento e perpetuação da planta, assim devem as nações retirar das profundezas do passado os elementos para edificação de seu presente e constituição de seu futuro. Se, por outro lado, a árvore não fincar raízes profundas, mas restringe-se a superfície, como fazem as sociedades que abandonam suas tradições, tornar-se-á fraca e débil; indefesa frente a violência dos ventos.

Tendo isto em vista, trago aos leitores do BunKer, após esta breve introdução, um artigo da Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, de autoria do meu grande amigo Victor Emanuel Barbuy, neto do grande filósofo Heraldo Barbuy, também ele, tal qual o avô, um homem católico, herdeiro das antigas tradições, arauto do Brasil Profundo. Sob essas notas, que visam clarificar o conceito de Tradição (não confundir com “Tradição Apostólica” ou "Sagrada Tradição”, que dizem respeito à Igreja universal), entendida no contexto das tradições nacionais de um povo; está assentada parte importante da “filosofia” deste BunKer, que visa apresentar uma linha de ação católica no front da guerra cultural; sendo o desbravar e o redescobrir as primevas tradições luso-brasileiras também um modo de resgate da herança católica desta Terra de Santa Cruz.

~Edmundo_Noir

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Notas sobre a Tradição
Victor Emanuel Vilela Barbuy[i]

sábado, 22 de julho de 2017

Vatican Kiseki Chousakan/Vatican Miracle Examiner (S01-EP03)



Saiu o terceiro episódio de Vatican Kiseki Chousakan. Ainda não tive tempo de assistir, logo que o fizer edito a postagem adicionando meus comentários a respeito como de costume.

Vatican Kiseki Chousakan

domingo, 16 de julho de 2017

Que tipo de educação?



”Vou investir em educação”

”Lugar de criança é na escola’’

”Escola em tempo integral”

São alguns dos mantras repetidos pelos políticos em época eleitoral…Escola, escola, escola, educação, educação, educação. Mas que escola?Que educação?

Quando mais jovem a escola para mim foi uma longa e entediante perca de tempo.

As aulas de História eram divertidas, o professor um piadista nato. Mas, e a história que aprendi?Simplesmente falsa: aprendi que a Igreja matou ”milhões na inquisição” e que Salazar era uma versão portuguesa do nazismo. Aprendi que Cuba era um paraíso na Terra, e que o mundo não era outra coisa se não uma eterna luta entre opressores e oprimidos, o mesmo roteiro em cenários diferentes…

Nas aulas (terrivelmente tediosas) de Gramática devia decorar uma lista incansável de regrinhas.
Para que isso? – perguntei certa feita a professora.
Para passar no vestibular... – me respondia.

As aulas de Matemática Aplicada não podiam estar mais longe da aplicação, aprendia fórmulas e complexos raciocínios , mas nenhuma indicação de como aplicá-lo em situações cotidianas.

E o que dizer então das aulas de Química, e Física?Totalmente voltadas ao tal do ”Vestibular”, com suas musiquetas e trocadilhos idiotas a fim de decorar fórmulas cujo o sentido do uso não compreendia.

As únicas aulas que escapavam desta lógica: Artes e Educação Física. Mas eram como fosse um segundo recreio: a professora de Artes nos dava algumas folhas e tintas para rabiscarmos; já o professor de Educação Física dava uma bola para jogarmos futebol, e sumia. 

Nenhuma destas, porém, foram piores que minhas aulas de Inglês, lá era eu induzido a decoreba de mil regrinhas a respeito do uso de verbos que não sabia o significado para frases que minha velha professora traduzia de má vontade. E assim foi, que depois de 7 anos desta disciplina ainda sou incapaz de ler um texto na língua anglo-saxônica sem recorrer ao Google Tradutor.

BAMMMMMM! O sinal batia, e finalmente podia eu ir pra casa.

E assim foi ano após ano, sendo eu obrigado dia após dia à frequentar aulas e mais aulas da escola, sem que meus professores me desse quaisquer respostas do porque de eu estar ali, se não para o tal do vestibular.

Educação, educação, educação. Escola, escola, escola.

Ao menos no que se propôs, funcionou, serviu para me fazer ”passar no vestibular”, nos dois que prestei passei em uma boa colocação sem dificuldade, mas perdi tanto tempo para tão pouco...E a vida acadêmica na faculdade não é lá grande coisa, mas isso é assunto para outra hora.

Ah, se me tivesse sido ensinada a verdadeira História! Ah se me tivesse sido ensinado colocar em prática os raciocínios abstratos da Química, da Física e da Matemática! Ah, se a professora de Gramática tivesse dito sobre a importância da língua na compreensão e desenvolvimento do horizonte mental do individuo! Ah, se meu professor de Educação Física tivesse me mostrado outro esporte que não o futebol!

Aqui estou eu, depois de anos dessa tal educação, procurando me virar, limpar a mente das mentiras e cacoetes ensinados, e a procura de aprender aquilo de importante que não aprendi… Buscando a verdadeira história, aplicando à vida concreta as abstrações, treinando o corpo na disciplina de um esporte que me agrada.

Quem dera no passado eu não tivesse sido um bom aluno… Sim, isso mesmo. Quem sabe se eu fosse da turminha do ”fundão”, da zoeira, não teria eu tanto trabalho hoje para limpar a mente das porcarias aprendidas no ontem, com a tal ”educação”.

Quanto tempo perdido, quantos anos ali sentados naquela carteira só para cumprir uma exigência curricular, só para passar numa provinha de múltipla escolha ao final da jornada… E hoje falam em escolas de tempo integral! Penso nas pobres crianças….

Acaso venha eu a ter filhos e fossem eles obrigados a frequentar tais instituições lhes daria o seguinte conselho:
-Não deixe que a escola mate seu desejo de conhecimento meu filho! Se dedique o suficiente para sair daí com o ”papel” o mais rápido possível, e ter tempo de sobra para estudar de verdade.

Educação!Educação! Escola! Escola! -gritam os políticos.
-Que tipo de educação? -pergunto eu, a multidão se aquieta, e não sobra nada além do velho sorrisinho cínico, a contemplar a própria mentira enunciada. O mesmo sorriso de meus velhos professores, o sorriso de alguém que não acredita na real utilidade daquilo que diz.

sábado, 15 de julho de 2017

Vatican Kiseki Chousakan/Vatican Miracle Examiner (S01-EP02)


Saiu o segundo episódio de Vatican Kiseki Chousakan/Vatican Miracle Examiner. A narrativa ganha contornos ainda mais tensos e interessantes, mesmo assim ainda é difícil julgar a "catolicidade" do anime pelos dados até agora apresentados...

(Vale mencionar: o tradutor não parece ser muito católico; o "São Rosário" na legenda foi difícil de engolir rsrs.)

  Vatican Miracle Examiner (S01-EP02)

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Cardeal Sarah quer “reconciliação litúrgica” das formas antiga e nova da missa

Robert Sarah, cardeal guineense, quer ver um fim às batalhas entre os apoiadores da forma extraordinária da liturgia e aqueles que são a favor da celebração ordinária da missa, forma desenvolvida após o Concílio Vaticano II.

Por decisão de Bento XVI, com a publicação do documento Summorum Pontificum dez anos atrás, houve uma suspensão das restrições em celebrar a liturgia pré-conciliar, autorizando um uso ampliado do antigo rito. Nesta versão, a missa é conduzida por um padre proferindo as orações em latim, as quais são, em sua maioria, inaudíveis e de costas ao povo, ou seja, com o sacerdote de frente para o oriente, postura conhecida como ad orientem. Os devotos desta forma da missa a elogiam por seu mistério transcendental e a têm como uma via à contemplação.

Os críticos dizem, porém, que a decisão de Bento XVI foi um movimento que acabou gerando divisão, pondo em dúvida as reformas do Concílio de 1962 a 1965: este permitiu que a missa fosse celebrada nas línguas vernáculas e com uma ênfase na “participação ativa” do povo. A “forma ordinária” reformada da liturgia é aquela celebrada na grande maioria das paróquias ao redor do mundo.

Em artigo à revista francesa La Nef para marcar os dez anos desde a publicação de Summorum Pontificum, Sarah agora quer reconciliar os ritos com um novo calendário compartilhado para quando se celebrarem dias santos, garantindo que ambas as formas da missa usem as mesmas leituras bíblicas ao mesmo tempo. Sob o comando de Bento XVI, uma comissão trabalhou, por muitos anos, nesse sentido, mas sem sucesso.

Esse movimento do prelado guineense é, por um lado, um movimento conciliatório, visto que ele tem amplamente promovido os desejos dos tradicionalistas desde que assumiu a presidência da Congregação para o Culto Divino.

No artigo, o religioso pede um fim à frase “reforma da reforma”, ideia levantada pelos que querem que a forma ordinária da missa seja mais parecida com o rito antigo.

“‘Reforma da reforma’ se tornou sinônimo de domínio de um clã sobre o outro”, escreve ele em francês. “Esta expressão pode então se tornar inadequada, portanto prefiro falar de reconciliação litúrgica. Na Igreja, o cristão não tem opositor!”.

No ano passado, durante uma palestra em Londres, o cardeal disse que “não podemos descartar a possibilidade ou o desejo de uma reforma oficial da reforma litúrgica”, e fez um apelo aos padres para que começassem a rezar a missa ad orientem. Mas, logo depois, ele se encontrou com o papa que, segundo nota divulgada pelo Vaticano, disse ao cardeal que nenhuma orientação nesse sentido deveria ser dada, ao mesmo tempo em que o porta-voz da Santa Sé falou que a frase “reforma da reforma” deveria ser evitada.

Porém, no mesmo momento em que pede reconciliação, o cardeal também quer que a versão ordinária da missa assuma elementos da versão extraordinária, adotando um maior uso do latim e tendo os padres a rezarem determinadas orações em silêncio. Em abril deste ano, Sarah denunciou o “desastre, a devastação e o cisma que os promotores modernos de uma liturgia viva causaram” e disse que a Igreja, depois do Concílio Vaticano II, abandonara as suas “raízes cristãs”.

No artigo publicado em Le Nef, o prelado ainda propõe que a forma mais recente da liturgia adote o seguinte: a comunhão seja recebida de joelhos e sobre a língua, a inclusão de “Orações ao Pé do Altar”, que acontecem no antigo rito, e que o sacerdote se certifique de que, após consagrar a hóstia, os dedos que a tocaram permaneçam unidos.
O cardeal afirma que os que usam o antigo rito da missa para pôr em dúvida oVaticano II estão “gravemente em erro”, mas também escreve que as reformas conciliares não “contradizem” aquela que veio antes.

“Seria, pois, um erro considerar as duas formas diferentes de liturgia como se mostrassem duas teologias opostas”, explica o religioso.

“É uma prioridade que, com a ajuda do Espírito Santo, possamos examinar, via oração e estudo, como voltar a um rito reformado comum sempre com o objetivo de uma reconciliação dentro da Igreja. Por enquanto, ainda há violência, desprezo e uma oposição prejudicial que destrói a Igreja e nos afasta ainda mais da unidade pela qual Jesus orou e morreu na Cruz”, escreve o cardeal.

Aos apoiadores do rito, o religioso enfatiza que a liturgia não é um “objeto de museu”, mas, diferentemente, pode ser “frutífero aos cristãos de hoje”. Sarah também sustenta ser essencial que os fiéis que frequentam as missas na forma extraordinária tenham uma forma de “participação ativa” na liturgia, e que as leituras bíblicas – que geralmente são lidas em latim – sejam compreendidas pelas pessoas nos bancos da igreja.

Quando se trata da liturgia mais recente, o prelado quer que os padres assumam um papel menos proeminente e quer uma cruz grande sobre o altar, que possa ser vista por todos e, dessa forma, se torne “um ponto de referência a toda a congregação reunida”.

Fonte: The Tablet
Tradução: IHU Unisinos

A Complexidade Psicologico-Simbólica de Digimon

Se tem uma coisa que não canso de repetir é o fato de que a ficção se trata de um poderoso meio de transmissão de idéias, e que todos os produtos da cultura pop têm, por trás de si, uma multidão de conceitos e filosofias que podem contribuir para edificação ou degeneração do homem. Sobretudo no entretenimento infantil essa realidade ganha tons ainda mais graves uma vez que a criança não dispõe ainda de um correto discernimento para lidar com os aspectos "venenosos" de certas obras da moderna indústria cultural. Deste modo, caberia a pais responsáveis selecionar cuidadosamente o entretenimento consumido por seus filhos, principalmente durante sua primeira década de vida. Um desenho infantil nunca é mero entretenimento. É um compêndio simbólico de ensinamentos dirigido a crianças.

Afim de ilustrar toda a complexidade de uma simples narrativa ficcional infantil, trago hoje ao leitor uma breve análise da obra Digimon, tanto do ponto de vista simbólico (apresentado no vídeo), quanto do ponto de vista psicológico (como é destacado no texto).

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(...) O mundo real em Digimon, é bem próximo da realidade. É extremamente conflituoso e problemático:

*Takeru e Yamato são irmãos separados pelo divórcio dos pais, o que faz de Takeru, uma criança insegura e assustada e de Yamato um irmão superprotetor, cheio de ciúmes (foram criados um pelo pai e outro pela mãe, apesar de eles se encontrarem uma vez lá, não tinham até então um laço como irmãos, descobriram isso durante a série!). (...)

*Sora tem uma relação difícil com sua mãe, que lhe parece distante e fria. Motivo? A mãe de Sora desejava que a sua filha se tornasse uma pessoa moldada por ela mesma: sem gostos, sem opiniões! Ocorre que Sora era uma menina diferente das demais! (...) Por conta dessa insegurança e de como a sua mãe a tratava, Sora pensava que sua mãe não a amava e, por conta disso, ela também não amava a sua mãe, então ela que não amava ninguém, não poderia ter como valor, o brasão do “amor”, ao final de adventure, ela descobre o significado da palavra amor!

*Koushiro (Izzy) descobre que foi adotado e tanto ele como seus pais sofrem com o segredo que envolve o fato. Durante toda a série, ele não sabe como chegar aos pais e dizer que em um determinado dia, ele escutou uma conversa entre ambos e sabe que é uma criança adotada, e os pais não sabem como chegar a ele e contar que ele é um filho adotado. Koushiro descobre que ele tem a “SABEDORIA” como virtude, e que ele pode fazer uso dela pra que ele vença seus próprios medos, e que façam assim ele evoluir como ser humano. No final de Digimon Adventure, ele consegue ter a conversa com seus pais, e dizer a eles, que ele os ama acima de qualquer coisa! (...)

*Jou (Joe) é um CDF compulsivo, inseguro e assombrado pelas expectativas de seus pais em relação ao seu sucesso na vida. A escolha da problema de Jou é uma tragédia, que já se tornou muito comum no Japão: jovens que se matam por serem inseguros, e terem medo de não atingir as expectativas que seus pais esperavam. (...)

*Mimi é fútil e egoísta. Isso ocorre em casos que os pais são super protetores (...) A Mimi em Digimon é bem retratada, assim como seus pais; acho que ela é a que mais sofre quando tem a prova de fogo de conseguir sobreviver em um mundo estranho, onde não pode contar com o apoio de ninguém bajulando e realizando suas vontades. (...)

*Taichi parece ser o mais estável do grupo, mas seus pontos fracos são sua irmã mais nova, de saúde frágil e ar triste, e seu sentimento de culpa por não poder protegê-la sempre. (....)

No Mundo Digital, ao serem forçados a formar um grupo, as crianças não conseguem, a princípio, vencer sua insegurança e seus problemas pessoais. O conflito é permanente e declarado, inclusive com violência física, como entre Taichi e Yamato. A eliminação dos conflitos é lenta e dolorosa, e apenas ao final da primeira parte da série, no último episódio, praticamente, eles conseguem a confiança que vem do auto-conhecimento e da certeza de que têm entes queridos que os apoiam.

Os conflitos não se restringem às oito crianças principais: os adultos também sofrem as mesmas angústias das crianças, não conseguem organizar suas vidas adequadamente. E também os digimons têm dúvidas e sofrimentos, anseios e preocupações que os levam a lutas, à fuga ou a uma existência de medo e incerteza. [1]
***

Além do já mencionado, note o leitor a recorrência da mesma estrutura narrativa em que chamei atenção em minha crítica sobre o filme Alice no País das Maravilhas: protagonistas com problemas e dificuldades no mundo real que escapam para o mundo das fadas (no caso aqui, o Digimundo), um mundo de fantasia, onde aprendem a desenvolver as virtudes necessárias para bem viver sua vida cotidiana. Este tipo de estrutura é bem comum no entretenimento infantil, o jogo Final Fantasy Tactics Advanced se destaca por aprofundar um pouco mais na temática:

(...) Em se tratando de jogos com esse tema, temos o Final Fantasy Tactics Advanced, onde no jogo o "Final Fantasy" é visto como um jogo e a historia se passa no mundo real.

Mesmo o jogo sendo um pouco infantil, ele até consegue debater bem sobre esse tema. Mas mostrando varias perspectivas. Temos o nosso herói Marche onde ele e seus dois amigos tem sérios problemas em sua realidade. Enquanto um tem problemas pessoais, o outro teve a mãe que morreu e seu pai que não conseguiu seguir adiante depois da tragédia, deixando o garoto que já tinha problemas ainda mais recluso.

Um dia, os três vão para outro mundo. O protagonista pretende voltar ao mundo real, mas para isso ele tem que destruir cristais que vão criar uma desestabilização naquele mundo, fazendo assim ele e seus amigos voltarem pra casa. Porém, diferente das histórias padrões, os seus amigos não querem voltar pra casa, muito pelo contrário eles decidem ficar nesse mundo, pelo fato de ser tudo o que eles queriam. A garota tem seu sonho realizado, o garoto recluso sem mãe e com um pai fraco, nesse mundo a mãe dele é viva e seu pai é forte e confiante. (...)[2]
Em Final Fantasy Tactics Advanced a discussão vai mais além, tocando a fundo o problema da função da fantasia. Se por um lado temos sua função pedagógica, onde o mundo das fadas é um instrumento para o crescimento nas virtudes, por outro temos seu potencial alienante, onde procura-se usá-lo como uma fuga do mundo real.

De todo o modo, voltemos a Digimon; temos tamanha complexidade psicológico-simbólica em uma simples narrativa infantil, mas, seria o imaginário infantil capaz de absorver tudo isso? Para responder esta questão consulto as reminiscencias de minha infância, creio que devia ter cerca de 8~10 anos no tempo em que me encantava com as maravilhas do digimundo na TV Globinho. Embora toda a estética simbólica do anime me causasse admiração, não era capaz de penetrar em seu significado profundo, mesmo a complexidade psicológica da narrativa passou despercebida; o que guardei na época foi certa admiração pela semelhança (?) entre o temperamento do personagem Yamato/Matt (não sei dizer ao certo se realmente tinha um temperamento e personalidades semelhantes, ou se acabei incorporando isso por mimetismo) e o meu. Vi ali a expressão de certas tendências de personalidade que possuía dentro de mim. Outra coisa que me marcou profundamente na época foi a figura de Angemon, foi ela a primeira e mais ''concreta'' referência imaginária que encontrei daquilo que seria um anjo, a partir daquele personagem é que pude compreender e imaginar a verdade católica a respeito dos anjos da guarda que aprendi em minha catequese infantil.


Conscientemente é isso que lembro-me de ter absorvido, entretanto, a simbólica de Digimon marcou-me tão fortemente, tal qual uma semente, um arquivo compactado, que senti a necessidade de na fase adulta cultivar esta semente, descompactar este arquivo, aprofundar-me no significado da narrativa, e daí veio a pesquisa que originou este artigo.

Concluindo, embora Digimon não é seja uma obra católica e, tampouco, um destes entretenimentos modernos novordistas com vistas a engenharia social; enquadrando-se numa espécie de ''conto de fadas japonês'' lotado de referências culturais, religiosas e sociológicas diversas, mais ou menos explícitas (e classifico como positiva a influência desta obra sobre o imaginário infantil), é um ilustrativo exemplo da profundidade das obras de ficção infantil, e um convite a deixar cair as escamas dos olhos tratando com realismo, seriedade e prudência a temática da fantasia ficcional e sua influência sobre o imaginário infantil.

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[1]O texto intitulado "A Filosofia de Digimon" foi parcialmente alterado nesta publicação, não em seu conteúdo mas em sua forma: ortografia, gramática, coesão, e etc. Embora tenha sido feliz nas constatações, o autor do texto original derrapou um pouco na hora de expressá-las textualmente.
[2]O texto "A filosofia dos mundos paralelos dos animes e jogos japoneses" também foi parcialmente alterado em sua forma nesta publicação.